Os peritos em engenharia abandonam por agora o espaço. Sisudos, de pasta na mão esquerda e cigarro na direita."Controla os homens!", ouve ao fundo das escadas.
Sente-se perturbado e anseia languidamente o segundo e o outro que lhe segue, dizendo "eu sou o cavalo. Sou uma multidão perante mim. Não controlo mais os homens". Agradece-o compondo vénias sucessivas. A mão acompanha o movimento das ancas ossudas e como quem não tem cães caça com gatos imprime o batuque do seu som fúnebre na folha de papel. A casa não recebe mais trombones intrometidos. Os azulejos da casa de banho estão imaculados. Já não lhe sugam o sangue do cu, sobretudo quando o sentido não precisa de se materializar para se tornar sentido. Existe por si só.
"Aquele que nos pariu aos dois parece estar a chamar-nos, dançando ao sabor do vento contrabalançado por um samba ainda verde que lhe roça os pés. Ignoro o seu bailado. A máquina fotográfica não funciona mais. O foco de luz está desamparado", devaneia. E então a barragem deixa de ser nítida e a realidade ascende a uma posição sombria, do alto do edifício do entreposto, reclamando o direito à dignidade humana. A sua irmã consentia. Ele não. Não crê na realidade, no movimento ritmado que sente nas órbitas doridas enquanto retorna a um estado mínimo de lucidez. Cansou-se de pensar. Lagartas gordas tocam flauta numa orquestra ao virar da esquina. Sim, porque pode. Porque ele próprio é uma lagarta. Ou uma flauta. Ou a evolução que cresce e não receia tocar qualquer instrumento. Mas, por outro lado, concentrar-se significa ter de acordar e apreender que o céu e o universo não se tocam, tamanha é a arrogância de ambos. Como não existe sozinho (por isso a ideia de Deus lhe parece absurda) e porque a existência não se conforma com a ideia de unidade, começa a dar-se o colapso. A rede de relações está já amplificada ao máximo. A dimensão espartilhada do ser que nele habita. Budismo. Não tão pouco.
Ao ver-se naquele estado faz um escrutínio da sua própria morte e quase vira defunto. A criação, enquanto conceito e expressão de volúpia, sugere o feito de nos encontrarmos naquilo que criamos, distanciando-nos de nós próprios e entrando numa espécie de transe psíquico, descobrindo que afinal não somos o que julgáramos ser e que somos muitos mais a tocar o mesmo som. Somos a nossa própria criação e o corpo e a mente enquanto criações maiores.
Mas uma salvação valida a morte de outro. E de outro ainda (a dele) a primeira pouco importa. Logo, é como se não existisse. Não exerce mais poder sobre ele. Não o governa. Não dita mais as regras e o esperneio vai terminando lentamente. Cobre-se com uma manta porque está frio e a casa não aquece porque as portas e as janelas estão num constante abre e fecha por causa dos engenheiros que entram e saem todas as vezes que precisam de fumar um cigarro. A confiança que a uns os leva a querer atravessar o mundo, essa ele não a tem. Nunca a teve. E debaixo da manta as suas mãos vacilam. E acatando a ordem do imperador, masturba-se.
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