Preciso levar essa mala sozinho até ao fim. Assim que ele abrir a porta, pretendo empurrá-la para dentro e descer sem falar nada. Ele ficará um tempo olhando a mala, duas horas olhando aquela mala amorfa, e poderá concluir que eu tenha vindo devolver uns livros. Sim, os poetas, ou os romances, ou a filosofia, a história universal, o atlas, a enciclopédia, sabe lá quantos volumes devolvidos com cinco anos de atraso, daí eu ter fugido envergonhado. Já não se lembrando dos livros que me emprestou, meu amigo abrirá a mala com curiosa nostalgia, como se abrisse uma lembrança dele mesmo. Surgirão as folhas de bananeira, já dilaceradas, e por baixo delas as folhas de maconha. A primeira reacção será de repugnância, menos pela maconha que pelo inesperado. Como repugna a consistência do que se põe na boca por engano. Meu amigo fechará a mala imediatamente, mas a ideia da maconha sobrará do lado de fora. E quando ele abrir a mala pela segunda vez, o fará com o lado avesso da curiosidade; abrirá passando a mão por dentro, com deleite de descobrir devagar o que já é coisa escancarada.
"O Estorvo", Chico Buarque
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