Sou pessoa incógnita. Não me sinto pretendente a identidade
alguma. E se dizê-lo não me parece correto, colocá-lo entre palavras que se
dispersam após a leitura, não convindo mais ao leitor, trata-se de um gesto
absolutamente ignóbil. Mas a verdade é que as pessoas que encontro refletidas quando
me olho ao espelho são me dispersas, impessoais, incaracterizáveis.
"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche
quarta-feira, maio 30, 2012
As Garras dos Perus
Estendi-lhes o pé mas por razões
que me são interditas eles não mo devolveram de volta. Afincaram-se a ele de
tal forma que perdi o meu próprio pé e com ele também a noção de que sem ele
sobrevivo minimamente bem. Não me permito às garras deles, de dimensão bem
superior às minhas. Elas não me inquietam mais porque me soltei das amarras que
teimavam em embrulhar-se no meu escalracho e não me calcei mais, nem sapatos,
nem sabrinas, nem mesmo uns humildes chinelos; e se, por acaso, me perguntarem porquê
direi que sofro de calosidades e que sem elas não me levantaria tão afincadamente
pela manhã.
L.I.B.E.R.A.T.I.N.G
Exercício de Escrita Visual – O Olho Humano
Henri Bergson (Prémio Nobel da Literatura, 1859-1941)
Caligrafia GordoLetters
Um olho e uma
mama. Ou a ilustração sobreposta de um
palácio árabe virado do avesso. Refiro-me à fusão das imagens visuais nos meus
olhos e à excitação que funde as imagens mais significativas. Sobranceira ao
olho, a sobrancelha que fita aquela/e à sua frente. Inevitavelmente a excitação
no córtex visual ausenta-se, comprometida pela mama de bico bicudo e pelo
oleado, que dita o caminho para lá da folha. As camadas neuronais do corpo são velozes
e adiantam-se às dela/e, fazem-na/o tropeçar e intriga-a/o o seu olhar
carregado e tenebroso.
Mãe-Luz. É
a luz invisível que ali se depara ou espectro eletromagnético detetado pelo
olho humano. A senhora espiga que observo no quadro ao lado comemora sozinha o
advento próximo do sol. Os braços são ondas de luz natural; a cabeleira três
raios solares e o torso uma manta grossa de algodão. Esta figura, tão serena e
esguia, aparenta uma mulher de meia-idade algarvia. Com o passar do tempo, as
suas pernas tornaram-se estaca e, como um espantalho, a mulher espiga, ou a mãe-luz,
espanta as sombras que lhe tapam o sol.
Estrabismo. Sofre de estrabismo horizontal a pobre criatura. É género
raro que consiste na falta de fusão adequada ao eixo visual dos olhos em uma ou
mais coordenadas visuais. No seu caso, o olho esquerdo torto que viaja pelo
deserto com uma mala de viagem e dois binóculos de visão noturna. Não pediu
licença para partir. Partiu e pronto.
Durante a leitura. Quando
lemos são os olhos que correm e não as letras. Mas ele não lê, observa.
Movimenta os olhos três vezes por segundo extraindo a informação importante do
quadro. Ao observar a pintura, num quadro qualquer exposto na parede branca de
contraplacado em frente, o beicinho das mãos não se atreve a dar nem mais um
passo. Está há horas ali especado. Um ângulo de leitura e assim por diante…
Porque movimentamos os olhos três vezes por segundo, cem mil vezes por dia.
Olho reprimido. Falo quando o olho direito é usado o tempo todo e o esquerdo deixado ao abandono
num canto. O olho dominante, conectado diretamente ao sistema nervoso, pratica
já sem acuidade visual o voo experimental em busca de alimento. Mas este nem
sempre é bem-sucedido. A ave velha, de asas pesadas e pupila preta, não voa
mais.
O olho e o cérebro. Ou a rede complexa que nos possibilita assimilar o que se passa à nossa volta. Vejo e perceciono a completa integridade de ambos quando vejo e reconheço ao lado o ninho de flamingos bebés que debicam o ar esganados de fome. A impressão sensorial que primeiro ocorre no olho e que depois é reconhecida pelo cérebro.
quinta-feira, maio 17, 2012
quarta-feira, maio 02, 2012
Os Que Passam a Correr
Se vamos a passear à noite por uma rua e um homem que ao longe se avista - porque a rua sobe à nossa frente e a lua está cheia - vem a correr de encontro a nós, então não o vamos agarrar, apesar de ele ser fraco e andrajoso, apesar de vir uma pessoa a correr atrás dele e a gritar, vamos antes deixá-lo passar.
Porque é de noite e não temos culpa que a rua seja a subir e esteja iluminada pela lua, e, além do mais, talvez estes dois homens tenham organizado a caça para seu divertimento, talvez os dois persigam um terceiro, talvez o primeiro esteja a ser injustamente perseguido, talvez o segundo queira matar e nós seríamos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada qual apenas corra, por sua própria iniciativa, para a sua cama, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.
E afinal de contas não podemos nós estar cansados, não é verdade que bebemos muito vinho? Estamos contentes por também já não vermos o segundo homem.
Franz Kafka
terça-feira, maio 01, 2012
LAS PALABRAS
, Octavio Paz
Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas sus palabras.
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