(Ao final da noite na garagem)
Mário – Mas existe um bicho do papel... Uma coisinha pequenina.
David - Opaaaah...
Mário - Assim com bueda patinhas. Ah! As traças?!
David - Ainn caraças! Tu hoje não serves mesmo para nada. Mário afasta-te desta conversa...
Gordo - Mas quais traças Mário!
Mário - São traças. São bichos com bueda patinhas, tipooo prateados.
Gordo - Pah, à tempos estava a falar com uma gaja sobre tatuagem bueda burra. Sabem aquela cena da Prova do Tubo. "Qual é... Como é que se chama a profissão dos gajos..."
David - Astronauta.
Gordo - Ya. Não. Isso é o que ela diz... "Como é que se chamam as cavidades órbitas ou qual é o órgão que está na cavidade" e ela... astronauta... (RISOS) Tive uma cena assim com uma chavala lá na loja. O que é que foi? Não me lembro.
(SILÊNCIO)
Mário - (que entretanto desenhou o bicho num papel) São estes bichos assim prateados? Estes são a traça do papel.
David - Ya é tipo isso.
Mário - Pois, são as traças de papel!
Gordo - (a bocejar) É o bicho do papel.
Mário - Eu tenho o armazém cheio dessa merda.
Gordo - Ya mas isso são os teus pais que chamam a isso a traça do papel.
Mário - Mas são mesmo traças...
Gordo - À tráçáaa...
Mário - Às vezes também estão na roupa.
Gordo - Isso são traças. Tenho bué em casa. Não sei porquê mas sempre que as vejo é na casa de banho. A minha mãe tem para lá a caixa de cartão do Skip e o papel higiénico. Mais nada!
Mário - Na loja não há traças?
Gordo - Na loja há algumas.
Mário - Eu encontro-as sempre nos livros.
Gordo - (a cantar) Hoje à noiteee.... vou ficar! Em casaaaaa... Ficar!
"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
O ribeiro de lava preta provocou uma fuga de gás atrás do arbusto saliente e deu-se uma explosão (conta-se que foi ouvida nos quatro cantos do mundo...)
O fogo ardeu e queimou as raízes da Mãe. A água extinguiu-se ao longo do tempo, bem como outras espécies vivas. Desavergonhados aqueles que se aproveitaram delas, de ti e de mim. Gostava de voltar ao que era. Ao céu azul, ao sol quente, à erva fresca que limpa os recantos puros do subconsciente.
- Moras onde? - perguntou-lhe, atrevido.
- Em lado nenhum. O mundo é a minha casa - disse-lhe, rindo.
- Sozinho? Caramba!
- Não te iludas, parceiro.
- Porquê?
- Porquê?! Sei lá.
- Ouvi dizer que morreste...
- Acho que estou vivo.
- E continuas a comer o lixo dos teus vizinhos?
- Ora essa. Por quem me tomas...
- Sim?
- Sim.
terça-feira, fevereiro 28, 2012
Quem disse isso só pode ser estúpido. Ou ignorante.
Porque quando contraímos o espírito do outro
somos invadidos por uma atitude laxante de ser.
Ora, o que quer isto dizer?
Depende. Tudo depende de alguém
ou de alguma coisa
ou então de nada.
Porque o Destino continua a conduzir
a carroça de tudo pela estrada de nada.
Porque quando contraímos o espírito do outro
somos invadidos por uma atitude laxante de ser.
Ora, o que quer isto dizer?
Depende. Tudo depende de alguém
ou de alguma coisa
ou então de nada.
Porque o Destino continua a conduzir
a carroça de tudo pela estrada de nada.
Reflexões sobre a moral enquanto preconceito - Friedrich Nietzsche
«A minha tarefa de preparar à humanidade um instante da mais elevada auto-reflexão, um grande meio-dia em que ela possa olhar para trás e para muito além de si, em que se subtraia à dominação do acaso e dos sacerdotes, e em que ponha pela primeira vez, como totalidade, a questão do «porquê?» e do «para quê?» - semelhante tarefa segue-se necessariamente do discernimento de que a humanidade não está no seu recto caminho, de que não é regida pela divindade, de que, pelo contrário, sob os seus mais santos conceitos de valor, imperou sedutoramente o instinto da negação, da perversão, o instindo da décadence. A questão da origem dos valores morais é, portanto, para mim uma questão de primeira importância, porque condiciona o futuro da humanidade. A exigência de que se deve acreditar que tudo, no fundo, se encontra nas melhores mãos, que um livro, a Bíblia, proporciona um definitivo apaziguamento sobre o governo divino e a sabedoria no destino da humanidade, é, reconvertida para a realidade, a vontade de não deixar surgir a verdade sobre o seu lastimoso contrário, a saber, que a humanidade esteve até agora nas piores mãos, que ela foi governada por depravados, por sedentos de astuciosa vingança, pelos chamados «santos», esse caluniadores do mundo, que desonram a humanidade. (...) Quando, no interior do organismo, o mais modesto órgão deixa de impor com plena segurança a sua auto-conservação, a sua reserva de energia, o seu «egoísmo», o todo degenera. O filósofo exige a ablação da parte degenerada, nega toda a solidariedade com o elemento degenerado, está bem longe dele ter compaixão. Mas o sacerdote quer justamente a degeneração do todo, da humanidade: por isso, conserva o degenerado - é a este preço que ele a domina... Que sentido têm estas noções enganadoras, os conceitos auxiliares de moral, «alma», «espírito», «vontade livre», «Deus», senão o de arruinarem fisiologicamente a humanidade?...»
Friedrich Nietzsche, in "Ecce Hommo", páginas 70 e 71
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
É preciso certa coragem intelectual para um indivíduo reconhecer destemidamente que não passa de um farrapo humano, aborto sobrevivente, louco ainda por fora das fronteiras da internabilidade; mas é preciso ainda mais coragem de espírito para, reconhecido isso, criar uma adaptação perfeita ao seu destino, aceitar sem revolta, sem resignação, sem gesto algum, ou esboço de gesto, a maldição orgânica que a Natureza lhe impôs. Querer que não sofra com isso, é querer demais, porque não cabe no humano o aceitar o mal, vendo-o bem, e chamar-lhe bem; e, aceitando-o como mal, não é possível não sofrer com ele.
domingo, fevereiro 26, 2012
Pinguim Japonês
Os olhos não mentem. Aquilo que vemos, temos a certeza de ser aquilo que realmente ali está, especado à nossa frente ou ao nosso lado. Desde que nascemos vamos aprendendo lentamente o papel do olhar e qual a melhor forma de lidar com ele.
Mas o caso de Edgar contraria esta tendência. Desde que tem consciência de existir, o rapaz aprendeu a controlar a visão. Através da mente vê apenas aquilo que lhe apetece ver. Mas para alcançar este estado avançado de liberdade foram necessárias preciosas horas de treino e concentração da mente.
Edgar sabia que as probabilidades de alguém se cruzar com um pinguim japonês eram escassas. Mas a verdade é que os seus olhos mostravam-lhe um pinguim japonês a passear desajeitado pelo centro de Tóquio.
poesia de um mortal
Escorregas por uma espiral
de lâminas aguçadas.
Sangras. Sofres. Calas-te.
...continuas a escorregar...
Olhas para baixo. Escuro. Nada.
Apenas segundos seguidos de dor.
Silêncio cortante.
Páras no tempo e esperas por alguém que não chega.
Que não chegará. Que não existe.
E assim embarcas na viagem da tua vida
que preferes esquecer. Apagas. Esqueces.
Sentes arrepios de frio. Aqueces.
E desnorteada, morres.
de lâminas aguçadas.
Sangras. Sofres. Calas-te.
...continuas a escorregar...
Olhas para baixo. Escuro. Nada.
Apenas segundos seguidos de dor.
Silêncio cortante.
Páras no tempo e esperas por alguém que não chega.
Que não chegará. Que não existe.
E assim embarcas na viagem da tua vida
que preferes esquecer. Apagas. Esqueces.
Sentes arrepios de frio. Aqueces.
E desnorteada, morres.
sábado, fevereiro 25, 2012
Não sonho com um mundo onde a religião deixe de ter um lugar, mas sim com um mundo onde a necessidade de espiritualidade esteja dissociada da necessidade de pertença. Um mundo onde o homem, continuando embora ligado às suas crenças, a valores morais eventualmente inspirados num livro sagrado, não sinta mais necessidade de se juntar ao exército dos seus correligionários. Um mundo onde a religião já não serviria de cimento a etnias em guerras. Não basta separar a Igreja do Estado, tão importante como isso seria separar o religioso do identitário. E justamente, se se quiser evitar que esta amálgama continue a alimentar o fanatismo, o terror e as guerras étnicas, será necessário poder satisfazer de outro modo a necessidade de identidade.
In "As Identidades Assassinas", de Amin Maalouf
sexta-feira, fevereiro 24, 2012
o homem sem nome
Hoje olha para trás e instintivamente abana a cabeça, pensando o quão ignorante foi por nunca ter pensado que a vida nasceu do ventre de uma prostituta. A ele, é escusado dar-lhe um nome. Prefiro mantê-lo no anonimato, escondido atrás de uma árvore ou preso num sótão de alguém que ainda não conheci e que talvez nunca virei a conhecer.
Mas dizia eu que para ele a vida é filha da prostituição, do saque, da amotinação. E não foi à toa que ele chegou a esta conclusão, pois ela era bela, instável e chupadora. Trazia resquícios de vinho nos lábios gretados e quando tossia, tentava inconscientemente expulsar o mal que a impedia de cortar a artéria umbilical. Nunca se soube como se conheceram, nem mesmo eu, mãe literária. Apenas que faziam amor em público, como crianças ousadas que anseiam o doce mel, o mais distante, o impossível e que gemiam e gritavam em praça pública palavras ordinárias que sem querer (e sem dever) feriam a audição beata, animal de hábitos.
Com o passar do tempo, ele transformou-se objecto de falatório público, tema rotineiro de conversa e rapidamente tomou as cores do nada, carente de pele e osso, escravo da transparência. Até ao dia em que ela fugiu, carregando consigo os seus sentidos, sonhos de infância, as virtudes e ócios de uma vida. O calor da vergonha abalou a cidade rubra. Hoje já ninguém fala dele, ficou enterrado no âmago de uma geração que preferiu esquecê-lo, passou de ninguém para ser nada.
Já eu, mãe-criadora, prefiro continuar a escrever sobre ele, mesmo não lhe dando um nome.
quinta-feira, fevereiro 23, 2012
"Com onze canecas de cerveja e sete gins brincando às escondidas no bucho, caiu do primeiro degrau e só parou lá em baixo. (...) Era a noite de sábado, o melhor, o maior, o mais alegre pedaço da semana, um dos cinquenta e dois feriados na roda lenta do ano, um violento preâmbulo para um domingo de prostação. Paixões acumuladas estoiravam na noite de sábado, e os efeitos de uma monótona semana de trabalho nas fábricas eram expulsos do corpo em explosões de euforia. Seguia-se a grande máxima «bebe e diverte-te», deixavam-se os braços nodosos apertados em torno de uma cintura feminina e a cerveja a deslizar beneficamente pela garganta a baixo, direita à capacidade elástica do estômago."
In Sábado à noite e domingo de manhã, de Alan Sillitoe
sagrado
Acredito francamente,
Devotamente até, no «sagrado pintor»
No santo, no sacro, no sacrossanto,
Se por sagrado se entender o amor
Porque isso de cobrar favores,
Ao pobre, ao analfabeto, ao cantador,
(som dos tambores)
Não tem em si qualquer valor
No fundo, bem lá no fundo,
De nada vale o espanto do orador
Que uma vez é atraiçoado, outra é o traidor
E a dor é tanta
E o sofrimento é tanto
Oh! se tanto
Devotamente até, no «sagrado pintor»
No santo, no sacro, no sacrossanto,
Se por sagrado se entender o amor
Porque isso de cobrar favores,
Ao pobre, ao analfabeto, ao cantador,
(som dos tambores)
Não tem em si qualquer valor
No fundo, bem lá no fundo,
De nada vale o espanto do orador
Que uma vez é atraiçoado, outra é o traidor
E a dor é tanta
E o sofrimento é tanto
Oh! se tanto
quarta-feira, fevereiro 22, 2012
SONHO DE HIPNOS
Não sei se durmo ou se estarei acordado. Mas sinto-me velho. Tenho o bigode despenteado de tanto mimar a almofada e não acho a parte de cima do meu pijama geométrico. Decerto que estarei dentro de um sonho. A minha realidade sonhada. Remexo a cabeça e não encontro nenhuma visão do mar. Pois o que significará o mar para mim senão uma onda de força inatingível que me deixa perplexo a cada visão sua. Rendido, ainda tentei apanhar a cabeça que entretanto se desprendeu do meu pescoço e começou a rebolar colina abaixo, até embater contra uma rocha coberta de musgo que me pareceu macia. Lembro-me do campo de tulipas que um dia hei-de visitar. Ao longe, parece um campo de malaguetas com a ponta acesa onde acendo o segundo cigarro do dia. A partitura invisível, em estado selvagem, movimenta-se em torno do meu próprio corpo, composta ora por sopros de árvores, ora por espirros de peixes ao luar. Acredito no Deus que somos todos nós, homens e corvos. Acredito naquilo que vejo e não naquilo que os olhos me dizem. Para quê olhar (pois se tudo é luz-ilusão) quando podemos ter todas as sensações depois de adormecer. Vivo ciente das ciências da natureza. Não distingo cores, formas ou consistências. Tudo consequência das sopas de cavalo cansado que me davam de comer ao pequeno-almoço. Quando comecei a salivar uma cubana de ancas largas caiu desamparada em cima de mim. Não aguentei a pressão. Tudo ficou escuro de repente, pois ela trazia uma saia que lhe chegava aos pés, de tecido grosso alaranjado. Belisco a pele frenética em busca do sentido real das coisas mas ela fica irritada e grita-me que volte a mim. Eu consinto e baixo o pescoço porque a cabeça já era!
masturbação
As técnicas mais usuais para a masturbação masculina radicam num variado uso das mãos. À utilização de toda a mão para envolver o membro, alguns preferem segurar o pénis só com três dedos, o polegar na parte superior e o indicador e o médio na inferior, para começar a estimulá-lo puxando a pele até à glande e regressando abaixo. Também é possível utilizar a mão esquerda, já que provoca sensações distintas, na medida em que não tem a mesma coordenação que a outra para conseguir um ritmo harmonioso e contínuo.
baby larga-me
não vês o mal que fazes à minha alma
Jesus ama-me
mas se tu não me amas engana-me
masturbação
eu não consigo engravidar a solidão
os meus ovários mirram
baby para nós não há salvação
vou voltar e morrer contigo
eu não conheço mais nenhum caminho
eu vou voltar e morrer contigo
ajuda-me Pai eu estou aflito
ooh... ajuda-me Pai eu tou aflito
Allen Halloween, Redenção
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Preciso levar essa mala sozinho até ao fim. Assim que ele abrir a porta, pretendo empurrá-la para dentro e descer sem falar nada. Ele ficará um tempo olhando a mala, duas horas olhando aquela mala amorfa, e poderá concluir que eu tenha vindo devolver uns livros. Sim, os poetas, ou os romances, ou a filosofia, a história universal, o atlas, a enciclopédia, sabe lá quantos volumes devolvidos com cinco anos de atraso, daí eu ter fugido envergonhado. Já não se lembrando dos livros que me emprestou, meu amigo abrirá a mala com curiosa nostalgia, como se abrisse uma lembrança dele mesmo. Surgirão as folhas de bananeira, já dilaceradas, e por baixo delas as folhas de maconha. A primeira reacção será de repugnância, menos pela maconha que pelo inesperado. Como repugna a consistência do que se põe na boca por engano. Meu amigo fechará a mala imediatamente, mas a ideia da maconha sobrará do lado de fora. E quando ele abrir a mala pela segunda vez, o fará com o lado avesso da curiosidade; abrirá passando a mão por dentro, com deleite de descobrir devagar o que já é coisa escancarada.
"O Estorvo", Chico Buarque
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
Imaginación
Para el álbum de Inti-Illimani, véase Imaginación (álbum).
«imaginar» redirige aquí. Para otras acepciones, véase imaginario.
La imaginación (del latín imaginatĭo, -ōnis) es un proceso superior que permite al individuo manipular información generada intrínsecamente con el fin de crear una representación percibida por los sentidos de la mente. «Intrínsecamente generada» significa que la información se ha formado dentro del organismo en ausencia de estímulos del ambiente. En lo que respecta a «sentidos de la mente», son los mecanismos que permiten «ver» un objeto que se había visualizado previamente pero que ya no se encuentra presente en el ambiente. Cabe aclarar que cuando se imagina no se reduce solo al sentido de la visión, sino también a otras áreas sensoriales.
En el sentido anterior la imaginación tiene semejanza con el proceso de percibir. No obstante, la primera no se limita a la segunda. La imaginación es un proceso más abstracto, esto es, que no necesita de un objeto presente en la realidad (en ese instante), ella se sirve de la memoria para manipular la información y relacionarla de formas que no dependen del estado actual del organismo. Es decir, la imaginación toma elementos antes percibidos y experimentados, y los transforma en nuevos estímulos y realidades.
Los orígenes del estudio de la imaginación datan desde las reflexiones filosóficas. No obstante, su posicionamiento como materia de estudio científico, alejado de especulaciones metafísicas, se da con el nacimiento de la psicología experimental, pese a esto, se conserva como un componente psíquico lejos de ser descifrado. Es solo hasta finales del siglo XX y principios del presente siglo que la imaginación se toma como desafío para la investigación psicológica y neurocientífica, y los métodos conjuntos de neuroimagen y conductuales permiten vislumbrar hipótesis de cómo el cerebro imagina.
Fonte: Wikipedia
o sentido
- Tem sentido?
- Tenho sentido?! Como assim? Sinto-me bem. É isso? Não entendi o sentido da sua pergunta.
- Mas não lamente. Sinta-se bem. É isso que importa!
- Sim, para si. Já eu não penso assim.
- Mas que importa isso?
- Tenho-me sentido doente, sabe?
- Ultimamente tem-se sentido doente? Engraçado! Eu não...
- Mas vai morrer, sabia?
- Não tenho medo da morte. Quem sabe, um dia...
- Sim, quem sabe! Mas que importa isso?!
- Tenho sentido?! Como assim? Sinto-me bem. É isso? Não entendi o sentido da sua pergunta.
- Mas não lamente. Sinta-se bem. É isso que importa!
- Sim, para si. Já eu não penso assim.
- Mas que importa isso?
- Tenho-me sentido doente, sabe?
- Ultimamente tem-se sentido doente? Engraçado! Eu não...
- Mas vai morrer, sabia?
- Não tenho medo da morte. Quem sabe, um dia...
- Sim, quem sabe! Mas que importa isso?!
- Sim, que importa isso!
o imperador ordenou
Os peritos em engenharia abandonam por agora o espaço. Sisudos, de pasta na mão esquerda e cigarro na direita."Controla os homens!", ouve ao fundo das escadas.
Sente-se perturbado e anseia languidamente o segundo e o outro que lhe segue, dizendo "eu sou o cavalo. Sou uma multidão perante mim. Não controlo mais os homens". Agradece-o compondo vénias sucessivas. A mão acompanha o movimento das ancas ossudas e como quem não tem cães caça com gatos imprime o batuque do seu som fúnebre na folha de papel. A casa não recebe mais trombones intrometidos. Os azulejos da casa de banho estão imaculados. Já não lhe sugam o sangue do cu, sobretudo quando o sentido não precisa de se materializar para se tornar sentido. Existe por si só.
"Aquele que nos pariu aos dois parece estar a chamar-nos, dançando ao sabor do vento contrabalançado por um samba ainda verde que lhe roça os pés. Ignoro o seu bailado. A máquina fotográfica não funciona mais. O foco de luz está desamparado", devaneia. E então a barragem deixa de ser nítida e a realidade ascende a uma posição sombria, do alto do edifício do entreposto, reclamando o direito à dignidade humana. A sua irmã consentia. Ele não. Não crê na realidade, no movimento ritmado que sente nas órbitas doridas enquanto retorna a um estado mínimo de lucidez. Cansou-se de pensar. Lagartas gordas tocam flauta numa orquestra ao virar da esquina. Sim, porque pode. Porque ele próprio é uma lagarta. Ou uma flauta. Ou a evolução que cresce e não receia tocar qualquer instrumento. Mas, por outro lado, concentrar-se significa ter de acordar e apreender que o céu e o universo não se tocam, tamanha é a arrogância de ambos. Como não existe sozinho (por isso a ideia de Deus lhe parece absurda) e porque a existência não se conforma com a ideia de unidade, começa a dar-se o colapso. A rede de relações está já amplificada ao máximo. A dimensão espartilhada do ser que nele habita. Budismo. Não tão pouco.
Ao ver-se naquele estado faz um escrutínio da sua própria morte e quase vira defunto. A criação, enquanto conceito e expressão de volúpia, sugere o feito de nos encontrarmos naquilo que criamos, distanciando-nos de nós próprios e entrando numa espécie de transe psíquico, descobrindo que afinal não somos o que julgáramos ser e que somos muitos mais a tocar o mesmo som. Somos a nossa própria criação e o corpo e a mente enquanto criações maiores.
Mas uma salvação valida a morte de outro. E de outro ainda (a dele) a primeira pouco importa. Logo, é como se não existisse. Não exerce mais poder sobre ele. Não o governa. Não dita mais as regras e o esperneio vai terminando lentamente. Cobre-se com uma manta porque está frio e a casa não aquece porque as portas e as janelas estão num constante abre e fecha por causa dos engenheiros que entram e saem todas as vezes que precisam de fumar um cigarro. A confiança que a uns os leva a querer atravessar o mundo, essa ele não a tem. Nunca a teve. E debaixo da manta as suas mãos vacilam. E acatando a ordem do imperador, masturba-se.
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