"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

terça-feira, março 06, 2012

A TRIBO SUBTERRÂNEA DE FUKUOKA

    II PARTE



    Aquela agitação toda tinha a ver com o facto de não poder viver nem mais um dia com os pés atolados em toneladas de lodo venéreo, a escavar a terra com uma foice demasiado curta, por túneis demasiado compridos. Procurava à força a sua carta de alforria, o seu pequeno-almoço ao relento em dias de chuva. Pois o peixe necessitava da humidade para engrossar as barbatanas e desenvolver as escamas embebidas na pele.
    Nisto, a katana apontada na direção da testa suada do prisioneiro e o lábio superior do Imperador que se esquiva presunçosamente para cima calam a sala. Traz respeitosamente um chapéu amarelo-torrado na cabeça, com o cabelo apanhado atrás num carrapito curto e uma túnica de palha que pouco contrasta com a pele lavanda claro. Ajoelha-se perante o prisioneiro. Pega no seu membro frio com uma certa delicadeza e desliza levemente o dedo indicador ao longo de toda a extensão da sua cauda. Lambe-lhe as barbatanas dorsais definhadas e cheira-o, como a ratazana que é, antes de o aniquilar perante os outros dezanove que cerram os olhos por impulso quando a katana, num só golpe, cerra ao meio o corpo cilíndrico da enguia que por breves instantes mantém-se equilibrada em cima de uma das partes empoladas. 
    A meretriz-esqueleto pavoneia-se pela sala e intriga os prisioneiros que se esforçam por evitar o contato direto. Uma dama de corte com farta cabeleira rosa, de algodão, vestida com doze kimonos de fina seda sobreposta não emana uma energia tão forte como a sua. E ela sabe-o. Num mundo onde não existem regras a linha que separa o caçador da presa é ténue e as sete alforrecas que orbitam translucidamente à sua volta estão lá para lembrá-la disso. Não servem apenas de candeeiros. São o seu escudo protetor ou, noutra perspetiva, o seu bilhete de volta. 
    O produto recolhido está pronto a ser reencaminhado para o mercado negro. O intermediário é uma criatura estranha que desconhece o conteúdo das encomendas. A cabeça e o tronco têm a forma de uma chaleira: o cabelo a pega, o nariz a saída do vapor, os olhos uma caligrafia mas os braços são rijos e musculados e a sunga mostra uma saliência protuberante. 
    Os maiores consumidores de shabu fazem parte da nova classe de trabalhadores-máquinas. A alta densidade populacional obrigara o governo a implementar uma lei que autorizava, às entidades patronais públicas, a implantação de pernas artificiais nos seus funcionários, mesmo sem o consentimento dos próprios ou dos seus progenitores. A invenção de uma passadeira gigante capaz de gerar energia barata a partir da exploração da força humana foi a cereja no topo do bolo. Além do mais, esta forma de escravidão foi mantida em segredo. Talvez porque a ideia de trabalhadores estendidos em quilómetros de corda de aço, correndo numa passadeira em direção à rua que ali continua, parada, lhes pareceu demasiado atroz para cair no falatório público. 
    A meretriz-esqueleto faz sinal ao sapo para dar início aos banhos. Cabe-lhe a ela a vigilância do espaço. Por norma, aos prisioneiros é garantida uma imersão em shabu por semana. No meio de toda aquela sujidade sabe bem lavar os pés de vez em quando. Os poços retangulares aguentam até cinco prisioneiros e testemunham o encontro sublime do corpo com a água pingada, pois também eles eram viciados. As membranas, os cornos e os membros genitais inchados são esfregados até à exaustão por cães da pradaria de braços longos com escovas de cerdas naturais ao invés de patas. O realismo daquela pintura era merecedor de prémio e animaria qualquer um, até os trabalhadores de Fukuoka que correm pendurados em estendais de aço.

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