Balbúcio estava desesperado por um cigarro. Atravessou-se à frente de um carro numa corrida veloz até à tabacaria "Última" nos arredores da cidade, com o pulmão de um menino de dez anos. Pediu cinco unidades que vieram embrulhadas num saco de plástico. Dez cêntimos o cigarro. A inflação era grande e atacava-lhe directamente a bolsa. Gaguejou uma vez. Gaguejou outra. À terceira, ameaçou cortar os pulsos. O senhor da tabacaria não reagiu. Limitou-se a deitar fumo pelo nariz impávido. Então fugiu. Escapou-se do homem e correu o mais que pôde. Atravessou o canal, o campo, o parque, o átrio da igreja, subiu a escadaria da torre até chegar ao cemitério, saltou a vedação e continuou a correr.
Perdera de vista o senhor da tabacaria quando virou à esquerda na Rua dos Malefícios. Talvez tenha parado para rezar. Talvez para pedir perdão por fumar o tabaco que vende. Olha para trás. Não vê ninguém. Arrisca parar para descansar numa daquelas campas e acende finalmente o cigarro.
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