"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

quinta-feira, junho 06, 2013

Primeiro, com o seu desinteresse total pelo que ela viveu no estrangeiro, amputaram-lhe de vinte anos de vida. Agora, com este interrogatório, tentam voltar a coser o seu passado antigo e a sua vida presente. Como se a amputassem do antebraço e lhe fixassem a mão directamente no cotovelo; como se a amputassem das pernas pelo joelho e lhe prendessem os joelhos aos pés.
Siderada por esta imagem, não é capaz de responder às perguntas delas; as mulheres, de resto, não estão à espera disso e, cada vez mais embriagadas, voltam às suas tagarelices que deixam Irena de parte. Ela vê as suas bocas que se abrem todas ao mesmo tempo, bocas que se mexem, que emitem palavras e rebentam de riso sem parar (mistério: como é que as mulheres que não se ouvem se podem rir do que dizem umas às outras?). Já nenhuma se dirige a Irena, mas esplendem todas de bom humor, a mulher que no início mandou vir cerveja põe-se a cantar, as outras fazem o mesmo e, até depois de acabado o serão, na rua, não páram de cantar.

Milan Kundera, in "A Ignorância"

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