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«Meu caro amigo Garibaldo, é com imensa pena que o informo da decisão tomada, ontem à noite, pela direcção. Lamentamos mas os seus serviços de tradução não serão mais necessários. Como deve calcular, a situação económica da empresa tornou-se insustentável e o despedimento em massa é a única opção viável nesta altura. Contudo, gostámos muito de trabalhar consigo e acreditamos que não encontrará dificuldades em encontrar outro emprego.»
Aquelas palavras não me saem da cabeça. Teria sido mesmo capaz de proferir tais ofensas? Porventura, não se teria enganado no tradutor? Alguma confusão de secretariado ou erro informático? De certo, que não.
Apanhei o comboio por volta da hora de almoço. De carruagem em carruagem em direcção ao restaurante andava com um ar desolado. Apoiei-me ao balcão e rosnei entre dentes a lentidão da empregada. Um copo vazio não é mais do que um desperdício de tempo. Sentia-me revoltado e a mulher que, no banco ao lado do meu, comia uma perna de frango frito parecia atiçar ainda mais a minha rebelião interior contra aquela que fora a maior injustiça da minha vida. A condição de tradutor, escravizado uma vida inteira pela força patronal, tornou-se demasiado ingrata para um homem só. Enterro a cara no bagaço e por pouco que não grito a todos para saírem.
Preciso urgentemente de um cigarro. As ladies de cabelos armados, que rebolavam pelas mesas e entornavam cervejas, devem fumar com certeza. Arregacei as calças de bombazina grená e pedi-lhes, estorvado pelo barulho dos carris, um cigarro sem vergonha e corri para junto da janela mais próxima onde um homem vestido com um fato belissimamente engomado escrevinhava as primeiras páginas de um caderno de capa azul. Desde a morte do meu filho que suspeito que Avaí, a minha brasileirinha, trai-me com o dono da funerária. Penso isto porque recentemente foi nosso convidado para jantar e comeu um estupendo guisado de ervilhas, pelo que percebi, o seu prato preferido. Abro a janela e ponho a cabeça de fora. Por pouco que o vento não me levou o pensamento, não me varreu aquele penoso sentimento de traição consentida por Deus, pela minha mulher e agora pelo meu patrão.
«Senhor... Senhor!!! Não é permitido fumar no comboio» - informa-me o revisor, dando-me umas palmadinhas nas costas. «Se quer fumar um cigarro, faça o favor de sair na próxima estação. Não se preocupe que já falta pouco tempo. Dois minutos no máximo.», assegurou-me.
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