"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche
segunda-feira, junho 10, 2013
quinta-feira, junho 06, 2013
Primeiro, com o seu desinteresse total pelo que ela viveu no estrangeiro, amputaram-lhe de vinte anos de vida. Agora, com este interrogatório, tentam voltar a coser o seu passado antigo e a sua vida presente. Como se a amputassem do antebraço e lhe fixassem a mão directamente no cotovelo; como se a amputassem das pernas pelo joelho e lhe prendessem os joelhos aos pés.
Siderada por esta imagem, não é capaz de responder às perguntas delas; as mulheres, de resto, não estão à espera disso e, cada vez mais embriagadas, voltam às suas tagarelices que deixam Irena de parte. Ela vê as suas bocas que se abrem todas ao mesmo tempo, bocas que se mexem, que emitem palavras e rebentam de riso sem parar (mistério: como é que as mulheres que não se ouvem se podem rir do que dizem umas às outras?). Já nenhuma se dirige a Irena, mas esplendem todas de bom humor, a mulher que no início mandou vir cerveja põe-se a cantar, as outras fazem o mesmo e, até depois de acabado o serão, na rua, não páram de cantar.
Milan Kundera, in "A Ignorância"
Porque voa uma mosca no quarto ao lado?
Investigou-a pelo canto do olho e num gesto de repulsa cuspiu para o chão. O olhar dele era de desdém. Alguém roubara-lhe o pito e com certeza que fora aquela criatura de falinhas mansas que desatina facilmente e que o apunhala pelas costas num ápice se assim for caso disso. Isto dito pelos elegantes elefantes que caminham à minha frente, pela frase adentro, de trombas dadas ao encalce da estrada de pedra que vai dar ao pontão situado na extremidade norte da folha minha. Estilhaçam-me a escrita, fazem-na partir-se e emergir sobre uma sopa de letras que não apazigua a santa que me observa complacentemente do tocador. O véu que me desvenda o rosto e a negritude dos olhos dela é o petróleo que me emociona e não mais me atemoriza. As palavras que escrevo estão lá à frente, sempre um passo mais à frente, cochichando as letras mais à frente até a gata chamar-lhes à razão. Fita-as sem amargura. Conhece-as mas assim muito pouco. Creio na sinceridade das palavras e sigo em marcha em prol de forças maiores, da minha e da vontade dos outros pois sem eles não seria nada ou pouco seria ou a relação do nada que ignora o cúmulo de se precisar de alguém, quanto mais se não for para pensar. Se quer a mosca voar livremente pelo quarto, deixa-a voar.
quarta-feira, junho 05, 2013
“Deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos outros. Nunca julgar que aquilo em que se acredita é efectivamente a verdade. Fujo da verdade como tudo, porque acho que quem tem a verdade num bolso tem sempre uma inquisição do outro lado pronta para atacar alguém; então livro-me de toda a espécie de poder - isso sobretudo.
Agostinho da Silva
Agostinho da Silva
segunda-feira, junho 03, 2013
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