11
Tudo menos pela Humanidade
Revira os olhos quando ouve tal heresia profanada em plena casa de Deus, bem-amada: "ouvi gemidos na casa de banho". Exerce ali funções de padre desde que a cidade foi implantada. Dantes, trabalhava como mecânico numa pequena oficina, herdada do avô paterno, onde pregava aos clientes a belíssima reparação do motor e do tubo de escape. Mas as dívidas acumularam-se de tal forma que a oficina passou a propriedade do Estado, acompanhada pelas prostitutas caras a meio do dia.
A humidade nas profundezas das ruas distancia as pessoas. Parece prever tempestade. Ao entrar na igreja, todas as manhãs, arrepia-lhe o cheiro a mortos. Descobre o pulso e boceja, batendo lentamente com a mão na boca. O burburinho inicial indica que os bancos estão perto de ser preenchidos. A hora da missa aproxima-se. Prega-a duas vezes por dia gesticulando sempre as mãos como um director financeiro chinês. Durante as leituras bíblicas olha para lá do horizonte da igreja e ignora o público moribundo que procura em si a salvação.
À saída, de cigarro na boca, pisca discretamente o olho ao secretário da igreja que sorri e acena a cabeça, confirmando o encontro. Espera-o apoiado no lavatório da casa de banho encerrada para obras, acendendo por fim o cigarro pós-sermão. Trocam poucas palavras antes de o secretário romeno despir as calças e o padre ajoelhar-se à sua frente. A necessidade de discrição é estimulante mas implica falar raramente em público para não chamar a atenção. Gosta que o penetrem com o traje ainda vestido. Fá-lo sentir-se mais próximo d'O Criador. O "estrangeirinho", como o trata, parece realmente apaixonado pelo senhor padre. As suas origens nómadas foram subvertidas pela capacidade de persuasão do padre que, numa tarde de Fevereiro, o encontrou com as roupas completamente ensopadas na única taberna da cidade que vende os cigarros mais fracos do mercado.
Oito meses depois e o "estrangeirinho" passa a viver em casa do padre na condição deste lavar a roupa e tratar do jantar. Aceitou, claro. A vida que levava na Europa de Leste, ainda na década de noventa, em nada se compara a uma vida de lides domésticas em Portugal. Deixou a Roménia sem pensar duas vezes. Começou a fumar aos quatro anos a mando do pai alcoólico, desempregado há mais de dez anos. Aos doze corria as ruas à procura de alimento quando não conseguia assaltar os colegas à saída da escola.
Mas os encontros casuais na casa de banho passaram a jantares com direito a vinho e sadomasoquismo. O padre pedira-lhe que lhe acorrentasse os pulsos na cama. Estava nu e as vertigens que o sexo oral lhe provocavam camuflaram o som da porta a abrir. Alguém desconfiado de que o padre podia estar a ser violentado fez uma denúncia anónima que resultou na detenção do homem romeno. O padre algemado à cama, desnudo, com manchas negras e chupões espalhados pelo corpo eram prova suficiente para condenar o pobre rapaz a doze anos de prisão. O padre confirmou a versão.
Existem muitas versões sobre a criação destas cidades-protótipo, sobre que propósito foram construídas e quais seriam as condições humanas que teríamos que abdicar em prol de uma sociedade que se veste falsamente de branco. E se não lembra a Deus, há sempre teorias macabras e verdadeiras torturas textuais que escrevem por baixo a favor da escravatura do homem. O homem é escravo de si próprio. É filho e escravo de si próprio. Mas a ingratidão maior acontece quando nos cortam o cordão umbilical, quando deixamos de nos puder sentir próximos à mãe criadora. Embalam-nos nos braços e depois de umas palmadinhas nós choramos, cada um com o seu choro.
A versão mais encantadora sobre a cidade é a minha. Em todas as frechas do passeio namoram beatas de tabaco humedecidas e isso assusta qualquer um. Tornámo-nos pessoas ingratas em prol do individualismo, mau salvador, que nos afasta e nos impede de alcançar o estado de nirvana. Não existe mais controlo sobre o poder que é invisível e que, a olho nu, nos vai fodendo devagarinho o rabo. O simples acto de acender um cigarro resultava na morte do fumador. Não havia mais ópera salvadora...