Os sacos do lixo abandonados aos
milhares em frente às casas da sua cidade continuam crentes que o caixote estará
menos sujo daquela vez, que terão uma viagem digna por entre o pátio alvoraçado
por folhas e crianças que jogam já não sabe mais a quê. Cansa-o deitar lixo no
lixo, todos os dias, várias vezes ao dia, num gesto contínuo de desperdício de
tempo; o seu e o de todos os outros que durante uma vida deitam fora os seus
pertences, as suas sobras, os acessórios temporários a coisa alguma ou a muita
coisa porque somos muitos e indecentes quando optamos por produzir exponencialmente
mais lixo.
Pega nele mais uma vez. A segunda do
dia. Guarda as chaves de casa e atravessa a rua de braço airado, apesar do sacrifício
que sente nas costas. Não é comum ver carros a passar àquela hora da noite. A
rua está parada e parece que todos dormem menos ele e os funcionários noturnos
que não tardam a aparecer para levar o seu lixo. Despede-se dele com mais um
abraço e acena-lhe antes de finalmente virar as costas e entrar em casa. Já
descalço, corre uma vez mais para a varanda. Os funcionários da câmara
aproximam-se.
Sem comentários:
Enviar um comentário