"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

quinta-feira, maio 30, 2013

diário

7 fevereiro de 2017

Creio com todas as minhas forças no passado, no cheiro da casa do avô, nas plantas que me crescem nos dedos e que de tão viçosas e suculentas se tornaram alimento. Ninguém sabe quem eu sou. Nem mesmo eu. Vivo presa na transição, no momento que antecede o espirro.


13 fevereiro de 2017

Hoje sinto que acordei à frente do próprio tempo. Sinto-me bem. Reparo novamente nas ratazanas que continuam a cobrir o comedouro com a toalha de cozinha velha que lhes dei. E depois na gata deitada em cima da mesa da sala ao sol. E na cadela que dorme sossegada junto ao sofá. É o meu momento da manhã.

21 fevereiro de 2017

Desejo ser culta e viajada. Desejo o mundo e a expressão enamorada da Humanidade. Minto quando digo sentir-me incompleta. Creio na imensidão da planície que se estende nas minhas costas e que tudo é possível, que tudo nos pertence. Acreditar que tudo é possível e que tem tudo uma razão subjacente.

22 fevereiro de 2017

Creio que estava bem ali sozinha, perante a derrocada da vida, vendo as pedras cair submersas no mar que era negro. Creio que lamber-me não está errado. Que agir em conformidade com o pensamento nunca foi uma ideia errada. 

6 março de 2017

Parece que tenho os músculos tensos. Mas o que parece simples em aparência, de fato metalizado e sapato polido é só uma estrutura firme que segue regras de geração em geração.

30 março de 2017



E retornando a mim, com aves a voar debaixo de mim, novas energias encaminham-me por recantos da memória onde a busca por pensamentos amorfos que signifiquem qualquer coisa ou uma imensidão de coisas, se torna, do nada, em coisa nenhuma. 

chinese ligustrum (10 years old)










pussy love II


terça-feira, junho 19, 2012

They are so damn 'intellectual' and rotten that I can't stand them anymore....I [would] rather sit on the floor in the market of Toluca and sell tortillas, than have anything to do with those 'artistic' bitches of Paris. [on Andre Breton and the European surrealists]

Frida Kahlo

sexta-feira, junho 15, 2012

«Preciso de dinheiro para mim próprio e não me sinto a viver em função do capital. Sei que disse muito disparate, mas tanto pior. São estas as minhas convicções.»

Dostoevskij, "Il Giocatore"

a sultana





Vemos ao longe uma formiga que desce solitária pela montanha, porventura acompanhada pelo vento que se enguiça nas suas pernitas e a faz rodopiar à volta de polens, sementes e gramíneas. Este texto é sobre um tipo de formiga. O mais subestimado mas talvez o mais importante de todos. Um tipo que ao instalar-se e conquistar o resto do reino animal, moldou a superfície do planeta e ajudou a criar a civilização humana. Esta é a história da sultana.

A floresta estende-se densa pelas planícies da montanha e alguns raios de sol alcançam o chão da floresta. Foi nele onde a sultana encontrou abrigo, nos complexos enredos de raízes que parecem invocar aos deuses a escuridão total. E aqui, na África Oriental, encontra-se uma das mais impressionantes. Uma que viria a enfrentar leões por entre estes feixes de luz preciosa. 
Estas criaturas microscópicas, com alguns centésimos de milímetro de diametro, são maravilhosamente delicadas. Os seus pequenos esqueletos lembram construção alienígena. E elas são cruciais porque constituem a base da cadeia alimentar da montanha. Com mais sultanas vieram enormes bandos de melros e avestruzes que as comiam. Depois, estes atraíram falcões e ursos e predadores ainda maiores. 
Ao microscópio, vejo fragmentos cristalinos em forma de oito. É a sultana. Penso ter encontrado a verdade ali, expressa daquela forma e posso imagina-la a debater-se no chão da floresta, a alimentar-se da pouca luz que atravessa as copas daquelas sequoias gigantes. 

(sem título) sobre o lixo


Os sacos do lixo abandonados aos milhares em frente às casas da sua cidade continuam crentes que o caixote estará menos sujo daquela vez, que terão uma viagem digna por entre o pátio alvoraçado por folhas e crianças que jogam já não sabe mais a quê. Cansa-o deitar lixo no lixo, todos os dias, várias vezes ao dia, num gesto contínuo de desperdício de tempo; o seu e o de todos os outros que durante uma vida deitam fora os seus pertences, as suas sobras, os acessórios temporários a coisa alguma ou a muita coisa porque somos muitos e indecentes quando optamos por produzir exponencialmente mais lixo.
Pega nele mais uma vez. A segunda do dia. Guarda as chaves de casa e atravessa a rua de braço airado, apesar do sacrifício que sente nas costas. Não é comum ver carros a passar àquela hora da noite. A rua está parada e parece que todos dormem menos ele e os funcionários noturnos que não tardam a aparecer para levar o seu lixo. Despede-se dele com mais um abraço e acena-lhe antes de finalmente virar as costas e entrar em casa. Já descalço, corre uma vez mais para a varanda. Os funcionários da câmara aproximam-se.   

The Prodigy of Color: Aelita Andre / a Solo Exhibition


quarta-feira, maio 30, 2012






Sou pessoa incógnita. Não me sinto pretendente a identidade alguma. E se dizê-lo não me parece correto, colocá-lo entre palavras que se dispersam após a leitura, não convindo mais ao leitor, trata-se de um gesto absolutamente ignóbil. Mas a verdade é que as pessoas que encontro refletidas quando me olho ao espelho são me dispersas, impessoais, incaracterizáveis.  

As Garras dos Perus


Estendi-lhes o pé mas por razões que me são interditas eles não mo devolveram de volta. Afincaram-se a ele de tal forma que perdi o meu próprio pé e com ele também a noção de que sem ele sobrevivo minimamente bem. Não me permito às garras deles, de dimensão bem superior às minhas. Elas não me inquietam mais porque me soltei das amarras que teimavam em embrulhar-se no meu escalracho e não me calcei mais, nem sapatos, nem sabrinas, nem mesmo uns humildes chinelos; e se, por acaso, me perguntarem porquê direi que sofro de calosidades e que sem elas não me levantaria tão afincadamente pela manhã.

L.I.B.E.R.A.T.I.N.G

Exercício de Escrita Visual – O Olho Humano


Henri Bergson (Prémio Nobel da Literatura, 1859-1941)

Caligrafia GordoLetters


LETRA L.



Um olho e uma mama. Ou a ilustração sobreposta de um palácio árabe virado do avesso. Refiro-me à fusão das imagens visuais nos meus olhos e à excitação que funde as imagens mais significativas. Sobranceira ao olho, a sobrancelha que fita aquela/e à sua frente. Inevitavelmente a excitação no córtex visual ausenta-se, comprometida pela mama de bico bicudo e pelo oleado, que dita o caminho para lá da folha. As camadas neuronais do corpo são velozes e adiantam-se às dela/e, fazem-na/o tropeçar e intriga-a/o o seu olhar carregado e tenebroso.




 LETRA I.





Mãe-Luz. É a luz invisível que ali se depara ou espectro eletromagnético detetado pelo olho humano. A senhora espiga que observo no quadro ao lado comemora sozinha o advento próximo do sol. Os braços são ondas de luz natural; a cabeleira três raios solares e o torso uma manta grossa de algodão. Esta figura, tão serena e esguia, aparenta uma mulher de meia-idade algarvia. Com o passar do tempo, as suas pernas tornaram-se estaca e, como um espantalho, a mulher espiga, ou a mãe-luz, espanta as sombras que lhe tapam o sol.


LETRA B.



Estrabismo. Sofre de estrabismo horizontal a pobre criatura. É género raro que consiste na falta de fusão adequada ao eixo visual dos olhos em uma ou mais coordenadas visuais. No seu caso, o olho esquerdo torto que viaja pelo deserto com uma mala de viagem e dois binóculos de visão noturna. Não pediu licença para partir. Partiu e pronto.


LETRA E.



Durante a leitura. Quando lemos são os olhos que correm e não as letras. Mas ele não lê, observa. Movimenta os olhos três vezes por segundo extraindo a informação importante do quadro. Ao observar a pintura, num quadro qualquer exposto na parede branca de contraplacado em frente, o beicinho das mãos não se atreve a dar nem mais um passo. Está há horas ali especado. Um ângulo de leitura e assim por diante… Porque movimentamos os olhos três vezes por segundo, cem mil vezes por dia.

LETRA R.

Olho reprimido. Falo quando o olho direito é usado o tempo todo e o esquerdo deixado ao abandono num canto. O olho dominante, conectado diretamente ao sistema nervoso, pratica já sem acuidade visual o voo experimental em busca de alimento. Mas este nem sempre é bem-sucedido. A ave velha, de asas pesadas e pupila preta, não voa mais.

 LETRA A.



O olho e o cérebro. Ou a rede complexa que nos possibilita assimilar o que se passa à nossa volta. Vejo e perceciono a completa integridade de ambos quando vejo e reconheço ao lado o ninho de flamingos bebés que debicam o ar esganados de fome. A impressão sensorial que primeiro ocorre no olho e que depois é reconhecida pelo cérebro.

quarta-feira, maio 02, 2012

Os Que Passam a Correr

Se vamos a passear à noite por uma rua e um homem que ao longe se avista - porque a rua sobe à nossa frente e a lua está cheia - vem a correr de encontro a nós, então não o vamos agarrar, apesar de ele ser fraco e andrajoso, apesar de vir uma pessoa a correr atrás dele e a gritar, vamos antes deixá-lo passar.
Porque é de noite e não temos culpa que a rua seja a subir e esteja iluminada pela lua, e, além do mais, talvez estes dois homens tenham organizado a caça para seu divertimento, talvez os dois persigam um terceiro, talvez o primeiro esteja a ser injustamente perseguido, talvez o segundo queira matar e nós seríamos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada qual apenas corra, por sua própria iniciativa, para a sua cama, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.
E afinal de contas não podemos nós estar cansados, não é verdade que bebemos muito vinho? Estamos contentes por também já não vermos o segundo homem.

                                                                                       Franz Kafka

World Erotic Art Museum



http://travel.spotcoolstuff.com/museums/unusual-museums/weam/

terça-feira, maio 01, 2012



"Las masas humanas más peligrosas son aquellas en cuyas venas ha sido inyectado el veneno del miedo.... del miedo al cambio."


Octavio Paz

LAS PALABRAS



                  Octavio Paz 

Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas sus palabras.