III PARTE
O sapo segurança aguarda ansiosamente novas instruções. Sempre que a meretriz-esqueleto passa por si altivamente entrelaça a língua e cospe de êxtase centímetros de langonha entremeada. Mas, infelizmente para o anfíbio, ele é-lhe indiferente. Trata-o com desdém, como o ser medíocre que é. Durante os banhos, a meretriz de mangas arregaçadas fita os prisioneiros com a visão turva do vapor, mas estes mostram-se desentendidos pois sabem que, por ali, só sobrevive quem não chama a atenção. Os seus olhos castanhos cavados encontram naqueles vermes decrépitos a ablução da alma, um revirar de olhos tão poderoso capaz de a colocar no centro do universo, junto de Dalí. Pois enquanto era viva quase morreu de desgosto à hora do chá. A camomila que não pediu licença para entrar e lhe tomou de assalto o coração que não cessava mais de jorrar solidão sobre si. Mas o imperador poupara-a da adjudicação eterna a Deus. Ela é o papagaio que o imperador mantém ao ombro para encanto dos que por si passam. Mas a meretriz não se importa. Ele é uma ratazana ambiciosa e astuta. Um sujeito sem escrúpulos a quem deve a vida. Uma segunda oportunidade que lhe valeu uma posição bastante confortável na prisão.
Mas, à semelhança do imperador, ela não admite abusos, muito menos raptos de poder hostis vindos de prisioneiras que insistem em insinuar-se ao soldado mor, cruzando e entrecruzando as patas, de forma interesseira e sedutora. Intriga-a a razão de todo o esforço que seria em vão. Dali ninguém sai vivo e só essa ideia provocava-lhe arrepios de prazer na espinha curva.
- Sinto-me tão carente… - suspira a prisioneira, já debruçada sobre a beiça gorda do sapo.
- Sim, sim… Não te aproximes tanto… -, responde-lhe, atento à meretriz que agora se levanta na sua direção.
A mulher caranguejo estava ciente do que lhe esperava. Quem enfurece a meretriz ou morre ali ou é enterrado vivo na ala direita e morre depois. Por outro lado, não tinha nada a perder. Passava horas a fio, de braços cruzados, consentindo impavidamente o seu fingimento enquanto cirandava pelos canais dédalos que lhe castravam o anseio de tocar o mundo, de chegar lá acima e sentir o sol chapear-lhe calorosamente a cara. Mas este parecia ser o seu amaldiçoado âmago poento. Saudação muda. O vazio tornara-se um fardo demasiado pesado para carregar às costas; já desistira de limpar afincadamente as calças de fina seda, manchadas de iodo. Permanecia isolada. Não conversava com os outros prisioneiros. E era com a força da espuma cor de salmão que a veneziana experimentava lançar redes de pesca ao mar. Com isto, digo imaginar um universo menos profundo ou menos macabro onde exalta a precisão dos calceteiros da cidade de Fukuoka ou a pujança dos operários lá de cima que, de olhos vendados, correm o mais rápido que conseguem.
A imperatriz parece implacável e, impulsivamente, agarra na mulher caranguejo pelo pescoço e atira-a contra um portão de ferro maciço. Pensava como seria bom afastar-se do grupo e morrer sozinha como um elefante. Ao invés, está caída aos pés de um mar de lodo onde enxuga as lágrimas, pois é a ele que agora pertencem, e tenta ignorar as palavras de ódio e o cuspo da meretriz que retorque ignobilmente o seu silêncio. Até que as gargalhadas da mulher esqueleto são afogadas por um “Basta!” pronunciado alto e severamente pelo Imperador. Desde sempre que a ideia de uma mulher em apuros é bem mais estimulante que a ideia de uma mulher em liberdade. Está indignado com o comportamento leviano da meretriz. Expulsa-a da sala. A meretriz acena com a cabeça e sai cautelosamente, de pés mansos.
Agora é a vez do Imperador fitar a mulher caranguejo. A sua expressão corporal dócil e ignorante lembra-lhe um puzzle fácil de desmontar. Começa a sentir-se excitado. Segue pata atrás de pata. E por pouco que a túnica de palha não lhe desvenda a ascensão do músculo nobilíssimo.
- Encaminha os vermes de forma ordeira para as suas celas e traz-me imediatamente a prisioneira ao salão nobre -, impõe o Imperador ao sapo mor à medida que desaparece pelo túnel escuro, já sem as vestes e o chapéu amarelo-torrado.
No salão, a imperatriz roí os ossos das mãos de ansiedade. Sabe que será punida, só não sabe até que ponto a punição não significa a sua própria morte. E, pela primeira vez desde que desceu ao subsolo, pensa em como seria bom que alguém lá em cima soubesse do contrabando de estupefacientes e do genocídio desumano por quem ela assina por baixo. Mas nada parece prever o contrário. Os habitantes de cidade não pensam já por si. Apenas correm. Correm muito. Com a memória enterrada debaixo da terra. Mas a preocupação dá lugar à surpresa assim que vê entrar a mulher veneziana, com os pulsos acorrentados a duas argolas de ouro, e o Imperador de katana ágil na mão, sem a veste imperial. O salão nobre feito depósito de jornais e tecidos amarfanhados exala um odor semelhante a amoníaco e baixa as guardas da mulher caranguejo. Depois de despejada num monte de plásticos e outros materiais duros, a mulher crustáceo é surpreendida pela força dos dentes vorazes do Imperador atravessar as suas pinças. Do nada, suga-lhe a água do corpo. A impavidez do imperador é demasiado controlada e, por momentos, sente-se impotente. Não tem mais forças para remar contra a maré de merda.
Mas a katana deixada ao acaso em cima de um pedaço de cartão molhado parece-lhe por instantes acessível dali. Basta um movimento brusco na pata direita, já meio devorada, para desviar a atenção da da esquerda que consegue agarrá-la e zás! Além disso, não há guardas por perto. Nem seguranças anões. A meretriz já não significa ameaça agora que o Imperador a descartara do baralho. E esse, bem esse, parece plenamente concentrado em chupar-lhe a pata.
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