"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

sexta-feira, junho 15, 2012

(sem título) sobre o lixo


Os sacos do lixo abandonados aos milhares em frente às casas da sua cidade continuam crentes que o caixote estará menos sujo daquela vez, que terão uma viagem digna por entre o pátio alvoraçado por folhas e crianças que jogam já não sabe mais a quê. Cansa-o deitar lixo no lixo, todos os dias, várias vezes ao dia, num gesto contínuo de desperdício de tempo; o seu e o de todos os outros que durante uma vida deitam fora os seus pertences, as suas sobras, os acessórios temporários a coisa alguma ou a muita coisa porque somos muitos e indecentes quando optamos por produzir exponencialmente mais lixo.
Pega nele mais uma vez. A segunda do dia. Guarda as chaves de casa e atravessa a rua de braço airado, apesar do sacrifício que sente nas costas. Não é comum ver carros a passar àquela hora da noite. A rua está parada e parece que todos dormem menos ele e os funcionários noturnos que não tardam a aparecer para levar o seu lixo. Despede-se dele com mais um abraço e acena-lhe antes de finalmente virar as costas e entrar em casa. Já descalço, corre uma vez mais para a varanda. Os funcionários da câmara aproximam-se.   

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