"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

quinta-feira, março 01, 2012

O SERVO INÚTIL



assassino | adj. | s. m.
1ª pess. sing. pres. ind. de assassinar
adj.

1. Que assassina.


s. m.


2. Aquele que mata traiçoeiramente ou com premeditação.


3. Que arruína ou destrói (o que é digno de ser respeitado).


4. Homicida.


assassinar - Conjugar


v. tr.


Matar à traição ou violentamente.


PRIMEIRA INTRODUÇÃO


Ele, o desgraçado, viu o porto de sangue amorfo beber-lhe o corpo desenxabido, vivido e repetido pelo círculo que só é ciclo, quando a linha que volta beija a reviravolta do Tempo, que não volta sem se repetir, vivendo. Ele, o enxonfrado, que nasceu do chão calçado com botas de cão, a Ele – ao Tempo frustrado –, virou costas e jamais olhou para trás.


Duas madames correm na sua direcção. Vasco Santana sente-se eufórico. Ajeita o casaco de fazenda, descosido nos ombros, e coloca com estilo uma mão no bolso crespo dos calções. Um pouco mais adiante e ouve a madame que traz uma camisola de licra rasgada na barriga pedir para descansar um pouco.


Ignoram-no. Comentam o rapaz das oficinas experimentais que passeou de braço dado com as duas Marias, moçoilas robustas e rosadinhas, órfãs de mãe. Conta a madame do cabelo encarapinhado que o rapaz não se contentou com uma. Fez o que pôde para levar as duas a passear. Em plena praça do Rossio, ele de papo erguido, contraído num pomposo fato castanho que pertencia ao seu pai; elas, pequeninas, exibindo os bustos acentuados pelo decote dos vestidos colados ao corpo. Mas durante o lanche, as duas Marias encantaram-se com o empregado de mesa. «E sem meias medidas», continuou a outra rindo como uma hiena, «com fumo a sair-lhe pelas ventas, o magano do rapaz levantou-se da mesa e entornou os galões em cima das Marias».


As madames riem muito. Já ele fixa o olhar no peito descaído da mais roliça, tão parecido ao de sua mãe. Ao deitar, costumava sussurrar-lhe ao ouvido que gostava de lhe chupar os lábios na cama do pai. Mas ela logo desviava o assunto, virava a cara e, enquanto baloiçava o cabelo para trás dos ombros, dizia que ele era um tolo e que já devia estar a dormir. Havia vezes em que bastava levantar a mão, para ela, a mãe, o recriminar e chamar-lhe abusador. Aí ele calava-se e ficava a olhar para ela, sabendo que daí a uns segundos, depois de uma segunda investida, as suas mãos aterrariam novamente no seu decote de esponja macia.

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As madames já vão longe. Vasco escuta em silêncio o sofrimento de nem ao papel pronunciar o corpo decadente dos sentimentos que o afligem. As ondas bravas que ao longe varrem a massa azul amotinam-lhe o espírito; lembram-lhe bocas enraivecidas, cadências de branco danadas por alcançar a praia.
Numa dessas bocas de espuma vê o reflexo de um homem exausto de carregar aos ombros o peso da dissimulação humana. E ao ver-se assim reflectido, acredita que o homem é opaco na sua essência, mera sombra cambaleante que anda a cavalo puxado pelo vento.
A ideia de que somos peças por nós escritas ao acaso. Até que o luar tombe. Propositadamente. E a capacidade de levantarmos pessoas e darmos-lhes voz, movimento, suor, fezes, choro e riso é para ele o grandioso Monte Sinai. Esta percepção, a de que o homem pode até ser chão, terra ou ar, foi para ele a consequência inequívoca do eterno contorno de leis aparentemente incontornáveis. E tanto o reprovaram por difamar preconceitos tão culturalmente enraizados e que desde sempre enegreceram a condição humana, tida como estática ou impotente.
Hoje sente-se um herói de banda desenhada, o protagonista «sagrado» que encontrou na serpente as forças para combater os incultos de espírito, os ignorantes ou os crentes no divino.
Sentado num banco de jardim, espera alguém para conversar sobre o rio que vaza desde cedo. «Se ele aparecer, perguntar-lhe-ei porque usa umas calças de couro tão apertadas ou porque me recusa um peixe se traz o balde cheio».
Mas além da sua, é a desgraça alheia que mais o inquieta, sobretudo a do espécime citadino, fruto dos tempos modernos, que um dia encontrou uma tampa de gelado, junto ao chafariz do parque. Depois de uma série de bicadas belicosas, a tampa de plástico contra-atacou-o e abocanhou-lhe o pescoço à primeira investida. Agora diz que a curiosidade matou o pombo.
Observa-o. À primeira vista parece uma ave inofensiva, com um exuberante rabo em leque verde-esmeralda e um papo inchado, estrangulado por uma tampa de sundae. A sobranceira penugem no cocuruto chega a ser, por instantes, hilariante. Não se mexe. A longa biqueira laranja parece um dedo apontado na sua direcção, como se de alguma forma tivesse agido de mau carácter com ele. Não sabe o que dizer ou como agir face àquele exame gemado e inquisitivo. Além disso, parece mais inchado desde o primeiro momento em que o viu. «Cumprimento-o?», questiona-se Vasco, e depois de um «olá» incongruente, não obteve resposta.

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Vasco Santana revive o passado e abana instintivamente a cabeça. Por vezes, a ignorância pode ser traiçoeira, impedindo de acreditar que a vida nasceu do ventre de uma prostituta. Pois ela era bela e irresistível no dia em que a conheceu, com os lábios gretados, sujos de vinho. Sentado nos degraus do teatro comunitário, fingindo ler Tolstói, via, sempre que o vento trespassava o tecido delicado da sua saia, que as pernas dela roçavam devagarinho e que se masturbava diante dele. Helena amava o corpo, em todas as suas formas, e respeitava a natureza carnal do homem. Parecia desprezar a ideia de um amor oficializado, burocrático, guardado numa prateleira conspurcada pela traição.

«Está quase na hora da missa», disse Helena, cobrindo o rosto com um lenço de renda preto, horas antes de Vasco tocar à campainha. «Estás aí? Vou entrar!», sussurrou Vasco.
Encontrou-a deitada no tapete de pêlo cinzelado, contorcendo o seu corpo franzino. O amante de segunda colara-se à página do livro e manchou as palavras de Dali, «do método que o ultrapassava então», quando Helena pulou da cama para dar um risco de coca à janela. No parapeito ascendente da vida, aspirava com o olhar o voo das aves marítimas e voava ao seu lado sem roupas. Caíra a neblina e de repente perdeu-as de vista, deixando-se cair amortecida pelo peso do seu regaço, das suas coxas, dos seus braços, do seu ventre.
Pôs o livro de parte, junto aos tampões amorfos para os ouvidos. Pensava como era bom lambuzar-lhe o comprimento, as veias, as protuberâncias laterais, com a mesma voracidade com que uma criança chupa um calipo ao final da tarde.
Helena estava deitada com um cone que além de lhe ter dilatado as pupilas, fê-la atirar a realidade para trás das costas e concentrar-se no mistério genital inflamado, nas pequenas gotas que se transformaram numa capa húmida. Brincava com a parte inferior do objecto fálico, andava à roda com ele, apressava-o ou então incentivava-o a passear pela púbis arbúscula de pêlo. Os grandes lábios, reflectidos no espelho, adensavam e projectavam-se para fora, como a boca faminta de um peixe do rio; e a fenda delicada expandiu-se em flor, flexível à grossura do objecto vibrante.
Toda aquela agitação fez os pés da cama ranger, mas só ela pareceu não ouvir o ruído no momento em que a sua vagina sofreu uma contracção mais forte e se agarrou ao pénis falso, como fazem as raízes em terreno fértil. Desta vez, preferiu não proferir palavras ordinárias, não gemer, não gritar. Deixou que o prazer viesse ao seu encontro.
O gozo depois de atingir um orgasmo era ver o corpo desintumescer, a sensação de alívio que dava o mote a longos monólogos interiores, nos quais se juntavam o pai, os irmãos e o avô numa zaragata tão grande que logo fugia para o deserto, enterrando a cabeça e os braços na areia quente, tornando-se enfim uma miragem.
Apanhou o livro e esticou outro risco veloz na página manchada que citava: Um dia, esvaziei completamente o interior de um bocado de pão, e que pensam que coloquei no seu interior? Um pequeno Buda de bronze, cuja superfície metálica enchi de pulgas mortas. Depois, fechei a abertura do pão com um pau, cimentei tudo... de modo a formar um todo homogéneo, como se fosse uma pequena urna, no cimo da qual escrevi: Compota de cavalo. O que significava isso?[1]




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Vasco deixou no passado a cidade que o viu crescer, empoleirado no rabo do eléctrico, a sonância das rodas a roçar nos carris.
Como todos os lugares estavam ocupados, acomodou-se junto à porta de saída. O fedor a vinho provocava náuseas à senhora do cabelo liso com laivos dourados nas pontas. Ao fundo, no lugar encostado à janela, do lado direito de quem entra, um senhor que traz um chapéu de palha e sandálias de camurça, olha os jardins em movimento, as padarias cheias, as exposições de arte nas ruas. Espanta-o aquela cidade que vive à mercê dos desígnios do pranto salgado e das mulheres de buços serenados pelo sol. Sobranceira ao rio, Tâmara parece assente numa estrutura de madeira que lembra uma pequena barca, como aquelas que navegam no Pacífico.
Por toda a cidade, deambulam cartomantes, macumbeiros, coronéis e marinheiros. E é raro encontrar alguém que não use noz-moscada no tempero dos seus cozinhados ou que não ouça o canto dos patos até de madrugada. As mulheres ficam na rua até altas horas. Fumam cigarrilhas e amassam massapã. E à noite o nevoeiro dos grelhadores camufla as camisolas e os lençóis estendidos nas varandas das casas.
Em pleno Estio, o circo é o combustível, a turfa locomotora que dita o passo da cidade, e o das cartomantes e dos coronéis. Da janela do apartamento que aluga a um senhor de meia-idade, Vasco vê a tenda cor amendoim, desmaiada pelo sol, ser desmontada por cinco trabalhadores que carregam varas do tamanho de girafas e panos que chegariam para dar a volta à cintura do rio de Tâmara.
Dentro do apartamento, cabe o sofá-cama e uma pilha de livros da década de noventa ainda por ler. Cheira a madeira molhada, a sabão azul, a pêras Maria-Antónia e o ruído da caldeira antiga lembra-lhe o riso da tia Florinda sempre que vê o comboio passar.
Santana criou raízes numa solidão desmedida. A ironia da vida está na capacidade constante desta se formular e reformular a si própria. Não gosta que o interrompam durante um discurso que considera ser eloquente. Quando se enerva não consegue impedir que os seus sentimentos fiquem completamente a nu, passando desta forma a pertencer ao domínio público. E isso dos outros de fora conhecerem-no por dentro é para ele tão tenebroso que só de pensar nisso sua abundantemente das mãos, criando largas poças de suor à sua volta.


SEGUNDA INTRODUÇÃO


Ele, o desgraçado, viu o porto de sangue amorfo beber-lhe o corpo desenxabido, vivido e repetido pelo círculo que só é ciclo, quando a linha que volta beija a reviravolta do Tempo, que não volta sem se repetir, vivendo. Ele, o enxofrado, que nasceu do chão calçado com botas de cão, a Ele – ao Tempo frustrado –, virou costas e jamais olhou para trás.

Na casa da sua infância, Vasco entretinha-se debulhando bonecos de trapo e sapos mágicos do rio. Nessa altura, chamavam-lhe o Meias-Costas por causa das suas costas encarquilhadas. Em contrapartida, as pernas sempre foram altas e esguias, como as de um flamingo cor-de-rosa. Mas apesar da sua estrutura mole, franzina, era um rapaz atento e observador. E à mesa era raro não se deixar absorver pelo esvoaço dos mosquitos e inquietava-o o facto de ninguém parecer incomodado com os bichos que atacavam a travessa do arroz de pato.
Era ainda uma criança quando provocou o primeiro incidente. À partida, seria incapaz de assimilar a verdade, aquele pequeno descuido, aquele gesto infantil que se transformou, rapidamente, em homicídio. Tudo funcionava como devia funcionar – a chamada ordem das coisas, mutável, areia movediça. Tudo funcionava como devia funcionar até que o sangue do dia estancou com a rapidez de uma alma em flecha.
Ficou apavorado. A ideia de ser descoberto, apanhado em flagrante, com as mãos sujas de sangue era aterradora. Pensava repetidamente: “Fiz sem querer. Foi sem intenção. Ele era meu amigo” mas sabia que não lhe dariam ouvidos, que o iriam recriminar e castigar. Trancou-se no quarto com as pernas ainda bambas e uma hora mais tarde o corpo do amigo estaria enterrado numa quinta algarvia, junto a uma figueira.
Heloísa assistiu a tudo e ajudou-o a enterrar o corpo. Prometeu-lhe guardar segredo. Brincavam sob o sol abrasador do meio-dia. Heloísa escondera os chinelos do amigo que passava férias na casa ao lado da sua por debaixo do tanque de lavar a roupa. O rapaz proveniente da África do Sul esticou-se nos azulejos laranjas do chão e cruzou os braços, mostrando-se aborrecido. Vasco estava sentado em cima do muro com os pés assentes no pneu cimentado, daqueles que seguram os chapéus-de-sol, encostado à parede. Vasco ria. Gozava a miúda que escondera os chinelos e o rapaz das sardas que resmungava com ela e, sem querer, afastou com os pés o pneu da parede. Não pensou. Não reagiu. Não chorou. O pneu tombou para a frente e esborrachou o crânio do rapaz loiro que sucumbiu antes que Vasco e Heloísa conseguissem arcar com o peso daquela pedra de cimento.

As ervas do seu quintal, frescas e suculentas, tremiam com o vendaval de Outono que o levou a fechar a janela. Pensava em como os miúdos estão cada vez mais gordos, tão incapazes que já nem descem ao inaudível centro da terra. São levados por cegonhas e largados em poças onde afogam suas barrigas e contam piadas entre eles que mais ninguém percebe. Vasco torce o nariz em busca de pão. Tem fome.
Desta vez, o acto inconsciente deu-se depois de uma garrafa e meia de vodka e um comprimido azul. Tinha o pénis tão duro que lhe custava a andar. Foi ao encontro dela. Empurrou-a contra a parede, virada de costas, suplicando posse, da forma mais violenta, procurando o orgasmo nas paredes voláteis da sua vagina. Os gemidos dela encorajavam-no a ir mais fundo, a cavar as bordas do seu rabo até que ela se veio, contundentemente, a explosão da mente e o coração não aguentou. Não podia ser. Não queria acreditar. A mulher sucumbira à paixão dos sexos, ao constrangimento, ao torpedo dormente do ventre, ao esperma lânguido, à transgressão, à ousadia.


Sentia-se numa encruzilhada. Um passo atrás, e tornar-se-ia demente. Filha da Puta! Parecia que inconscientemente era esse o seu único propósito, o de matar por descuido e arrepender-se e sofrer e esmurrar as paredes e bater a cabeça contra o tampo da sanita, vezes sem conta, correr só por correr, à uma da manhã, junto ao rio, encarar-se ao espelho, os olhos vermelhos, e acalmar-se e abrir o peito e tornar-se um ser superior, uma entidade invencível. Tornara-se assassino. Enquadrava-se, não por vontade, mas por força do destino.
Ele era aquele que mata traiçoeiramente ou com premeditação, que arruína ou destrói. Assassino por encomenda, sem remetente. Era seu o ímpeto de matar, de devolver os corpos à Terra que um dia também o há-de converter em pó.


E QUANTO AO SERVO INÚTIL?


Os malabaristas-estátuas, ora em pose vigilante, ora de cócoras vergados, assistem ao ruído das rodas da jaula octogonal rutilante. A plateia muda está atenta ao rumorejo dos cavalos que só pensam em andar ao verde. E nisto a tromba erecta derruba bancadas e expressões esfrangalhadas. Chamam por Vénus vezes sem vez mas o que vêem são esquinas de boca esbranquiçadas, pois o elefante entrou em cena e o circo não mais tornou a ser o mesmo. Tomou posse da carne da viúva, do aleijado, da cabra que se encabrita em violentos braços de ferro.
Poder-se-ia perguntar: e o servo inútil? E aí sim, ouvir-se-ia, com uma voz rouca e encrespada: «Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes. Palavra da salvação. Ámen».[2]


[1] Salvador Dali (1904-1989), Robert Descharrnes e Gilles Néret, Taschen, Tradução Casa das Línguas, Lda, página 73.


[2] Excerto da Bíblia

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