"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

terça-feira, junho 19, 2012

They are so damn 'intellectual' and rotten that I can't stand them anymore....I [would] rather sit on the floor in the market of Toluca and sell tortillas, than have anything to do with those 'artistic' bitches of Paris. [on Andre Breton and the European surrealists]

Frida Kahlo

sexta-feira, junho 15, 2012

«Preciso de dinheiro para mim próprio e não me sinto a viver em função do capital. Sei que disse muito disparate, mas tanto pior. São estas as minhas convicções.»

Dostoevskij, "Il Giocatore"

a sultana





Vemos ao longe uma formiga que desce solitária pela montanha, porventura acompanhada pelo vento que se enguiça nas suas pernitas e a faz rodopiar à volta de polens, sementes e gramíneas. Este texto é sobre um tipo de formiga. O mais subestimado mas talvez o mais importante de todos. Um tipo que ao instalar-se e conquistar o resto do reino animal, moldou a superfície do planeta e ajudou a criar a civilização humana. Esta é a história da sultana.

A floresta estende-se densa pelas planícies da montanha e alguns raios de sol alcançam o chão da floresta. Foi nele onde a sultana encontrou abrigo, nos complexos enredos de raízes que parecem invocar aos deuses a escuridão total. E aqui, na África Oriental, encontra-se uma das mais impressionantes. Uma que viria a enfrentar leões por entre estes feixes de luz preciosa. 
Estas criaturas microscópicas, com alguns centésimos de milímetro de diametro, são maravilhosamente delicadas. Os seus pequenos esqueletos lembram construção alienígena. E elas são cruciais porque constituem a base da cadeia alimentar da montanha. Com mais sultanas vieram enormes bandos de melros e avestruzes que as comiam. Depois, estes atraíram falcões e ursos e predadores ainda maiores. 
Ao microscópio, vejo fragmentos cristalinos em forma de oito. É a sultana. Penso ter encontrado a verdade ali, expressa daquela forma e posso imagina-la a debater-se no chão da floresta, a alimentar-se da pouca luz que atravessa as copas daquelas sequoias gigantes. 

(sem título) sobre o lixo


Os sacos do lixo abandonados aos milhares em frente às casas da sua cidade continuam crentes que o caixote estará menos sujo daquela vez, que terão uma viagem digna por entre o pátio alvoraçado por folhas e crianças que jogam já não sabe mais a quê. Cansa-o deitar lixo no lixo, todos os dias, várias vezes ao dia, num gesto contínuo de desperdício de tempo; o seu e o de todos os outros que durante uma vida deitam fora os seus pertences, as suas sobras, os acessórios temporários a coisa alguma ou a muita coisa porque somos muitos e indecentes quando optamos por produzir exponencialmente mais lixo.
Pega nele mais uma vez. A segunda do dia. Guarda as chaves de casa e atravessa a rua de braço airado, apesar do sacrifício que sente nas costas. Não é comum ver carros a passar àquela hora da noite. A rua está parada e parece que todos dormem menos ele e os funcionários noturnos que não tardam a aparecer para levar o seu lixo. Despede-se dele com mais um abraço e acena-lhe antes de finalmente virar as costas e entrar em casa. Já descalço, corre uma vez mais para a varanda. Os funcionários da câmara aproximam-se.   

The Prodigy of Color: Aelita Andre / a Solo Exhibition