"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

quarta-feira, maio 11, 2011

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Tudo menos pela Humanidade

Revira os olhos quando ouve tal heresia profanada em plena casa de Deus, bem-amada: "ouvi gemidos na casa de banho". Exerce ali funções de padre desde que a cidade foi implantada. Dantes, trabalhava como mecânico numa pequena oficina, herdada do avô paterno, onde pregava aos clientes a belíssima reparação do motor e do tubo de escape. Mas as dívidas acumularam-se de tal forma que a oficina passou a propriedade do Estado, acompanhada pelas prostitutas caras a meio do dia.
A humidade nas profundezas das ruas distancia as pessoas. Parece prever tempestade. Ao entrar na igreja, todas as manhãs, arrepia-lhe o cheiro a mortos. Descobre o pulso e boceja, batendo lentamente com a mão na boca. O burburinho inicial indica que os bancos estão perto de ser preenchidos. A hora da missa aproxima-se. Prega-a duas vezes por dia gesticulando sempre as mãos como um director financeiro chinês. Durante as leituras bíblicas olha para lá do horizonte da igreja e ignora o público moribundo que procura em si a salvação.
À saída, de cigarro na boca, pisca discretamente o olho ao secretário da igreja que sorri e acena a cabeça, confirmando o encontro. Espera-o apoiado no lavatório da casa de banho encerrada para obras, acendendo por fim o cigarro pós-sermão. Trocam poucas palavras antes de o secretário romeno despir as calças e o padre ajoelhar-se à sua frente. A necessidade de discrição é estimulante mas implica falar raramente em público para não chamar a atenção. Gosta que o penetrem com o traje ainda vestido. Fá-lo sentir-se mais próximo d'O Criador. O "estrangeirinho", como o trata, parece realmente apaixonado pelo senhor padre. As suas origens nómadas foram subvertidas pela capacidade de persuasão do padre que, numa tarde de Fevereiro, o encontrou com as roupas completamente ensopadas na única taberna da cidade que vende os cigarros mais fracos do mercado.
Oito meses depois e o "estrangeirinho" passa a viver em casa do padre na condição deste lavar a roupa e tratar do jantar. Aceitou, claro. A vida que levava na Europa de Leste, ainda na década de noventa, em nada se compara a uma vida de lides domésticas em Portugal. Deixou a Roménia sem pensar duas vezes. Começou a fumar aos quatro anos a mando do pai alcoólico, desempregado há mais de dez anos. Aos doze corria as ruas à procura de alimento quando não conseguia assaltar os colegas à saída da escola.
Mas os encontros casuais na casa de banho passaram a jantares com direito a vinho e sadomasoquismo. O padre pedira-lhe que lhe acorrentasse os pulsos na cama. Estava nu e as vertigens que o sexo oral lhe provocavam camuflaram o som da porta a abrir. Alguém desconfiado de que o padre podia estar a ser violentado fez uma denúncia anónima que resultou na detenção do homem romeno. O padre algemado à cama, desnudo, com manchas negras e chupões espalhados pelo corpo eram prova suficiente para condenar o pobre rapaz a doze anos de prisão. O padre confirmou a versão.

Existem muitas versões sobre a criação destas cidades-protótipo, sobre que propósito foram construídas e quais seriam as condições humanas que teríamos que abdicar em prol de uma sociedade que se veste falsamente de branco. E se não lembra a Deus, há sempre teorias macabras e verdadeiras torturas textuais que escrevem por baixo a favor da escravatura do homem. O homem é escravo de si próprio. É filho e escravo de si próprio. Mas a ingratidão maior acontece quando nos cortam o cordão umbilical, quando deixamos de nos puder sentir próximos à mãe criadora. Embalam-nos nos braços e depois de umas palmadinhas nós choramos, cada um com o seu choro.
    A versão mais encantadora sobre a cidade é a minha. Em todas as frechas do passeio namoram beatas de tabaco humedecidas e isso assusta qualquer um. Tornámo-nos pessoas ingratas em prol do individualismo, mau salvador, que nos afasta e nos impede de alcançar o estado de nirvana. Não existe mais controlo sobre o poder que é invisível e que, a olho nu, nos vai fodendo devagarinho o rabo. O simples acto de acender um cigarro resultava na morte do fumador. Não havia mais ópera salvadora...

segunda-feira, janeiro 31, 2011

A cidade do fumo

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    Dois polícias à paisana entram no cemitério no momento em que Balbúcio dá o primeiro travo. "Os seus documentos, por favor", pedem-lhe antes de se apresentarem. Sem a documentação em dia mais o roubo e a multa de cento e cinquenta euros por desobedecer a lei que proíbe fumar nos cemitérios, Balbucio é detido à força pelos dois policiais de barba longa, entrançada, e encaminhado para uma cela provisória nas traseiras da esquadra da polícia. E são tantos os que por lá param, apanhados a roubar tabaco a gente honesta e trabalhadora. São proferidos palavrões que Balbucio, o homem gago, desconhece. Gagueja ao pedir um cigarro ao rapaz com ar de estrangeiro no fundo da cela. Ao invés de um cigarro, leva uma chapada. Retira-se revoltado.

A cidade do fumo

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    Não via o meu tio há doze anos. Tem mais rugas e menos dentes desde a última vez em que o vi deitado na cama do hospital a recuperar de uma pneumonia. Fez sopa de rabo de boi e uns biscoitos de azeite para o jantar. Trocámos poucas palavras à refeição. Mas antes de ir para a cama pedi licença para entrar no escritório. Pergunto-lhe se a máscara de oxigénio está a funcionar normalmente. Pela primeira vez desde que cheguei olha-me nos olhos. Viro costas e desejo-lhe uma boa noite.
    A cama está gelada. Não sinto os pés que entalo ao fundo da cama. Não consigo dormir. Talvez por causa do frio. Oiço a tijoleira ranger e espontaneamente tapo o rosto da mesma forma que tapei o rosto há doze anos atrás. Dormia de camisa, sem cuecas. Ele vinha, tapava-me os olhos com um lenço, amarrava-me as mãos e os pulsos e levava-me para o seu quarto. Os abusos ter-se-ão repetido até aos meus 16 anos.
    Não me revolvo mas consinto que ele entre na cama. Sussurra-me alguma coisa ao ouvido que não percebo. Digo-lhe para se aproximar e peço-lhe que me toque, que me morda os lábios, que me castigue novamente. Mas está velho e a pujança de outrora deu lugar a um amor mais meigo, mais frustrado, mais convalescente. Canso-me rápido daquela moleza e acendo um cigarro. O seu olhar parece não compreender a minha indiferença. Inspiro fundo e cerco-lhe o rosto com o fumo que o torna ainda mais deplorável. Despeço-me pegando numa garrafa de gin.
    Percorro a cidade em busca de alguém que me sacie. Mas só vejo pessoas velhas entorpecidas pelo fumo que vagueia junto ao chão, crianças moles, mulheres que não me olham de frente. Paro para "pedir esmola" ao único homem decente que vejo na rua a esta hora. Mais tarde e estará a oferecer-me um cigarro no seu quarto.
    Enquanto fumo desaperta sem jeito um botão da camisa. Coça os tomates e diz ser mais novo do que realmente.
    Na manhã seguinte, tenho as ancas e as pernas doridas de arcar com todo aquele vigor sexual. Acordo com o barulho de alguma coisa a cair no chão. E repentinamente puxa-me covardemente pelo braço e atira-me para fora do quarto. Cago na revolta. Não merece. E embalada por uma lucidez inesperada impeço-me de deixar a hospedaria de cara tapada e espero pacientemente que ele saia do quarto.

A cidade do fumo

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     Balbúcio estava desesperado por um cigarro. Atravessou-se à frente de um carro numa corrida veloz até à tabacaria "Última" nos arredores da cidade, com o pulmão de um menino de dez anos. Pediu cinco unidades que vieram embrulhadas num saco de plástico. Dez cêntimos o cigarro. A inflação era grande e atacava-lhe directamente a bolsa. Gaguejou uma vez. Gaguejou outra. À terceira, ameaçou cortar os pulsos. O senhor da tabacaria não reagiu. Limitou-se a deitar fumo pelo nariz impávido. Então fugiu. Escapou-se do homem e correu o mais que pôde. Atravessou o canal, o campo, o parque, o átrio da igreja, subiu a escadaria da torre até chegar ao cemitério, saltou a vedação e continuou a correr.
    Perdera de vista o senhor da tabacaria quando virou à esquerda na Rua dos Malefícios. Talvez tenha parado para rezar. Talvez para pedir perdão por fumar o tabaco que vende. Olha para trás. Não vê ninguém. Arrisca parar para descansar numa daquelas campas e acende finalmente o cigarro.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

... dir-te-ei quem és!

Com a força de um espirro, torce os membros em sinal de desconforto e invoca a sabedoria do anûs sub-valorizado ao encontrar o balde de loiça da casa do vizinho. Saiu encabulado com as mãos ainda húmidas de pouco esfregá-las nas calças e despediu-se (não sabe porquê) abocanhando um queque do cesto de congratulações pela nova casa, enviado esta manhã pela prima em segundo grau da parte dos Albuquerques. As suas intenções abrem o sentido de que ele, o próprio, não é senão mais um indivíduo-cúmulo que baixa as calças quando lhe dizem "boa-noite".
Alberto, o seu nome, passa o dia a mascar tabaco em frente à televisão, aparentando desconhecer a brevidade da vida que o obriga a passar o dia a mascar tabaco em frente à televisão. Gostava de ir a África, um dia...

segunda-feira, janeiro 24, 2011

“The characters in my novels are my own unrealized possibilities”,

Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being