"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

quinta-feira, março 08, 2012

A TRIBO SUBTERRÂNEA DE FUKUOKA

    IV PARTE

    Concentrar-se parecia praticamente impossível. Se ao menos tivesse uma última dose de shabu… Com alguma prudência vai estendendo pouco a pouco a pata e, atenta aos movimentos da meretriz esqueleto, tenta alcançar a katana. Depois de um algum esforço consegue segurá-la com firmeza e sossega uns segundos antes de erguê-la e trespassá-la finalmente pelo pescoço do Imperador. E nisto começa uma corrida desenfreada pelas condutas da prisão, sobe lances sucessivos de escadas, os pés doridos parece que se desmontam, as pernas estão descontroladas, precisa descansar um pouco mas não pode porque corre pela vida e pelo sol que espera por ela dois andares acima. 
   Todos correm atrás de si: anões aos tropeços, generais fardados, mais a meretriz esqueleto que, ao assistir impávida à decapitação do Imperador, se metamorfoseara numa medusa mãe gigante. Só o saco globular gelatinoso mede quatro metros de diâmetro. O tempo começa a esgotar-se. A gema no interior da medusa – o centro de comandos – coordena o exército de alforrecas subterrâneas. Milhares de criaturas saem do interior da terra. Expulsam um líquido azul claro que corroí tudo: materiais, canalizações, tecidos corporais. O grupo começa a assemelhar-se a uma procissão iluminada que voa. 
    Corre até que esbarra contra um tronco de árvore que a faz recuar dois metros. Ele pertence ao segundo piso. Ao das aberrações genéticas. Não sabe muito sobre ele, a não ser que é o prisioneiro mais lucrativo da prisão. Não entende o que diz e pede-lhe desculpa. E quando se prepara para continuar a correr tudo à sua volta desaparece. A não ser a saída de esgoto que olha para ela lá de cima. Parece estar numa espécie de poço desativado onde ainda consegue ouvir os gritos da meretriz que esbraceja e arranca os cabelos azuis contra a lentidão do exército que, em poucos minutos, já corroeu grande parte da estrutura e transformou-a numa massa de terra disforme sem memória. Está perto da corrosão. Já não deve faltar muito para que a meretriz a encontre no poço e a decapite, exatamente da mesma forma como ela decapitara o Imperador. Procura uma alternativa. E quando menos espera, enterra a cara na terra e descobre a solução. 


O céu de Fukuoka permanece o mesmo. Cinzento. Arrojado. Imperativo. Mas as ruas da cidade perderam a luz de outrora. Nem os habitantes parecem mais os mesmos. Os três acessos da cidade estão vedados ao trânsito. Está proibida a circulação de pessoas e animais fora da cidade. Uma metrópole dissimulada, onde mais de mil pessoas, incluindo crianças, correm penduradas em cabos de aço, com as suas pernas implantadas e um sorriso esquivo no rosto, numa passadeira perversamente gigante. 
    A verdade é que fora do esgoto ela não se sente menos suja, menos usada, menos conspurcada. Encontra-se, mais uma vez, num beco sem saída, desta vez a céu aberto. E os efeitos do shabu que consumira antes atingem agora o seu pico. Dois guardas imperiais, de cabelo solto, pelos pés, cercam-na de e imediato lançam uma rede de pesca sobre si. Não aquela que exaltava a precisão dos calceteiros ou a pujança dos operários. Os guardas falam um dialeto esquisito, meio enrolado, e apontam para ela, meio confusos. Na reunião convocada de emergência acorda-se o seu futuro e, ainda de madrugada, é colocada na ala da frente da passadeira, com vigilância permanente, vinte e quatro horas por dia. 
    Está cansada, profundamente magoada com os carris que se atravessam no seu caminho e não a pisam, os desgraçados. Sente-se incapaz. A descartabilidade humana afeta-a. É levar-se pela mornidão do Outono, pelas folhas carpidas cujo queixume ninguém quer ouvir. Ouvidos moucos. 
    Repito: sente-se descartável, usada, suja, conspurcada.

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