"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

quinta-feira, março 29, 2012

O Jardineiro do Convento

In "História Eróticas", de Giovanni Boccaccio




"Masetto da Lamporechio finge que é mudo e torna-se jardineiro num convento de freiras. Todas elas fazem por dormir com ele."



" (...) - Senhora minha - disse -, ao que tenho ouvido um galo basta para satisfazer dez galinhas mas dez homens só dificilmente satisfazem uma mulher. Não posso, portanto, contentar nove sem risco da própria vida. O que tenho feito até agora deixou-me em tal estado que me sinto incapaz de fazer o que quer que seja.         Por isso ou me deixais ir na graça de Deus ou arranjai as coisas pelo melhor.
Ao ouvir falar Masetto, a quem julgava mudo, a dama ficou estupefacta.
- O que é isso? Julgava que eras mudo.
- É verdade, Senhora, mas não de nascença. Uma doença privou-me da fala e esta noite esse bem foi-me restituído, o que agradeço a Deus de todo o coração.
A dama acreditou no que ele dizia, mas quis saber o que significava aquilo das nove mulheres a contentar. Masetto confessou tudo."

quarta-feira, março 28, 2012

Richard Avedon (photographer)

A Distância da Lua

"O nosso trabalho era este: no barco levávamos uma escada de madeira: um segurava-a, outro subia e outro ainda aos remos impedia o barco até a escada ficar mesmo debaixo da Lua; para isso tínhamos que ser muitos (só nomeei os principais). O que estava no alto da escada, quando o barco se aproximava da Lua, gritava assustado: «Alto! Alto, senão dou uma cabeçada!» Era a impressão que dava, ao vê-la mesmo em cima tão enorme, tão acidentada de bicos cortantes e arestas cheias de rebarbas e em serra. Agora deve ser diferente, mas nessa altura a Lua, ou melhor, o fundo, o ventre da Lua, em resumo a parte que passava mais perto da Terra até quase raspar por ela, estava coberta por uma crosta de escamas pontiagudas. Tinha vindo a ficar parecida com o ventre de um peixe, e até o cheiro, pelo que me lembro, senão mesmo de peixe era só uma poucochinho mais ténue, como o salmão fumado".

In "Todas as Cosmicómicas", Italo Calvino

terça-feira, março 27, 2012

Tarde de Verão




Amadas as belas loucas tardes de Domingo
Que passo com ela no cúbico
É linda ela!
E gosto de como a luz não entra 
E de como a escuridão não sai
Improviso algumas piadas que a façam rir
Pois gosto que ela sorria...

Ou não?

Bela é a tarde de Verão.


Gordo

Caetano (exercício)


Uma mulher de pele escura atravessou-se à sua frente, exibindo um colorido turbante no cima da cabeça. Sentiu o seu aroma e desejou possuí-la, ali mesmo, no largo do Chiado. Decerto que os transeuntes não se importariam de ver os seus corpos cantar o fado ao amanhecer. Caetano andava sempre com o cabelo arranjadinho, as unhas castanhas do surro, o fecho das calças aberto e dele uma pila a apanhar ar fresco. Adorava vê-las passear e imaginar-lhes a cona. Camões não o recriminaria, era o seu fiel companheiro, estava ali para apoiá-lo nas horas do vinho. Além disso, a seu ver, todas eram esbeltas, fossem gordas, anafadas, magras, esqueléticas. Em todas era capaz de enfiar o seu besugo e desejava-o tanto, ansiava-o tanto... Mas coitado do Caetano... morreu virgem.





Desenho "Agarra-me", de Tagas

segunda-feira, março 26, 2012

O Estatuto do Vinho

de Pablo Neruda

Quando em regiões, quando em sacrifícios
manchas sanguíneas como chuvas caem,
o vinho abre as portas com assombro,
e no refúgio dos meses vai voando
seu corpo de empapadas asas rubras.

Os pés roçam nas telhas, nas paredes
com humidade de línguas submergidas,
e sobre o fio do dia desnudado
caem em gotas as suas abelhas.

Eu sei que o vinho não deserta aos gritos
quando chega o inverno,
nem se esconde em igrejas tenebrosas,
buscando o fogo em panos despenhados,
mas voa, sim, sobre a estação,
sobre o inverno que chegou agora
com um punhal entre os cílios duros.

Eu vejo vagos sonhos,
eu enxergo longe,
e olho à minha frente, além dos vidros,
reuniões de roupas infelizes.

A elas a bala do vinho não chega,
a papoila eficaz, o raio rubro
morrem afogados em tristes tecidos,
e derrama-se por canais solitários,
por húmidas ruas, em rios sem nome,
o vinho amargamente submergido,
o vinho cego e solitário e só.

Eu estou de pé na sua espuma e nas suas raízes,
choro na sua folhagem, nos seus mortos,
acompanhado de alfaiates caídos
no meio do inverno desonrado,
subo por escadas de humidade e sangue
tacteando as paredes,
e na agonia do tempo que chega
sobre uma pedra eu ajoelho e choro.

E para túneis agrestes me encaminho
de metais transitórios revestido,
para adegas vazias, para sonhos,
para betumes verdes que palpitam,
para ferrarias desinteressadas,
para sabores de lodo e de garganta,
para imperecíveis borboletas.

Então surgem os homens do vinho
vestidos com vermelhos cinturões
e chapéus de abelhas derrotadas,
e trazem taças cheias de olhos mortos,
e terríveis espadas de salmoira,
e com roucas buzinas se respondem
cantando cantos de intenção nupcial.

Eu gosto do canto rouco dos homens do vinho,
e do ruído de molhadas moedas sobre a mesa,
e do cheiro de sapatos e uvas,
e de vómitos verdes:
gosto do canto cego desses homens,
e do som de sal que martela
as paredes da aurora moribunda.

Falo de coisas que existem. Deus me livre
de inventar coisas quando canto!
Falo da saliva derramada nas paredes,
falo de lentas meias de rameira,
falo do coro dos homens do vinho
batendo no caixão com um osso de pássaro.

Estou no meio desse canto, no meio
do inverno que rola pelas ruas,
estou no meio dos bebedores,
com os olhos abertos para esquecidos lugares,
ou recordando um deliberante luto,
ou dormindo em cinzas já por terra.

Recordando noites, navios, sementeiras,
amigos falecidos, circunstâncias,
amargos hospitais e meninas que florescem,
recordando um bater de onda em certa rocha
com um adorno de farinha e espuma,
e a vida que se faz em certos países,
em certas costas solitárias,
um ecoar de estrelas nas palmeiras,
um bater do coração nos vidros,
um comboio negro que passa com rodas malditas
e muitas coisas tristes deste género.

À humidade do vinho, nas manhãs,
nas paredes amiúde mordidas pelos dias de inverno
que tombam em adegas por certo solitárias,
a essa virtude do vinho chegam lutas,
e cansados metais e surdas dentaduras,
e há um tumulto de objecções destroçadas,
há um furioso pranto de garrafas e
e um crime, como um chicote caído,

O vinho crava os seus espinhos negros,
e os ouriços lúgubres passeia
entre navalhas, entre meias-noites,
entre roucas gargantas arrastadas,
entre charutos e torcidos cabelos,
e como onda do mar a sua voz aumenta
uivando pranto e dedos de cadáver.

E então corre o vinho perseguido
e os obstinados odres se desfazem
contra as ferraduras, e vai o vinho em silêncio,
e os tóneis, em feridos barcos onde o vento morde

rostos, tripulações de silêncio,
e o vinho foge pelas estradas,
pelas igrejas, por entre os carvões
deixa cair as plumas do amaranto,
e disfarça-se de enxofre a sua boca,
e o vinho ardendo entre ruas gastas
à procura de poços, de túneis e formigas,
bocas de tristes mortos,
por onde alcançar o azul da terra
onde se confudem a chuva e os ausentes.
A caixa de fósforos ergueu-se firme sobre o estrado de madeira e deu à luz milhões de fósforos nus no monte de palha seca.

domingo, março 25, 2012

 
a lontra e os monges

Queriam comer-me a cartilagem aqueles monges safados que no outro dia se atravessaram no meu caminho. Visitei o mar nessa manhã. Sentei-me na areia e abri os braços à lontra que corria gorda e com um herpes no lábio na minha direcção. Mas quando olhei para trás e vi a minha cidade dentro de um cortiço em forma de estômago assustei-me. Parecia apertada e ofereci-lhe um sopro. Agradeceu-me e virou sapo e fugiu. Quando me virei, a lontra ia longe e o mar soltava vagas tristes.
Não me lembro de acordar nessa manhã, nem de adormecer no dia anterior. Mas tenho a vaga ideia de me ter esquecido do casaco em casa e como estava frio resolvi pedir o pêlo de um gato vadio emprestado. Mas só de pensar naqueles sacanas tenho vontade de caçar o dromedário aprumado que passeia junto a mim com uma boina turca sobre a bossa. Não me falou... é verdade... e por pouco que os seus cascos maçudos não me fazem mossa na cabeça, e apagam os monges que me quiseram trincar a cartilagem.

sumo de uva

No céu cavalos brancos de pernas longas lutam exaustivamente com o vício que lhes aponta o dedo. Ouve-se o sopro de um homem que se ergueu nu no topo de um relógio, segurando na mão uma cruz de madeira. Luísa está no centro do altar presa a uma criatura miúda e frágil com orelhas entrançadas e seios minguados que veste um traje medieval com uma corda atada à cintura. Verte no copo línguas de uvas pisadas e junta as mãos em sinal de oração. No cimo, um caixão dourado, reluzente, com duas cabeças tortas dentro e a palavra «imortalidade» inscrita num dos lados do caixão. Da sombra assoma uma linda mão de mulher que lhe esmaga o crânio até este dar sumo. 

sábado, março 24, 2012

"Sim....Sim...!"

"o poeta é a merda do universo: possui todas as características do dejecto. Concentra em si a digestão do gesto; a genofagia do êxtase; a plasto_contracção do fluído; a cagoécia espan_torreica do astro; a feno_inflação do susto; a culo_táctica alviltrante do entre; a conges_tomatia da fúria; a subru_ptura do esfincter; a tirano contúcia do tesão; a espro_tuberância dos dedos; a ultra_fragância cliotoriana da nuvem; a proto_putática do cio; a venusiana contursão do ingesto; o factócio odor da pituito_gonoraica alga; a fundibular arrogância do ronco; a inco_butência lacunar do humor; a factoécia consistência da cístole; o infrutífero agosto do genefágio; o estro da alti_contur_bância da bacia;a penis implacência da pes_nínsula; a fictofinura insinular da inflo_strutura; o oginato fulgor do anão anal; a para_pirotécnica do sobre; a ficta inflogestão do gestual subje_ctinvo; o adjecto fragor do estrondo; a fúricaarragância do cilindro; a exalo ternura da ubstância mole; o facto falância mulhada; o duro durão do melotão; a igno rrância das bactárias; a ultra pante_rroico fulminância; a coiso coisíssima nenhuma."

Poesia Erótica E. M. De Melo e Castro

sexta-feira, março 23, 2012

Gavetas

Não é fácil escrever os sentimentos que nos fazem ajoelhar e crer na pequeneza humana. Mas ainda acredito na constelação mais bela e harmoniosa do Universo. Porque nada desaparece, é apenas comutado, substituído. Crescem árvores novas sobre as mais antigas, e na memória as que morreram continuam vivas. Ao fim de tantos anos, o espaço íntimo sublevou-se, individualizou-se, arrastando consigo as possíveis errâncias que o destino cruel teima em invocar. Por conseguinte, a separação tornou-se inevitável, à luz de parêntesis obscuros, que nos fazem optar por caminhos diferentes; e nada é durável, tudo muda, tudo é foi, nada acontece, escreveu o escritor; a girafa está em chamas, assustada. «Permitirei o incêndio das chamas refulgentes no meu corpo? Ou estarei queimada antes mesmo do incêndio deflagrar?» Daí questionar-me sobre o que é, e não é, definitivo. Quem nos comanda? O que nos garante? O futuro? Sigo em frente, meio absorta, atribulada, tropeçando aqui e ali, deixando cair o cortinado da vizinha. Contudo, num instante sombrio, penso e revejo-me nas minhas entranhas, revolto-me contra mim e pontapeio o estômago vazio. O passado atordoa-me. Enjoa-me pensar que a compreensão ficou algures lá para trás. Nunca me apontou um dedo. Não havia queixas, reclamações, exigências, nem lamentos. Existia, sim, plena aceitação mútua; se alguém travava conversa comigo, travava conversa também contigo. Chorei durante meses. Hoje não. Aprendi a aceitar e a compreender mas o sentimento de angústia, esse carregarei comigo para o resto da vida. No fundo, sou cobarde, débil, irresoluta, vacilante, e pior do que ser cobarde, é sê-lo conscientemente. Talvez a vida não tenha qualquer sentido palpável. Por isso escrevo, escrevo muito, escrevo sem pensar no que escrevo, escrevo sem segundas intenções, sem necessidades de rodeios asneados. Não obstante, a essência estará lá, sempre, crescemos, diferenciamo-nos. Creio, talvez erroneamente, que nada mudou, que somos felizes.

Donkeys

Donkeys 2 - Black & White Film

Excerto de "A Peste Escarlate"

"- Sois selvagens, verdadeiros selvagens. Se a moda já exige colares de dentes humanos, a próxima geração há-de furar o nariz e as orelhas e adornar-se com ossos de animais e conchas. Não tenho dúvidas quanto a isso. A espécie humana está condenada a mergulhar cada vez mais na noite primitiva, antes de recomeçar um dia a sua ascensão sangrenta para a civilização. O solo, hoje, é muito vasto para os poucos homens que nele sobrevivem. Mas esses homens hão-de crescer e multiplicar-se, e daqui a algumas gerações acharão a terra demasiado estreita e matar-se-ão uns aos outros. Isto é fatal. Usarão à cintura os escalpos dos inimigos, como tu, Edwin, que és o mais amável dos meus netos, ostentas na orelha esse horroroso rabo de porco. Deita-o fora, meu filho, atira-o para longe!"

In "A Peste Escarlate", de Jack London.

quinta-feira, março 22, 2012

O Traço




Ela é o traço que alimenta o galo e o perfil do senhor de bigode mexicano.


http://cargocollective.com/gordoletters/Letters 


A senhora de arco em flecha. Serafina procura amêijoas nas pausas de expediente. O rio aos seus pés é percetível pelo chão transparente do gabinete do procurador. Inquieta-a o movimento esquizofrénico dos moluscos, e as bocas deles que parecem canais de sargaço embriagados, escoltados por uma baleia de armadura veludo verde coberto de pó.






Limpeza. Necessita de dinheiro para alimentar os dois filhos e o vício dos detergentes, e a apanha da amêijoa é uma boa maneira de orientar mais algum dinheiro por fora. Para alguém com a mania das limpezas não é fácil enterrar todos os dias os pés na lama e chegar a casa e ter as mãos esgravatadas das conchas e ainda ter dar de comer aos dois gémeos siameses. Durante as pausas de almoço os sapatos de salto fino sujos de lama são um fardo económico ao final do mês. A areia mascavada não ajuda mas apanha-as às dezenas com uma só apanha. Vale-lhe a audição pois ouve os traços que as amêijoas fazem na areia








O sonho. Tem dias em que pensa partir o vidro que a separa do rio com o salto fino sujo de lama; sair num sítio onde pudesse pisar a areia mole sem se magoar e ver o céu estrelado numa cadeira de escritório insuflável.

                                          




O rabo. Mas o assento é pequeno demais para acomodar aquele rabo em forma de coração, gordalhufo e falador. Remexe-se por isso frequentemente, tentando encontrar a posição mais confortável depois de oito horas passadas em frente ao computador. Descruza as pernas, liga o fax, envia finalmente o relatório já revisto para a sede, desliga a luz e sai.


LETRAS GORDO 

THE SOMBRERO GALAXY


http://www.acclaimimages.com/_gallery/_pages/0124-1009-2114-2759.html 

“There are no facts, only interpretations.”


Friedrich Nietzsche