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Perguntaram-me na esquina em frente à minha casa se conhecia a cidade do fumo. Esbocei um leve sorriso. Olhei para ele e vi que o seu nariz tinha a forma de um cogumelo do campo. Caguei para ele. Mas imprevisivelmente fui para a cama nessa noite a pensar nele e em como tremelicava a voz e o corpo enquanto falava. Perguntei-me porque me precipitei em não lhe dar a indicação certa.
No dia seguinte, sai de casa, em cima da hora para apanhar o comboio. A carruagem estava atulhada de passageiros e cheirava a detergente da loiça. A paisagem em movimento, recortada pela cortina, como uma película cinematográfica, e o vento áspero, outonal, provocavam-me uma nostalgia tão grande que superava aquela sentida ao ver a cidade a aparecer, no canto esquerdo da janela.
Vista do comboio, a cidade é absolutamente teatral e pragmaticamente doente. Centenas de passageiros saíram naquela paragem, com suas expressões convalescentes e pernas bamboleantes. Uma espessa neblina de fumo sustinha o azul do céu e encobria os andares mais altos e as antenas de som. Inconscientemente, sai com um deles. Pelas ruelas de cobre, mulheres, homens e crianças andavam dispersos e interagiam com o vapor que se desprendia dos seus corpos; mulheres, crianças e homens também fumavam fumo-bravo à janela, nos cafés, no mercado, nas escolas e nas adegas. Excepto no cemitério. Por lei, no cemitério é proibido fumar. A exposição à fumararia tornara os seus corpos quebráveis e macilentos, tanto que se ouvia o atrofio dos seus ossos a ranger enquanto andavam. Credo!
A guerra instalada entre governos e cidadãos fumadores, entre homens e homens, assumiu dimensões colossais e resultou no deslocamento de todos os que fumam para cidades deixadas, em tempos, ao abandono por esses mesmos governos. Chamam-lhes as cidades reabilitadas quando o que realmente querem dizer é que são antros de fumo. Agora quem fuma é obrigado a transportar consigo o cartão de fumador activo/passivo e um crachá com um sorriso amarelo desenhado a preto preso ao peito.
Inesperadamente, vi o homem que ontem me perguntou pela cidade do fumo, com uma cigarrilha verde apagada no canto da boca. Estava no cemitério onde as cruzes das campas se estendiam até ao horizonte. Apanhou-me a olhar para ele mas não reagiu. Não sei estava ali para visitar um morto ou se para ver a sua própria morte. Acenei-lhe e ele acenou de volta.
Cinco minutos depois e o comboio retomou viagem. As carruagens estão agora vazias e os bancos rotos metem dó.
No dia seguinte, sai de casa, em cima da hora para apanhar o comboio. A carruagem estava atulhada de passageiros e cheirava a detergente da loiça. A paisagem em movimento, recortada pela cortina, como uma película cinematográfica, e o vento áspero, outonal, provocavam-me uma nostalgia tão grande que superava aquela sentida ao ver a cidade a aparecer, no canto esquerdo da janela.
Vista do comboio, a cidade é absolutamente teatral e pragmaticamente doente. Centenas de passageiros saíram naquela paragem, com suas expressões convalescentes e pernas bamboleantes. Uma espessa neblina de fumo sustinha o azul do céu e encobria os andares mais altos e as antenas de som. Inconscientemente, sai com um deles. Pelas ruelas de cobre, mulheres, homens e crianças andavam dispersos e interagiam com o vapor que se desprendia dos seus corpos; mulheres, crianças e homens também fumavam fumo-bravo à janela, nos cafés, no mercado, nas escolas e nas adegas. Excepto no cemitério. Por lei, no cemitério é proibido fumar. A exposição à fumararia tornara os seus corpos quebráveis e macilentos, tanto que se ouvia o atrofio dos seus ossos a ranger enquanto andavam. Credo!
A guerra instalada entre governos e cidadãos fumadores, entre homens e homens, assumiu dimensões colossais e resultou no deslocamento de todos os que fumam para cidades deixadas, em tempos, ao abandono por esses mesmos governos. Chamam-lhes as cidades reabilitadas quando o que realmente querem dizer é que são antros de fumo. Agora quem fuma é obrigado a transportar consigo o cartão de fumador activo/passivo e um crachá com um sorriso amarelo desenhado a preto preso ao peito.
Inesperadamente, vi o homem que ontem me perguntou pela cidade do fumo, com uma cigarrilha verde apagada no canto da boca. Estava no cemitério onde as cruzes das campas se estendiam até ao horizonte. Apanhou-me a olhar para ele mas não reagiu. Não sei estava ali para visitar um morto ou se para ver a sua própria morte. Acenei-lhe e ele acenou de volta.
Cinco minutos depois e o comboio retomou viagem. As carruagens estão agora vazias e os bancos rotos metem dó.
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