A senhora de arco em flecha. Serafina procura amêijoas nas pausas de expediente. O rio aos seus pés é percetível pelo chão transparente do gabinete do procurador. Inquieta-a o movimento esquizofrénico dos moluscos, e as bocas deles que parecem canais de sargaço embriagados, escoltados por uma baleia de armadura veludo verde coberto de pó.
Limpeza. Necessita de dinheiro para alimentar os dois filhos e o vício dos detergentes, e a apanha da amêijoa é uma boa maneira de orientar mais algum dinheiro por fora. Para alguém com a mania das limpezas não é fácil enterrar todos os dias os pés na lama e chegar a casa e ter as mãos esgravatadas das conchas e ainda ter dar de comer aos dois gémeos siameses. Durante as pausas de almoço os sapatos de salto fino sujos de lama são um fardo económico ao final do mês. A areia mascavada não ajuda mas apanha-as às dezenas com uma só apanha. Vale-lhe a audição pois ouve os traços que as amêijoas fazem na areia
O sonho. Tem dias em que pensa partir o vidro que a separa do rio com o salto fino sujo de lama; sair num sítio onde pudesse pisar a areia mole sem se magoar e ver o céu estrelado numa cadeira de escritório insuflável.
O rabo. Mas o assento é pequeno demais para acomodar aquele rabo em forma de coração, gordalhufo e falador. Remexe-se por isso frequentemente, tentando encontrar a posição mais confortável depois de oito horas passadas em frente ao computador. Descruza as pernas, liga o fax, envia finalmente o relatório já revisto para a sede, desliga a luz e sai.
LETRAS GORDO



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