"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

sexta-feira, junho 15, 2012

a sultana





Vemos ao longe uma formiga que desce solitária pela montanha, porventura acompanhada pelo vento que se enguiça nas suas pernitas e a faz rodopiar à volta de polens, sementes e gramíneas. Este texto é sobre um tipo de formiga. O mais subestimado mas talvez o mais importante de todos. Um tipo que ao instalar-se e conquistar o resto do reino animal, moldou a superfície do planeta e ajudou a criar a civilização humana. Esta é a história da sultana.

A floresta estende-se densa pelas planícies da montanha e alguns raios de sol alcançam o chão da floresta. Foi nele onde a sultana encontrou abrigo, nos complexos enredos de raízes que parecem invocar aos deuses a escuridão total. E aqui, na África Oriental, encontra-se uma das mais impressionantes. Uma que viria a enfrentar leões por entre estes feixes de luz preciosa. 
Estas criaturas microscópicas, com alguns centésimos de milímetro de diametro, são maravilhosamente delicadas. Os seus pequenos esqueletos lembram construção alienígena. E elas são cruciais porque constituem a base da cadeia alimentar da montanha. Com mais sultanas vieram enormes bandos de melros e avestruzes que as comiam. Depois, estes atraíram falcões e ursos e predadores ainda maiores. 
Ao microscópio, vejo fragmentos cristalinos em forma de oito. É a sultana. Penso ter encontrado a verdade ali, expressa daquela forma e posso imagina-la a debater-se no chão da floresta, a alimentar-se da pouca luz que atravessa as copas daquelas sequoias gigantes. 

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