"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

sábado, fevereiro 25, 2012

‘Moustache? Moustache? Moustache?’




http://uncapp.wordpress.com/category/art/
Não sonho com um mundo onde a religião deixe de ter um lugar, mas sim com um mundo onde a necessidade de espiritualidade esteja dissociada da necessidade de pertença. Um mundo onde o homem, continuando embora ligado às suas crenças, a valores morais eventualmente inspirados num livro sagrado, não sinta mais necessidade de se juntar ao exército dos seus correligionários. Um mundo onde a religião já não serviria de cimento a etnias em guerras. Não basta separar a Igreja do Estado, tão importante como isso seria separar o religioso do identitário. E justamente, se se quiser evitar que esta amálgama continue a alimentar o fanatismo, o terror e as guerras étnicas, será necessário poder satisfazer de outro modo a necessidade de identidade.

In "As Identidades Assassinas", de Amin Maalouf

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

o homem sem nome

Hoje olha para trás e instintivamente abana a cabeça, pensando o quão ignorante foi por nunca ter pensado que a vida nasceu do ventre de uma prostituta. A ele, é escusado dar-lhe um nome. Prefiro mantê-lo no anonimato, escondido atrás de uma árvore ou preso num sótão de alguém que ainda não conheci e que talvez nunca virei a conhecer.
Mas dizia eu que para ele a vida é filha da prostituição, do saque, da amotinação. E não foi à toa que ele chegou a esta conclusão, pois ela era bela, instável e chupadora. Trazia resquícios de vinho nos lábios gretados e quando tossia, tentava inconscientemente expulsar o mal que a impedia de cortar a artéria umbilical. Nunca se soube como se conheceram, nem mesmo eu, mãe literária. Apenas que faziam amor em público, como crianças ousadas que anseiam o doce mel, o mais distante, o impossível e que gemiam e gritavam em praça pública palavras ordinárias que sem querer (e sem dever) feriam a audição beata, animal de hábitos.
Com o passar do tempo, ele transformou-se objecto de falatório público, tema rotineiro de conversa e rapidamente tomou as cores do nada, carente de pele e osso, escravo da transparência. Até ao dia em que ela fugiu, carregando consigo os seus sentidos, sonhos de infância, as virtudes e ócios de uma vida. O calor da vergonha abalou a cidade rubra. Hoje já ninguém fala dele, ficou enterrado no âmago de uma geração que preferiu esquecê-lo, passou de ninguém para ser nada.
Já eu, mãe-criadora, prefiro continuar a escrever sobre ele, mesmo não lhe dando um nome.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012



Tetsuya Ishida
"Com onze canecas de cerveja e sete gins brincando às escondidas no bucho, caiu do primeiro degrau e só parou lá em baixo. (...) Era a noite de sábado, o melhor, o maior, o mais alegre pedaço da semana, um dos cinquenta e dois feriados na roda lenta do ano, um violento preâmbulo para um domingo de prostação. Paixões acumuladas estoiravam na noite de sábado, e os efeitos de uma monótona semana de trabalho nas fábricas eram expulsos do corpo em explosões de euforia. Seguia-se a grande máxima «bebe e diverte-te», deixavam-se os braços nodosos apertados em torno de uma cintura feminina e a cerveja a deslizar beneficamente pela garganta a baixo, direita à capacidade elástica do estômago."

In Sábado à noite e domingo de manhã, de Alan Sillitoe

sagrado

Acredito francamente,
Devotamente até, no «sagrado pintor»
No santo, no sacro, no sacrossanto,
Se por sagrado se entender o amor

Porque isso de cobrar favores,
Ao pobre, ao analfabeto, ao cantador,
(som dos tambores)
Não tem em si qualquer valor

No fundo, bem lá no fundo,
De nada vale o espanto do orador
Que uma vez é atraiçoado, outra é o traidor
E a dor é tanta
E o sofrimento é tanto
Oh! se tanto

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

SONHO DE HIPNOS

Não sei se durmo ou se estarei acordado. Mas sinto-me velho. Tenho o bigode despenteado de tanto mimar a almofada e não acho a parte de cima do meu pijama geométrico. Decerto que estarei dentro de um sonho. A minha realidade sonhada. Remexo a cabeça e não encontro nenhuma visão do mar. Pois o que significará o mar para mim senão uma onda de força inatingível que me deixa perplexo a cada visão sua. Rendido, ainda tentei apanhar a cabeça que entretanto se desprendeu do meu pescoço e começou a rebolar colina abaixo, até embater contra uma rocha coberta de musgo que me pareceu macia. Lembro-me do campo de tulipas que um dia hei-de visitar. Ao longe, parece um campo de malaguetas com a ponta acesa onde acendo o segundo cigarro do dia. A partitura invisível, em estado selvagem, movimenta-se em torno do meu próprio corpo, composta ora por sopros de árvores, ora por espirros de peixes ao luar. Acredito no Deus que somos todos nós, homens e corvos. Acredito naquilo que vejo e não naquilo que os olhos me dizem. Para quê olhar (pois se tudo é luz-ilusão) quando podemos ter todas as sensações depois de adormecer. Vivo ciente das ciências da natureza. Não distingo cores, formas ou consistências. Tudo consequência das sopas de cavalo cansado que me davam de comer ao pequeno-almoço. Quando comecei a salivar uma cubana de ancas largas caiu desamparada em cima de mim. Não aguentei a pressão. Tudo ficou escuro de repente, pois ela trazia uma saia que lhe chegava aos pés, de tecido grosso alaranjado. Belisco a pele frenética em busca do sentido real das coisas mas ela fica irritada e grita-me que volte a mim. Eu consinto e baixo o pescoço porque a cabeça já era!

masturbação

As técnicas mais usuais para a masturbação masculina radicam num variado uso das mãos. À utilização de toda a mão para envolver o membro, alguns preferem segurar o pénis só com três dedos, o polegar na parte superior e o indicador e o médio na inferior, para começar a estimulá-lo puxando a pele até à glande e regressando abaixo. Também é possível utilizar a mão esquerda, já que provoca sensações distintas, na medida em que não tem a mesma coordenação que a outra para conseguir um ritmo harmonioso e contínuo.
baby larga-me
não vês o mal que fazes à minha alma
Jesus ama-me
mas se tu não me amas engana-me
masturbação
eu não consigo engravidar a solidão
os meus ovários mirram
baby para nós não há salvação
vou voltar e morrer contigo
eu não conheço mais nenhum caminho
eu vou voltar e morrer contigo
ajuda-me Pai eu estou aflito
ooh... ajuda-me Pai eu tou aflito

Allen Halloween, Redenção

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Preciso levar essa mala sozinho até ao fim. Assim que ele abrir a porta, pretendo empurrá-la para dentro e descer sem falar nada. Ele ficará um tempo olhando a mala, duas horas olhando aquela mala amorfa, e poderá concluir que eu tenha vindo devolver uns livros. Sim, os poetas, ou os romances, ou a filosofia, a história universal, o atlas, a enciclopédia, sabe lá quantos volumes devolvidos com cinco anos de atraso, daí eu ter fugido envergonhado. Já não se lembrando dos livros que me emprestou, meu amigo abrirá a mala com curiosa nostalgia, como se abrisse uma lembrança dele mesmo. Surgirão as folhas de bananeira, já dilaceradas, e por baixo delas as folhas de maconha. A primeira reacção será de repugnância, menos pela maconha que pelo inesperado. Como repugna a consistência do que se põe na boca por engano. Meu amigo fechará a mala imediatamente, mas a ideia da maconha sobrará do lado de fora. E quando ele abrir a mala pela segunda vez, o fará com o lado avesso da curiosidade; abrirá passando a mão por dentro, com deleite de descobrir devagar o que já é coisa escancarada.

"O Estorvo", Chico Buarque

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Imaginación

Para el álbum de Inti-Illimani, véase Imaginación (álbum).


«imaginar» redirige aquí. Para otras acepciones, véase imaginario.


La imaginación (del latín imaginatĭo, -ōnis) es un proceso superior que permite al individuo manipular información generada intrínsecamente con el fin de crear una representación percibida por los sentidos de la mente. «Intrínsecamente generada» significa que la información se ha formado dentro del organismo en ausencia de estímulos del ambiente. En lo que respecta a «sentidos de la mente», son los mecanismos que permiten «ver» un objeto que se había visualizado previamente pero que ya no se encuentra presente en el ambiente. Cabe aclarar que cuando se imagina no se reduce solo al sentido de la visión, sino también a otras áreas sensoriales.


En el sentido anterior la imaginación tiene semejanza con el proceso de percibir. No obstante, la primera no se limita a la segunda. La imaginación es un proceso más abstracto, esto es, que no necesita de un objeto presente en la realidad (en ese instante), ella se sirve de la memoria para manipular la información y relacionarla de formas que no dependen del estado actual del organismo. Es decir, la imaginación toma elementos antes percibidos y experimentados, y los transforma en nuevos estímulos y realidades.


Los orígenes del estudio de la imaginación datan desde las reflexiones filosóficas. No obstante, su posicionamiento como materia de estudio científico, alejado de especulaciones metafísicas, se da con el nacimiento de la psicología experimental, pese a esto, se conserva como un componente psíquico lejos de ser descifrado. Es solo hasta finales del siglo XX y principios del presente siglo que la imaginación se toma como desafío para la investigación psicológica y neurocientífica, y los métodos conjuntos de neuroimagen y conductuales permiten vislumbrar hipótesis de cómo el cerebro imagina.


Fonte: Wikipedia

o sentido

- Tem sentido?


- Tenho sentido?! Como assim? Sinto-me bem. É isso?  Não entendi o sentido da sua pergunta.


- Mas não lamente. Sinta-se bem. É isso que importa!


- Sim, para si. Já eu não penso assim.


- Mas que importa isso?


- Tenho-me sentido doente, sabe?


- Ultimamente tem-se sentido doente? Engraçado! Eu não...


- Mas vai morrer, sabia?


- Não tenho medo da morte. Quem sabe, um dia...


- Sim, quem sabe! Mas que importa isso?!


- Sim, que importa isso!

o imperador ordenou

Os peritos em engenharia abandonam por agora o espaço. Sisudos, de pasta na mão esquerda e cigarro na direita."Controla os homens!", ouve ao fundo das escadas. 
Sente-se perturbado e anseia languidamente o segundo e o outro que lhe segue, dizendo "eu sou o cavalo. Sou uma multidão perante mim. Não controlo mais os homens". Agradece-o compondo vénias sucessivas. A mão acompanha o movimento das ancas ossudas e como quem não tem cães caça com gatos imprime o batuque do seu som fúnebre na folha de papel. A casa não recebe mais trombones intrometidos. Os azulejos da casa de banho estão imaculados. Já não lhe sugam o sangue do cu, sobretudo quando o sentido não precisa de se materializar para se tornar sentido. Existe por si só. 
"Aquele que nos pariu aos dois parece estar a chamar-nos, dançando ao sabor do vento contrabalançado por um samba ainda verde que lhe roça os pés. Ignoro o seu bailado. A máquina fotográfica não funciona mais. O foco de luz está desamparado", devaneia. E então a barragem deixa de ser nítida e a realidade ascende a uma posição sombria, do alto do edifício do entreposto, reclamando o direito à dignidade humana. A sua irmã consentia. Ele não. Não crê na realidade, no movimento ritmado que sente nas órbitas doridas enquanto retorna a um estado mínimo de lucidez. Cansou-se de pensar. Lagartas gordas tocam flauta numa orquestra ao virar da esquina. Sim, porque pode. Porque ele próprio é uma lagarta. Ou uma flauta. Ou a evolução que cresce e não receia tocar qualquer instrumento. Mas, por outro lado, concentrar-se significa ter de acordar e apreender que o céu e o universo não se tocam, tamanha é a arrogância de ambos. Como não existe sozinho (por isso a ideia de Deus lhe parece absurda) e porque a existência não se conforma com a ideia de unidade, começa a dar-se o colapso. A rede de relações está já amplificada ao máximo. A dimensão espartilhada do ser que nele habita. Budismo. Não tão pouco.
Ao ver-se naquele estado faz um escrutínio da sua própria morte e quase vira defunto. A criação, enquanto conceito e expressão de volúpia, sugere o feito de nos encontrarmos naquilo que criamos, distanciando-nos de nós próprios e entrando numa espécie de transe psíquico, descobrindo que afinal não somos o que julgáramos ser e que somos muitos mais a tocar o mesmo som. Somos a nossa própria criação e o corpo e a mente enquanto criações maiores.  
Mas uma salvação valida a morte de outro. E de outro ainda (a dele) a primeira pouco importa. Logo, é como se não existisse. Não exerce mais poder sobre ele. Não o governa. Não dita mais as regras e o esperneio vai terminando lentamente. Cobre-se com uma manta porque está frio e a casa não aquece porque as portas e as janelas estão num constante abre e fecha por causa dos engenheiros que entram e saem todas as vezes que precisam de fumar um cigarro. A confiança que a uns os leva a querer atravessar o mundo, essa ele não a tem. Nunca a teve. E debaixo da manta as suas mãos vacilam. E acatando a ordem do imperador, masturba-se.  

quarta-feira, maio 11, 2011

11

Tudo menos pela Humanidade

Revira os olhos quando ouve tal heresia profanada em plena casa de Deus, bem-amada: "ouvi gemidos na casa de banho". Exerce ali funções de padre desde que a cidade foi implantada. Dantes, trabalhava como mecânico numa pequena oficina, herdada do avô paterno, onde pregava aos clientes a belíssima reparação do motor e do tubo de escape. Mas as dívidas acumularam-se de tal forma que a oficina passou a propriedade do Estado, acompanhada pelas prostitutas caras a meio do dia.
A humidade nas profundezas das ruas distancia as pessoas. Parece prever tempestade. Ao entrar na igreja, todas as manhãs, arrepia-lhe o cheiro a mortos. Descobre o pulso e boceja, batendo lentamente com a mão na boca. O burburinho inicial indica que os bancos estão perto de ser preenchidos. A hora da missa aproxima-se. Prega-a duas vezes por dia gesticulando sempre as mãos como um director financeiro chinês. Durante as leituras bíblicas olha para lá do horizonte da igreja e ignora o público moribundo que procura em si a salvação.
À saída, de cigarro na boca, pisca discretamente o olho ao secretário da igreja que sorri e acena a cabeça, confirmando o encontro. Espera-o apoiado no lavatório da casa de banho encerrada para obras, acendendo por fim o cigarro pós-sermão. Trocam poucas palavras antes de o secretário romeno despir as calças e o padre ajoelhar-se à sua frente. A necessidade de discrição é estimulante mas implica falar raramente em público para não chamar a atenção. Gosta que o penetrem com o traje ainda vestido. Fá-lo sentir-se mais próximo d'O Criador. O "estrangeirinho", como o trata, parece realmente apaixonado pelo senhor padre. As suas origens nómadas foram subvertidas pela capacidade de persuasão do padre que, numa tarde de Fevereiro, o encontrou com as roupas completamente ensopadas na única taberna da cidade que vende os cigarros mais fracos do mercado.
Oito meses depois e o "estrangeirinho" passa a viver em casa do padre na condição deste lavar a roupa e tratar do jantar. Aceitou, claro. A vida que levava na Europa de Leste, ainda na década de noventa, em nada se compara a uma vida de lides domésticas em Portugal. Deixou a Roménia sem pensar duas vezes. Começou a fumar aos quatro anos a mando do pai alcoólico, desempregado há mais de dez anos. Aos doze corria as ruas à procura de alimento quando não conseguia assaltar os colegas à saída da escola.
Mas os encontros casuais na casa de banho passaram a jantares com direito a vinho e sadomasoquismo. O padre pedira-lhe que lhe acorrentasse os pulsos na cama. Estava nu e as vertigens que o sexo oral lhe provocavam camuflaram o som da porta a abrir. Alguém desconfiado de que o padre podia estar a ser violentado fez uma denúncia anónima que resultou na detenção do homem romeno. O padre algemado à cama, desnudo, com manchas negras e chupões espalhados pelo corpo eram prova suficiente para condenar o pobre rapaz a doze anos de prisão. O padre confirmou a versão.

Existem muitas versões sobre a criação destas cidades-protótipo, sobre que propósito foram construídas e quais seriam as condições humanas que teríamos que abdicar em prol de uma sociedade que se veste falsamente de branco. E se não lembra a Deus, há sempre teorias macabras e verdadeiras torturas textuais que escrevem por baixo a favor da escravatura do homem. O homem é escravo de si próprio. É filho e escravo de si próprio. Mas a ingratidão maior acontece quando nos cortam o cordão umbilical, quando deixamos de nos puder sentir próximos à mãe criadora. Embalam-nos nos braços e depois de umas palmadinhas nós choramos, cada um com o seu choro.
    A versão mais encantadora sobre a cidade é a minha. Em todas as frechas do passeio namoram beatas de tabaco humedecidas e isso assusta qualquer um. Tornámo-nos pessoas ingratas em prol do individualismo, mau salvador, que nos afasta e nos impede de alcançar o estado de nirvana. Não existe mais controlo sobre o poder que é invisível e que, a olho nu, nos vai fodendo devagarinho o rabo. O simples acto de acender um cigarro resultava na morte do fumador. Não havia mais ópera salvadora...

segunda-feira, janeiro 31, 2011

A cidade do fumo

10   

    Dois polícias à paisana entram no cemitério no momento em que Balbúcio dá o primeiro travo. "Os seus documentos, por favor", pedem-lhe antes de se apresentarem. Sem a documentação em dia mais o roubo e a multa de cento e cinquenta euros por desobedecer a lei que proíbe fumar nos cemitérios, Balbucio é detido à força pelos dois policiais de barba longa, entrançada, e encaminhado para uma cela provisória nas traseiras da esquadra da polícia. E são tantos os que por lá param, apanhados a roubar tabaco a gente honesta e trabalhadora. São proferidos palavrões que Balbucio, o homem gago, desconhece. Gagueja ao pedir um cigarro ao rapaz com ar de estrangeiro no fundo da cela. Ao invés de um cigarro, leva uma chapada. Retira-se revoltado.

A cidade do fumo

9

   
    Não via o meu tio há doze anos. Tem mais rugas e menos dentes desde a última vez em que o vi deitado na cama do hospital a recuperar de uma pneumonia. Fez sopa de rabo de boi e uns biscoitos de azeite para o jantar. Trocámos poucas palavras à refeição. Mas antes de ir para a cama pedi licença para entrar no escritório. Pergunto-lhe se a máscara de oxigénio está a funcionar normalmente. Pela primeira vez desde que cheguei olha-me nos olhos. Viro costas e desejo-lhe uma boa noite.
    A cama está gelada. Não sinto os pés que entalo ao fundo da cama. Não consigo dormir. Talvez por causa do frio. Oiço a tijoleira ranger e espontaneamente tapo o rosto da mesma forma que tapei o rosto há doze anos atrás. Dormia de camisa, sem cuecas. Ele vinha, tapava-me os olhos com um lenço, amarrava-me as mãos e os pulsos e levava-me para o seu quarto. Os abusos ter-se-ão repetido até aos meus 16 anos.
    Não me revolvo mas consinto que ele entre na cama. Sussurra-me alguma coisa ao ouvido que não percebo. Digo-lhe para se aproximar e peço-lhe que me toque, que me morda os lábios, que me castigue novamente. Mas está velho e a pujança de outrora deu lugar a um amor mais meigo, mais frustrado, mais convalescente. Canso-me rápido daquela moleza e acendo um cigarro. O seu olhar parece não compreender a minha indiferença. Inspiro fundo e cerco-lhe o rosto com o fumo que o torna ainda mais deplorável. Despeço-me pegando numa garrafa de gin.
    Percorro a cidade em busca de alguém que me sacie. Mas só vejo pessoas velhas entorpecidas pelo fumo que vagueia junto ao chão, crianças moles, mulheres que não me olham de frente. Paro para "pedir esmola" ao único homem decente que vejo na rua a esta hora. Mais tarde e estará a oferecer-me um cigarro no seu quarto.
    Enquanto fumo desaperta sem jeito um botão da camisa. Coça os tomates e diz ser mais novo do que realmente.
    Na manhã seguinte, tenho as ancas e as pernas doridas de arcar com todo aquele vigor sexual. Acordo com o barulho de alguma coisa a cair no chão. E repentinamente puxa-me covardemente pelo braço e atira-me para fora do quarto. Cago na revolta. Não merece. E embalada por uma lucidez inesperada impeço-me de deixar a hospedaria de cara tapada e espero pacientemente que ele saia do quarto.

A cidade do fumo

8

     Balbúcio estava desesperado por um cigarro. Atravessou-se à frente de um carro numa corrida veloz até à tabacaria "Última" nos arredores da cidade, com o pulmão de um menino de dez anos. Pediu cinco unidades que vieram embrulhadas num saco de plástico. Dez cêntimos o cigarro. A inflação era grande e atacava-lhe directamente a bolsa. Gaguejou uma vez. Gaguejou outra. À terceira, ameaçou cortar os pulsos. O senhor da tabacaria não reagiu. Limitou-se a deitar fumo pelo nariz impávido. Então fugiu. Escapou-se do homem e correu o mais que pôde. Atravessou o canal, o campo, o parque, o átrio da igreja, subiu a escadaria da torre até chegar ao cemitério, saltou a vedação e continuou a correr.
    Perdera de vista o senhor da tabacaria quando virou à esquerda na Rua dos Malefícios. Talvez tenha parado para rezar. Talvez para pedir perdão por fumar o tabaco que vende. Olha para trás. Não vê ninguém. Arrisca parar para descansar numa daquelas campas e acende finalmente o cigarro.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

... dir-te-ei quem és!

Com a força de um espirro, torce os membros em sinal de desconforto e invoca a sabedoria do anûs sub-valorizado ao encontrar o balde de loiça da casa do vizinho. Saiu encabulado com as mãos ainda húmidas de pouco esfregá-las nas calças e despediu-se (não sabe porquê) abocanhando um queque do cesto de congratulações pela nova casa, enviado esta manhã pela prima em segundo grau da parte dos Albuquerques. As suas intenções abrem o sentido de que ele, o próprio, não é senão mais um indivíduo-cúmulo que baixa as calças quando lhe dizem "boa-noite".
Alberto, o seu nome, passa o dia a mascar tabaco em frente à televisão, aparentando desconhecer a brevidade da vida que o obriga a passar o dia a mascar tabaco em frente à televisão. Gostava de ir a África, um dia...

segunda-feira, janeiro 24, 2011

“The characters in my novels are my own unrealized possibilities”,

Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being