"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Preciso levar essa mala sozinho até ao fim. Assim que ele abrir a porta, pretendo empurrá-la para dentro e descer sem falar nada. Ele ficará um tempo olhando a mala, duas horas olhando aquela mala amorfa, e poderá concluir que eu tenha vindo devolver uns livros. Sim, os poetas, ou os romances, ou a filosofia, a história universal, o atlas, a enciclopédia, sabe lá quantos volumes devolvidos com cinco anos de atraso, daí eu ter fugido envergonhado. Já não se lembrando dos livros que me emprestou, meu amigo abrirá a mala com curiosa nostalgia, como se abrisse uma lembrança dele mesmo. Surgirão as folhas de bananeira, já dilaceradas, e por baixo delas as folhas de maconha. A primeira reacção será de repugnância, menos pela maconha que pelo inesperado. Como repugna a consistência do que se põe na boca por engano. Meu amigo fechará a mala imediatamente, mas a ideia da maconha sobrará do lado de fora. E quando ele abrir a mala pela segunda vez, o fará com o lado avesso da curiosidade; abrirá passando a mão por dentro, com deleite de descobrir devagar o que já é coisa escancarada.

"O Estorvo", Chico Buarque

Sem comentários:

Enviar um comentário