Não via o meu tio há doze anos. Tem mais rugas e menos dentes desde a última vez em que o vi deitado na cama do hospital a recuperar de uma pneumonia. Fez sopa de rabo de boi e uns biscoitos de azeite para o jantar. Trocámos poucas palavras à refeição. Mas antes de ir para a cama pedi licença para entrar no escritório. Pergunto-lhe se a máscara de oxigénio está a funcionar normalmente. Pela primeira vez desde que cheguei olha-me nos olhos. Viro costas e desejo-lhe uma boa noite.
A cama está gelada. Não sinto os pés que entalo ao fundo da cama. Não consigo dormir. Talvez por causa do frio. Oiço a tijoleira ranger e espontaneamente tapo o rosto da mesma forma que tapei o rosto há doze anos atrás. Dormia de camisa, sem cuecas. Ele vinha, tapava-me os olhos com um lenço, amarrava-me as mãos e os pulsos e levava-me para o seu quarto. Os abusos ter-se-ão repetido até aos meus 16 anos.
Não me revolvo mas consinto que ele entre na cama. Sussurra-me alguma coisa ao ouvido que não percebo. Digo-lhe para se aproximar e peço-lhe que me toque, que me morda os lábios, que me castigue novamente. Mas está velho e a pujança de outrora deu lugar a um amor mais meigo, mais frustrado, mais convalescente. Canso-me rápido daquela moleza e acendo um cigarro. O seu olhar parece não compreender a minha indiferença. Inspiro fundo e cerco-lhe o rosto com o fumo que o torna ainda mais deplorável. Despeço-me pegando numa garrafa de gin.
Percorro a cidade em busca de alguém que me sacie. Mas só vejo pessoas velhas entorpecidas pelo fumo que vagueia junto ao chão, crianças moles, mulheres que não me olham de frente. Paro para "pedir esmola" ao único homem decente que vejo na rua a esta hora. Mais tarde e estará a oferecer-me um cigarro no seu quarto.
Enquanto fumo desaperta sem jeito um botão da camisa. Coça os tomates e diz ser mais novo do que realmente.
Na manhã seguinte, tenho as ancas e as pernas doridas de arcar com todo aquele vigor sexual. Acordo com o barulho de alguma coisa a cair no chão. E repentinamente puxa-me covardemente pelo braço e atira-me para fora do quarto. Cago na revolta. Não merece. E embalada por uma lucidez inesperada impeço-me de deixar a hospedaria de cara tapada e espero pacientemente que ele saia do quarto.
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