"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

sábado, outubro 30, 2010

A cidade de fumo

3

O senhor misterioso da Rua Arcaica cumprimenta-me sempre que passo em frente à loja de ferragens do Sr. Albano. Todos os dias o vejo sentado nos degraus do edifício da câmara a vender sapos malucos e corta-me a respiração só de olhar para ele. Cada vez mais, parece disposto a sucumbir no tempo, num Mercedes série A, com infinitos cavalos. Fuma que nem um cavalo. Fuma muito. Todos os dias. Hoje está velho e raramente vê o seu reflexo. Só de vez em quando repara em si no vidro de uma montra especado a olhar para ele. Mas normalmente prefere não olhar, além disso raramente se lembra que existe. Está velho e ele sabe-o enquanto percorre aquelas ruas povoadas de fumo. Custa-lhe a respirar e um suspiro mais longo é um erro de principiante.

terça-feira, outubro 26, 2010

"Alguém afirmou que «o artista literário, tendo já atingido um certo nível de compreensão, comunica essa compreensão aos seus leitores. Essa audição escritor-leitor, situe-se ou não no domínio sexual, entra forçosamente em conflito com os costumes e os tabus - e isso dos tabus e medos, crenças e costumes, têm por base quase sempre o erro.» Sejam estas ou aquelas as cirscuntâncias atenuantes invocadas como desculpa das opiniões erradas das massas, dois obstáculos se impõem que neutralizam quaisquer intenções benévolas - a falta de cultura e educação e, também, a ausência de contacto com a arte, não falando já de outros espaços em branco. Consequência: a permanente existência de um abismo entre o artista criador e o público, dado que este se mostra estranho ao mistério inerente à criação e à circunstancialidade (e não só) que a envolve."

Em "Obscenidade e Reflexão", de Henry Miller, Editora Vega, 2ª edição, página 35 e 36

segunda-feira, outubro 25, 2010

A cidade de fumo

2

«Meu caro amigo Garibaldo, é com imensa pena que o informo da decisão tomada, ontem à noite, pela direcção. Lamentamos mas os seus serviços de tradução não serão mais necessários. Como deve calcular, a situação económica da empresa tornou-se insustentável e o despedimento em massa é a única opção viável nesta altura. Contudo, gostámos muito de trabalhar consigo e acreditamos que não encontrará dificuldades em encontrar outro emprego.»
Aquelas palavras não me saem da cabeça. Teria sido mesmo capaz de proferir tais ofensas? Porventura, não se teria enganado no tradutor? Alguma confusão de secretariado ou erro informático? De certo, que não.
Apanhei o comboio por volta da hora de almoço. De carruagem em carruagem em direcção ao restaurante andava com um ar desolado. Apoiei-me ao balcão e rosnei entre dentes a lentidão da empregada. Um copo vazio não é mais do que um desperdício de tempo. Sentia-me revoltado e a mulher que, no banco ao lado do meu, comia uma perna de frango frito parecia atiçar ainda mais a minha rebelião interior contra aquela que fora a maior injustiça da minha vida. A condição de tradutor, escravizado uma vida inteira pela força patronal, tornou-se demasiado ingrata para um homem só. Enterro a cara no bagaço e por pouco que não grito a todos para saírem.
Preciso urgentemente de um cigarro. As ladies de cabelos armados, que rebolavam pelas mesas e entornavam cervejas, devem fumar com certeza. Arregacei as calças de bombazina grená e pedi-lhes, estorvado pelo barulho dos carris, um cigarro sem vergonha e corri para junto da janela mais próxima onde um homem vestido com um fato belissimamente engomado escrevinhava as primeiras páginas de um caderno de capa azul. Desde a morte do meu filho que suspeito que Avaí, a minha brasileirinha, trai-me com o dono da funerária. Penso isto porque recentemente foi nosso convidado para jantar e comeu um estupendo guisado de ervilhas, pelo que percebi, o seu prato preferido. Abro a janela e ponho a cabeça de fora. Por pouco que o vento não me levou o pensamento, não me varreu aquele penoso sentimento de traição consentida por Deus, pela minha mulher e agora pelo meu patrão.
         «Senhor... Senhor!!! Não é permitido fumar no comboio» - informa-me o revisor, dando-me umas palmadinhas nas costas. «Se quer fumar um cigarro, faça o favor de sair na próxima estação. Não se preocupe que já falta pouco tempo. Dois minutos no máximo.», assegurou-me.

sexta-feira, outubro 22, 2010

Desequilíbrio

        Descia as escadas do prédio e veio-me à memória o quadro do Mário torto na sala, o par de sapatos desencontrado no chão do quarto, a porta esquerda do armário entreaberta, os cacos de vidro debaixo da porta, o perfume caído na estante, os óculos sem uma haste, as camisolas do avesso, o porta jóias desarrumado, as velas queimadas, as flores artificiais murchas, a cama desfeita, o gravador estragado e o cadáver que escondo debaixo da cama há vinte anos e do qual ainda não me consegui desfazer porque ele insiste e diz que me ama sempre que me deito ou que me levanto. Todos os dias. Há vinte anos.
        Hoje não me respeita mais. Vou-me embora. Desço as escadas.

Extremely Rare Shunga Painting - Through A Door - Anonymous - c.1730


23:59

Às 23:59 de uma sexta-feira à noite, os lobos invadem a selva em pele de ovelha. E aparentemente inofensivos, «tão dóceis», perfazem os seus dias penetrando os rabos dos que se esquecem de abrir os olhos pela manhã...

O INTERNATO

Pouco tempo depois deste incidente, os alunos foram fazer uma excursão botânica. Dez deles perderam-se. E entre eles o jovem efebo loiro. Viram-se no meio da floresta, longe dos professores e dos outros alunos. Sentaram-se a descansar e começaram a combinar qual o plano a seguir. Desataram a comer umas bagas selvagens. Como é que aquilo começou ninguém poderá dizê-lo. O certo é que daí a pouco estava o rapazinho loiro todo nu, deitado de barriga para baixo em cima da erva, e os outros todos à vez em cima dele, penetrando-o como a uma prostituta, com brutalidade. Os mais experientes satisfaziam o desejo no anûs, os outros contentavam-se com esfregar-se entre as pernas do rapaz, cuja pele era mais macia do que a das mulheres. Cuspiam nas mãos e untavam o pénis com saliva. O rapaz loiro gritava, debatia-se, chorava – mas os outros gozavam e serviam-se dele até ficarem fartos.

Anaïs Nin Anin, em “Delta de Vénus”, texto “O Internato”, página 41, Bico de Pena

Os que passam a correr

     Se vamos passear à noite por uma rua e um homem que ao longe se avista – porque a rua sobe à nossa frente e a lua está cheia – vem a correr de encontro a nós, então não o vamos agarrar, apesar de ele ser fraco e andrajoso, apesar de vir uma pessoa a correr atrás dele e a gritar, vamos antes deixá-lo passar.
     Porque é de noite e não temos culpa que a rua seja a subir e esteja iluminada pela lua e, além do mais, talvez estes dois homem tenham organizado a caça para seu divertimento, talvez os dois persigam um terceiro, talvez o primeiro esteja a ser injustamente perseguido, talvez o segundo queira matar e nós seríamos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada qual apenas corra, por sua própria iniciativa, para a sua cama, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.
     E afinal de contas não podemos nós estar cansados, não é verdade que bebemos muito vinho? Estamos contentes por também já não vermos o segundo homem.

Franz Kafka, em “Os Contos”, 1º volume, textos publicados em vida do escritor, página 39, Assírio & Alvim

segunda-feira, outubro 18, 2010

Estão dois estranhos na minha sala

Estão dois estranhos na minha sala e não faço ideia de como vieram aqui parar.  Estou a curtir a música e eles interrompem. Coço o rabo e eles fazem cara feia. Não sei como lhes dizer para saírem, que estou farto e já não os posso ouvir mais. "Chega!" digo na minha cabeça e mantenho a expressão serena enquanto eles discutem a inércia mental e ineficácia energética.
- Preciso de uma ideia para a minha próxima exposição. Estou perdido. - disse um deles e a olhar para mim.
Não olhes para mim, pensei, e o outro pareceu pensar o mesmo.
A noite já ia longa. Infelizmente acabei por me habituar à presença deles e, meio derrotado, ofereci-lhes um copo de whisky que recusaram educadamente. Filhos de uma puta!
Farta daquela saga universal
de que as mulheres são cera carnal
E dos outros que me dizem o que fazer
"É a vida, vai-te foder".

Porque o ar que respiro faz-me doer a narina.
E a água que bebo arranha-me a vagina.
E porque não tenho asas
Nem sou tua, nem minha,
Nem de ninguém.

Sou o caos, a desordem,
E o fato que visto não lembra o homem.
Bocejo e deixo o cansaço bater.
Sofro porque assim tem de ser.

A cidade do fumo

1

Perguntaram-me na esquina em frente à minha casa se conhecia a cidade do fumo. Esbocei um leve sorriso. Olhei para ele e vi que o seu nariz tinha a forma de um cogumelo do campo. Caguei para ele. Mas imprevisivelmente fui para a cama nessa noite a pensar nele e em como tremelicava a voz e o corpo enquanto falava. Perguntei-me porque me precipitei em não lhe dar a indicação certa.
No dia seguinte, sai de casa, em cima da hora para apanhar o comboio. A carruagem estava atulhada de passageiros e cheirava a detergente da loiça. A paisagem em movimento, recortada pela cortina, como uma película cinematográfica, e o vento áspero, outonal, provocavam-me uma nostalgia tão grande que superava aquela sentida ao ver a cidade a aparecer, no canto esquerdo da janela.
Vista do comboio, a cidade é absolutamente teatral e pragmaticamente doente. Centenas de passageiros saíram naquela paragem, com suas expressões convalescentes e pernas bamboleantes. Uma espessa neblina de fumo sustinha o azul do céu e encobria os andares mais altos e as antenas de som. Inconscientemente, sai com um deles. Pelas ruelas de cobre, mulheres, homens e crianças andavam dispersos e interagiam com o vapor que se desprendia dos seus corpos; mulheres, crianças e homens também fumavam fumo-bravo à janela, nos cafés, no mercado, nas escolas e nas adegas. Excepto no cemitério. Por lei, no cemitério é proibido fumar. A exposição à fumararia tornara os seus corpos quebráveis e macilentos, tanto que se ouvia o atrofio dos seus ossos a ranger enquanto andavam. Credo!
A guerra instalada entre governos e cidadãos fumadores, entre homens e homens, assumiu dimensões colossais e resultou no deslocamento de todos os que fumam para cidades deixadas, em tempos, ao abandono por esses mesmos governos. Chamam-lhes as cidades reabilitadas quando o que realmente querem dizer  é que são antros de fumo. Agora quem fuma é obrigado a transportar consigo o cartão de fumador activo/passivo e um crachá com um sorriso amarelo desenhado a preto preso ao peito.
Inesperadamente, vi o homem que ontem me perguntou pela cidade do fumo, com uma cigarrilha verde apagada no canto da boca. Estava no cemitério onde as cruzes das campas se estendiam até ao horizonte. Apanhou-me a olhar para ele mas não reagiu. Não sei estava ali para visitar um morto ou se para ver a sua própria morte. Acenei-lhe e ele acenou de volta.
Cinco minutos depois e o comboio retomou viagem. As carruagens estão agora vazias e os bancos rotos metem dó.

sexta-feira, outubro 15, 2010

A HORTA DO PADEIRO

Combinaram encontrar-se na Horta do Padeiro, pouco depois da meia-noite para não levantar suspeitas, nem dar azo à má-língua popularucha. Na estrada que vai dar à estação ferroviária, era vê-las sair dos seus 4 L barulhentos, amparadas pelas barrigas ainda inchadas das feijoadas e das canjas de borrego. Traziam os cabelos escorridos da lida agrícola, das cajadadas nas ovelhas, do rio onde antigamente lavavam as cuecas sujas dos maridos e os saiotes de pêlo curto que usavam só em ocasiões especiais. Hoje era uma delas. As quatro de buços airados vestiam por debaixo das saias moscovitas estridentes saiotes de pêlo curto que escondiam a pequerrucha pendente e atiçavam o interesse deles.
A última a entrar deu uma palmadinha no rabo do porteiro da Horta e piscou-lhe o olho e engelhou a pele circundante. Refastelaram-se, lado a lado, de frente para o palco arredondado, bêbadas e transpiradas. Valéria levantou o braço e pediu uma garrafa de whisky e um pires de amendoins torrados. Todas as quartas-feiras eram dia de Jack Daniel’s e de strip. E regozijavam-se mesmo por gastar o dinheiro que os maridos ganhavam. Há uns anos que o sexo marital era terrível e decadente, como quando o pássaro faz sexo com uma espiga. E vê-los, pouco a pouco, despindo os uniformes sexuais e revelando os seus troncos selvagens e contornados era a sua bênção semanal e mais três ave marias. A meio da dança, uma delas abriu as pernas, assentou-as em cima do palco e exclamou que queria enfiar a cara dele debaixo do seu saiote e esfregá-la até ficar vermelha. Outra abanava o leque debaixo da saia e outra ainda chegava mesmo ao ponto de deixar cair baba sobre a mesa. Já a que dera a palmadinha ao porteiro, a mais abastada das quatro, estava fechada num compartimento improvisado nas traseiras da vivenda com um angolano de carácter espevitado, tão espevitado, que lhe lambia os mamilos doridos.
Já era de madrugada quando se encontraram cá fora, esbaforidas, tesudas, mulheres. Traziam os cabelos escorridos da lida agrícola, das cajadadas nas ovelhas, do rio onde antigamente lavavam as cuecas sujas dos maridos e os saiotes de pêlo curto que usavam só em ocasiões especiais.

quinta-feira, outubro 14, 2010

«Em vez de tecidos finos, usava um cilício sobre a pele nua, o pão regado de lágrimas substituía as refeições opíparas e o seu pranto misturava-se ao que bebia. Submetia o corpo a tal austeridade que quase o aniquilava tanto pelo frio como pela falta de comida. Em pleno Inverno, partia o gelo à machadada e enfiava-se na água até ao pescoço, aí permanecendo até o frio lhe penetrar totalmente o corpo.»

“O Prazer na Idade Média"
I spoon powdered drum beats into plastic bags
sellin' kilos of kente scag
takin' drags off of collards and cornbread
tree-basing through saxophones and flutes like mad
the high notes make me space float
i be exhalin' in rings that circle Saturn
leavin'stains in my veins in astrological patterns
yeah, i'm sirius B
Dogon niggas plotted shit, lovely
but the Feds are also plottin' me
they're tryin' to imprison my astrology
to put my stars behind bars
my stars in stripes
using blood splattered banners
as nationalist kites
but i control the wind
that's why they call it the hawk
i am horus son of isis
son of osiris worshipped as jesus
resurrected like lazarus
but you can call me lazzie
lazy
yeah, i'm lazy
cause i'd rather sit and build
than work and plow a field
worshipping a daily yield of cash green crop
your evolution stopped with the evolution of your technology
a society of automatic tellers and money machines
nigga what?
my culture is lima beans


Saul Stacey Williams