Descia as escadas do prédio e veio-me à memória o quadro do Mário torto na sala, o par de sapatos desencontrado no chão do quarto, a porta esquerda do armário entreaberta, os cacos de vidro debaixo da porta, o perfume caído na estante, os óculos sem uma haste, as camisolas do avesso, o porta jóias desarrumado, as velas queimadas, as flores artificiais murchas, a cama desfeita, o gravador estragado e o cadáver que escondo debaixo da cama há vinte anos e do qual ainda não me consegui desfazer porque ele insiste e diz que me ama sempre que me deito ou que me levanto. Todos os dias. Há vinte anos. Hoje não me respeita mais. Vou-me embora. Desço as escadas.
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