"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

segunda-feira, janeiro 31, 2011

A cidade do fumo

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    Dois polícias à paisana entram no cemitério no momento em que Balbúcio dá o primeiro travo. "Os seus documentos, por favor", pedem-lhe antes de se apresentarem. Sem a documentação em dia mais o roubo e a multa de cento e cinquenta euros por desobedecer a lei que proíbe fumar nos cemitérios, Balbucio é detido à força pelos dois policiais de barba longa, entrançada, e encaminhado para uma cela provisória nas traseiras da esquadra da polícia. E são tantos os que por lá param, apanhados a roubar tabaco a gente honesta e trabalhadora. São proferidos palavrões que Balbucio, o homem gago, desconhece. Gagueja ao pedir um cigarro ao rapaz com ar de estrangeiro no fundo da cela. Ao invés de um cigarro, leva uma chapada. Retira-se revoltado.

A cidade do fumo

9

   
    Não via o meu tio há doze anos. Tem mais rugas e menos dentes desde a última vez em que o vi deitado na cama do hospital a recuperar de uma pneumonia. Fez sopa de rabo de boi e uns biscoitos de azeite para o jantar. Trocámos poucas palavras à refeição. Mas antes de ir para a cama pedi licença para entrar no escritório. Pergunto-lhe se a máscara de oxigénio está a funcionar normalmente. Pela primeira vez desde que cheguei olha-me nos olhos. Viro costas e desejo-lhe uma boa noite.
    A cama está gelada. Não sinto os pés que entalo ao fundo da cama. Não consigo dormir. Talvez por causa do frio. Oiço a tijoleira ranger e espontaneamente tapo o rosto da mesma forma que tapei o rosto há doze anos atrás. Dormia de camisa, sem cuecas. Ele vinha, tapava-me os olhos com um lenço, amarrava-me as mãos e os pulsos e levava-me para o seu quarto. Os abusos ter-se-ão repetido até aos meus 16 anos.
    Não me revolvo mas consinto que ele entre na cama. Sussurra-me alguma coisa ao ouvido que não percebo. Digo-lhe para se aproximar e peço-lhe que me toque, que me morda os lábios, que me castigue novamente. Mas está velho e a pujança de outrora deu lugar a um amor mais meigo, mais frustrado, mais convalescente. Canso-me rápido daquela moleza e acendo um cigarro. O seu olhar parece não compreender a minha indiferença. Inspiro fundo e cerco-lhe o rosto com o fumo que o torna ainda mais deplorável. Despeço-me pegando numa garrafa de gin.
    Percorro a cidade em busca de alguém que me sacie. Mas só vejo pessoas velhas entorpecidas pelo fumo que vagueia junto ao chão, crianças moles, mulheres que não me olham de frente. Paro para "pedir esmola" ao único homem decente que vejo na rua a esta hora. Mais tarde e estará a oferecer-me um cigarro no seu quarto.
    Enquanto fumo desaperta sem jeito um botão da camisa. Coça os tomates e diz ser mais novo do que realmente.
    Na manhã seguinte, tenho as ancas e as pernas doridas de arcar com todo aquele vigor sexual. Acordo com o barulho de alguma coisa a cair no chão. E repentinamente puxa-me covardemente pelo braço e atira-me para fora do quarto. Cago na revolta. Não merece. E embalada por uma lucidez inesperada impeço-me de deixar a hospedaria de cara tapada e espero pacientemente que ele saia do quarto.

A cidade do fumo

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     Balbúcio estava desesperado por um cigarro. Atravessou-se à frente de um carro numa corrida veloz até à tabacaria "Última" nos arredores da cidade, com o pulmão de um menino de dez anos. Pediu cinco unidades que vieram embrulhadas num saco de plástico. Dez cêntimos o cigarro. A inflação era grande e atacava-lhe directamente a bolsa. Gaguejou uma vez. Gaguejou outra. À terceira, ameaçou cortar os pulsos. O senhor da tabacaria não reagiu. Limitou-se a deitar fumo pelo nariz impávido. Então fugiu. Escapou-se do homem e correu o mais que pôde. Atravessou o canal, o campo, o parque, o átrio da igreja, subiu a escadaria da torre até chegar ao cemitério, saltou a vedação e continuou a correr.
    Perdera de vista o senhor da tabacaria quando virou à esquerda na Rua dos Malefícios. Talvez tenha parado para rezar. Talvez para pedir perdão por fumar o tabaco que vende. Olha para trás. Não vê ninguém. Arrisca parar para descansar numa daquelas campas e acende finalmente o cigarro.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

... dir-te-ei quem és!

Com a força de um espirro, torce os membros em sinal de desconforto e invoca a sabedoria do anûs sub-valorizado ao encontrar o balde de loiça da casa do vizinho. Saiu encabulado com as mãos ainda húmidas de pouco esfregá-las nas calças e despediu-se (não sabe porquê) abocanhando um queque do cesto de congratulações pela nova casa, enviado esta manhã pela prima em segundo grau da parte dos Albuquerques. As suas intenções abrem o sentido de que ele, o próprio, não é senão mais um indivíduo-cúmulo que baixa as calças quando lhe dizem "boa-noite".
Alberto, o seu nome, passa o dia a mascar tabaco em frente à televisão, aparentando desconhecer a brevidade da vida que o obriga a passar o dia a mascar tabaco em frente à televisão. Gostava de ir a África, um dia...

segunda-feira, janeiro 24, 2011

“The characters in my novels are my own unrealized possibilities”,

Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being