"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

terça-feira, março 20, 2012

O que será pior para uma ideia do que a sua própria ideia ser esquecida? E porque será que nos debatemos com outras ideias quando, à partida, elas estão condenadas à nascença e ao esquecimento. É a minha ideia e as outras que surgem depois dela, por vezes caladas ou insensatas, que fazem o meu organismo regular-se, podendo também essa ideia ser susceptível de estimular o meu estômago impaciente de fruta. O inseto vizinho escova os dentes a olhar para mim. E também ele parece impaciente. Quem julga que é para me olhar desta maneira? Os seus olhos redondos e em bico transmitem uma nostalgia demasiado peganhenta ou então a sensação de narinas com pelo que não tiram os olhos de cima de nós quando se mostram constipadas. Eu chamo-me Râ…Rii… Porra! Esqueci-me do meu nome outra vez. Mas voltando ao inseto que continua especado a olhar para mim. Creio que está zangado com a mosca que não pára de zumbir aos nossos ouvidos. É por isso que olha para mim. Talvez queira que eu vá buscar o mata-moscas à gaveta e que num gesto sagaz aniquile o pobre do bicho que bate inadvertidamente a cabeça contra a janela onde come. Mas ele sabe que eu seria incapaz. Pessoa de nome incerto. Incapaz de matar uma formiga. E, no entanto, apago tantas ideias da memória, um agora poço profundo, sem fim à vista, que me lembra constantemente quem sou. Pessoa de nome incerto.

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