"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

terça-feira, novembro 23, 2010

«Poderemos dizer que a cidade é tão aborrecida que tem horários para cada som. Numa cidade divertida um cego nunca saberia as horas exactas. Mas porque a cidade não é divertida: ele sabe.»

Gonçalo M. Tavares, in "O senhor Eliot e as conferências" caminho, 2010

A cidade do fumo

7

O cemitério é extenso demais, limpo demais, público demais. Por toda a cidade, licenciados em empreendorismo funerário, padres encarregados de vender a morte, produtores de tabaco norte-americanos exploram este negócio lucrativo à nascença. Sandrinho dorme no cemitério com a mulher, abrigado numa tenda improvisada de lençóis e canas de bambu. Às vezes, quando chove, pernoitam num colchão resignado na fábrica de cartão canelado instalada na Rua Leite de Vasconcelos. A empresa abriu falência no ano passado. Consta que o director fugiu para o estrangeiro sobrecarregado com dois quilos de cocaína e um álbum de fotografias de três gerações mafiosas. Sandrinho trabalhava na fábrica. Produzia cerca de uma tonelada de cartão por dia e, em troca, ora recebia três litros de leite e uma almofada de penas de ganso ora cinco euros e dois croissants belgas com queijo fundido e mel.
     Existem sessenta de seis Sandrinhos espalhados pela cidade. Muitos deles tocam agora trompete na marginal, pregando sustos aos transeuntes que passam de telemóvel na mão, lendo as suas contas bancárias on-line e escarafunchando sites de compra e venda de ouro.
     Neste preciso momento, a mulher de Sandrinho dá à luz em pleno cemitério. O ritual de cerimónia invoca a leitura de umas quantas orações ritmadas por um tambor eléctrico momentos antes da contracção final. E o nascimento dá-se da forma mais incólume, num espaço que relembra constantemente a força da extinção humana. Sandrinho já é pai.

segunda-feira, novembro 22, 2010

Shunnoz e "O cu da poesia"

"O nome artístico é o nome nato. Shunnoz Fiel dos Santos. E pensólogo. (...) Eu tenho seguido a carreira de sofredor profissional. E também sou um dos adeptos da pobreza clássica. Eu ainda vejo o sangue do parto quando pego naquelas folhas. Que foi um parto difícil. Ele foi recusado pela sociedade. Ele foi recusado pelos pensadores angolanos. Porque ele falava do cu. Porque o título era "O cu na poesia". E o povo olhou para o título, leu o título e ficou triste. «Porquê o cu com tantas coisas para falar?». Um grande crítico literário (que não vou citar o nome) reconhecido no país internacionalmente foi ele que leio o livro e criticou e disse «o senhor não tem ética!». E eu agora pergunto-me: será que o cu não nos pertence? Será que quando nos cagamos, quando nós defecamos, quando o nosso cu entra em comunicação com a vida, quando o nosso cu entra em diálogo com a vida, nós não falamos? Será que a verdade que está no livro não é verdade? Não é uma filha da realidade? Que CÁ, em Angola, não se consegue lançar um livro que fala da vida como ela é? Porque hoje criaram-se os mitos. O mito da dor. O mito do amor. O mito da caridade? As pessoas acreditam que essas todas palavras estão na necrologia? E que elas já não têm força dentro do homem? Mas são elas dão a vida ao homem. E "O cu da poesia", este triste livro que nasceu de um acto alegre, doloroso, ele traz a mensagem do cu porque em Angola não se sobrevive sem se beijar o cu de ninguém. Como é que tu vives sem beijar o cu a ninguém? Explica-me. Eu olho para a câmara e nem a câmara tem resposta! Como é que tu vais viver e sobreviver sem beijar o cu, se não tiveres um tio ministro que beijas no cu, tu não consegues emprego. E logo a seguir optas pelo vandalismo. Ou tornas-te num caçador de telemóvel. Num caçador de fio de ouro nas ruas. Olha a raspadinha da sorte. É isso. "O cu da poesia" fala sobre isso. O povo agora acredita mais na sorte. De tanto beijarem cus, já ninguém quer estudar. Já ninguém quer arranjar emprego. Já ninguém quer fazer algo decente. Inventaram sortes. E hoje todos vivemos a voar atrás da sorte. Os jogos passam na televisão, todo o povo junta dinheiro.. Sei lá até já esqueci o número de pessoas, porque tantas nascem todos os dias e morrem. E tantas estão aqui e não conseguem viver. Eu já esqueci o número de pessoas mas eu sei que toda a Angola tem que juntar dinheiro para uma família ser feliz. E "O cu da poesia" fala sobre isso. E agora irmãos (e eu falo por mim) eu quero viver, eu vou beijar o cu de quem? Eu não tenho tio ministro! Meu Deus.. Eu vou beijar o cu de quem? Eu vou beijar o cu do sobrinho para me ligar ao cu do tio? Para dar o beijo e depois recusar-me? Dizer que os meus lábios não eram doces? Porque a minha árvore geneológica é oposta? Será que eu não sou filho do útero de Angola? Isso é a pensologia na sua essência, amados. Ela não segue padrões éticos ou morais. Porque ela é livre. Livre como a vida é. E a ética e a moral têm matado o homem. E eu sei disso, já tenho visto as armas. Ninguém me vai mentir mais. Ainda há dias o civismo me apontou uma arma. E eu acreditei que o civismo tinha a solução para a minha vida. E então eu vou ser sincero (...). Eu vou activar a minha vida instintiva na totalidade. Eu vou desprezar o racíocinio e serei livre de vez. Eu vou à selva. E na selva hei-de viver feliz. Não consigo estar com o social. O eu social não existe para mim. Porque quanto mais tento tornar-me social, menos humano torno-me. E então prefiro entornar isso ao esquecimento. Outra pergunta, por amor à vida!"

Do documentário musical "É dreda ser angolano"

a incerteza (filha da puta)

Quando se achou vento e seguiu, Cândida corou as faces lisas. Há cerca de dois dias, cruzou-se com o Luís na rua. Sorriu-lhe, embaraçada, mesmo tendo os lábios dormentes. “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando viu o Luís, Cândida corou com o vento. Sorriu, com os lábios dormentes e “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando a Cândida corou de vergonha, sorriu. E o vento levou-a. Coitada. Mesmo à beira do Luís.
O Luís, por outro lado, corou as faces tremidas e baixou a cabeça, embaraçado. “Claro!”, pensou ele. “Não me viu de certeza...”. Cruzaram-se na rua. A Cândida e o Luís. Coraram e sorriram e pensaram “Claro!”, “Não me viu de certeza...”

Josué

O antigo homem dos sete ofícios
Muito corado e envergonhado
Carregava aos ombros demasiados suplícios
Fúnebres trajes abandonados.

Ao Josué deram liberdade e poder de escolha,
Com consciência fonológica,
Mas tudo à sua volta pedia a recolha
Da sucumbida experiência analógica.

Um, dois, três degraus
Subidos pelo Josué
Comidos por leões de crateras
Ao longo do torso torto morto.
Da poesia dos astros incólumes.
Do rugido do rei roxo
Que é sagrado purpúreo púlpito.

“Quem sou eu?” – gritou o Josué em cima de tábua instável.

A não-resposta disse que sim
ao homem dos sete ofícios
iludido pelo doutor petório
e pelo sentido notório
da existência dos anjos analfabetos.

“Suplícios, suplícios!” – gritou o Josué criando alarido.

“Deram-me tantos suplícios!” – chorou o Josué numa cena comovente.

dipsomaníaco

vi aquele corpo letárgico
dar voz a um títere sôfrego, ascético
e sulquei-lhe a alma saqueada.

nefando.

ao meditar a excrescência do folículo
estranhei o seu candor crispado
e assente no céu como um safado,
ele - o dipsomaníaco - foi apedrejado
e no cume do montículo dilapidado.

nefando.

andava enfadado com o líquido desfeito.
decomposto pela ociosidade. afeito.
e assim que expeliu o ar, despeito
subiu os degraus do cadafalso. malfeito.

nefando.

e assim foi enforcado, insípido
perdido num pranto dantesco.
que desmedido sacrilégio frígido
fez sucumbir o nosso dipsomaníaco burlesco

Relógios falantes

Nos relógios falantes encontram-se dialogando o relógio das Chagas e o de Belas, ambos a consertar no serralheiro. As suas considerações constituem também uma censura aos costumes do tempo, dos validos, da moda, etc. Por fim, o tom é mais grave, e fala-se na velhice e na morte.
 
Relógio da Aldeia. Senhor Relógio da Cidade, badalemos limpo, que as paredes ouvem, e as de campanários nunca foram de segredo.
Relógio da Cidade. Olhai ora cá: se o estar sempre à dependura me não me há-de valer para tirar o medo de não morrer enforcado, melhor é acabar logo por ua vez!
R.A. Cal-te, que te fundirão!
R.C. Pois que importa? Farão de mim campainhas, e então lhes direi por cem bocas o que não querem ouvir de ua. Par Deus! mas que me fundam, mas que me confundam, eu hei-de tanger sempre a verdade!
R.A. Por isso tu cá vens por mentiroso. Diz que a verdade, na língua dos que a não falam, e como a água do Chafariz de El-Rei, que, por correr por canos de enxôfar, sempre faz mal ao fígado.
R.C. Fígados há aí tão danados, que da água pura e clara fazem peçonha.
R.A. E tu, amigo, que ganhas em desenganar o mundo, que se não quer desenganar? O sumo grau da sandice é perder-se um pelo ganho do outro.
R.C. É nobreza de coração, e ainda proximidade, não deixar perseverar a ninguém no seu engano.
 
In Relógios Falantes, de D. Francisco Manuel de Melo, escritos de 1654 a 1657.

sexta-feira, novembro 19, 2010

A cidade de fumo

6

Os pequenos canais que atravessam os meandros desta cidade lembram uma versão empobrecida de Veneza e foi neles que nasceu a lenda da sereia dos sete canais. Quem mo disse foi o senhor do quarto ao lado que passou a noite a ver o canal das televendas e a fazer encomendas desnecessárias por telefone. Decido fazer-lhe uma visita de circunstância. Sentado no banco junto ao fogão, vejo uma quantidade absurda de comprimidos, separados por cores, em cima da mesa de cabeceira, um monte de livros de medicina para principiantes em cima de uma cadeira e algumas seringas varridas a um canto. «O velho é hipocondríaco!».  Enquanto cozinha a sua cachupa conta-me que a ponte, de braços cruzados, consentia impávida o fingimento da mulher sereia quando cirandava pelos canais dédalos que lhe castravam o anseio de chegar ao mundo. Mas que amaldiçoado âmago poento daquela mulher, fantasma de ouro, carnaval de persiana, penso. «Era meretriz de ideias inconstantes, ora convulsas ora vagantes, levada pela força da saudação muda. O vazio tornara-se um fardo demasiado pesado para carregar às costas em dias de chuva: caiu aos pés do mar e enxugou nele as lágrimas, pois era a ele que pertenciam», conta-me. Diz-se que em todos os finais de tarde junto à ponte manchava as calças de fina seda italiana com o suco fresco que escorria das talhadas de melancia que roubava no mercado. E quando se punha noite, a longa cabeleira rubro acre aconchegava-lhe as clavículas ossudas e louvava as ondas do mar que se esquivam umas das outras eternamente. E era com a força da espuma cor de salmão que experimentava lançar redes de pesca ao mar. Mas infelizmente as redes não apanhavam senão torrões de areia, conchas partidas e beatas. Os seus longos suspiros apiedavam todos os homens da cidade, do peixeiro ao ourives, do mercenário ao sapateiro. Desde sempre que a ideia de uma mulher em apuros é bem mais estimulante que a ideia de uma mulher em liberdade.

A cidade de fumo

5
 

Caminho sobre nuvens de fumo à procura de um quarto para passar a noite. Uma vagabunda vestida de branco, interiormente camuflada, pede esmola. Aproveito-me da sua condição e em troca de uns trocos pergunto-lhe onde fica a pensão mais próxima. Levanta-se e diz-me para segui-la. Só agora reparo no olho de vidro escondido por detrás de uma mecha de cabelo sujo. Alcanço os seus passos mais adiante e reviro-me quando me refiro ao seu rabo espetado, tão bem torneado por umas calças de linho. «Chegámos!», diz-me. A pensão ficava naquela rua, umas portas adiante. Calaram-se todos. Os velhos em fila indiana a fumar charutos pele de vaca, com os capachinhos tortos no varadim da casa verde pálido e alguns mosaicos ocre a circundá-la. «Queres entrar?» pergunto e a rapariga que me disse chamar-se Nicole logo se atravessa à minha frente, requisitando de imediato um dos raros quartos vagos ao dono da hospedaria.

Ofereço um cigarro àquela vagabunda que procura carícias nas almofadas da cama. Aceita-o sem retribuir o gesto e começo a engendrar uma forma de convencê-la a passar a noite comigo. Desaperto um botão da camisa. Digo-lhe que é bonita e ainda minto acerca da minha idade. Em desespero coço os tomates. Parece que nada a faz mover, nem mesmo o sismo que abalou Évora inteira. Começo a despir-me, como quem não quer a coisa e encontro no bolso das calças o pacote de pó que roubei ao endomingado que olhava incrédulo para lá da janela do comboio. «Queres cheirar?»

A madrugada denunciava o cansaço e por instantes imagino a expressão aborígene de Avaí quando souber que lhe fodi a filha. Regozijo-me fumando um cigarro à janela, esperando a hora de Nicole acordar para poder finalmente enxotá-la do meu quarto.

quinta-feira, novembro 18, 2010

I ACTO - Amanhã será..

Personagens (Por ordem de entrada em cena)
ELA
ELE
O HOMEM DOS BOLSOS OCOS

No centro da sala, que descai ligeiramente para a direita, está uma mesa quadrada, simples, castanho-âmbar. Não existem quadros pendurados nas paredes, a televisão está ligada à corrente, mas não tem sinal. O rádio está avariado faz meses. Ou então precisa de pilhas. Que importa isso.
Ouve-se uma conversa em sussurro. Iluminação do palco. Amarela-alaranjada. Ela e ele estão de pé, frente-a-frente, no canto direito do palco, ele de costas para o público. Ela chora, quase compulsivamente, embriagada pela dor, contorcendo-se e movendo-se vagarosamente. Dão as mãos e num acto trôpego e cavalgante de ventos vindos do Sul abraçam-se.



ELA (acabrunhada)
Amas-me?

ELE
Já te disse que sim. Tens de parar de perguntar isso. Começa a ser irritante.

ELA
Sabes, hoje vi o sol nascer por detrás da cómoda que atravanca a porta de dentro do quintal. Quando éramos mais novos, fazíamos sempre isso. Esgueirávamo-nos da atenção dos vizinhos, cobríamo-nos com o lençol velho da Tia Albertina e acompanhávamos o passo lento do Sol, dentro do olhar um do outro. Lembras-te?

ELE (desinteressado)
Sim, lembro. Ainda há leite no frigorífico?

ELA
Acho que sim. Vou ver.

O telefone de casa começa a tocar. Estridente. Ela sai para comprar leite e ele pega no telefone, mas hesita em puxá-lo ao ouvido. Ao quinto toque, atende.

ELE
Estou sim? Sim, muito obrigado. Sim... é o próprio. Não tem problema nenhum, não, não interrompeu o almoço. Sim, já almocei, não se preocupe. Mas diga, diga,...

O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Espero que não me leve mal mas sabe, há tempos pus-me a pensar como será ser-se peludo, mas assim mesmo muito peludo. Essas pessoas, deixadas à sombra de Deus, coitadas, devem suar imenso. Até de noite. Consegue imaginar tanto desconforto? Bem, adiante.

ELE
Sim, adiante.


O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Por vezes tenho tendência a falar pelos cotovelos... A minha mãezinha dizia que... raios lá estou eu outra vez! Ora, muito bem, vou directo ao assunto: o senhor é peludo?

ELE
Mas que raio?! Tenho alguns pêlos, sim. Mas não são muitos. Alguns, mais na zona púbica.

O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Tenho a solução ideal para si. Um tratamento 100% natural, pode confiar no que digo, que resolve em apenas, repito, em apenas, duas semanas o problema dos pêlos.

ELE
De facto, deve ser uma sensação agradável não ter pêlos entranhados na pele. E quanto custa esse tratamento?


O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Para si, 100 euros certinhos. Que me diz? Aliciado?

ELE
Bastante. Pago por multibanco ainda hoje, pode ser? Já tenho o NIB anotado, sim, não se preocupe. E quando recebo o produto?

O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Amanhã por volta da hora do almoço. Combinado?

ELE
Tudo certo então. Amanhã será...

terça-feira, novembro 16, 2010

o chá da vulva

que linguagem sôfrega da mão
nos mamilos brancos
em corpo de leite derramados
e que deleite,
e que convulsão,
ouvir o gemido sagaz
ao ouvido da vulva cálida,
tão voraz
que anseia pálida
mel ejaculado no regaço
e que opulentas cuecas
junto à perna da cama
em sono profundo
cansadas

As garças

O jardim parecia envolto num nevoeiro húmido que se entranhava perversamente na pele e encobria os passos ociosos de um gato persa de pêlo azul-cobalto. Por momentos, a cauda serpenteante do animal parecia tomar a forma de um pénis astuto, sacudindo lentamente o fumo que cinzelava o rosto das duas amantes.
Escondido atrás de um biombo de cor acre, desenhado à mão, Kabir sentia uma inebriante sensação de prazer atravessar-lhe o corpo ao mirar as duas mulheres que consumiam ópio numa exuberante chaise-longue verde abacate. Os seus lábios juntavam-se em beijos sôfregos e prolongados. Dera-lhes o nome de Langa e Lien.
Começava a sentir a libido brotar dentro de si ao ver as pernas de Langa, reveladas por um diáfano quimono de seda pérola, abrirem-se delicadamente como as asas de uma garça, enquanto Lien lhe lambia demoradamente os seios redondos. O jovem mirava atento, acompanhando o movimento da mão que descia pelo ventre liso de Langa, até alcançar o clítoris. E nisto, o samba dos dedos tomou balanço, ora de cima para baixo, ora num movimento circular, apoiando-se sobre a vulva carnuda e humedecida.
Gradualmente, os néctares vaginais levemente aromatizados a citrinos intensificaram-se, foram pronunciadas palavras de volúpia, os dedos molhados de saliva escorregavam à volta dos mamilos, que respondiam enrijecendo. Um desejo carnal exasperante apoderou-se de Kabir quando Langa começou roçar o curto cabelo âmbar entre as coxas de Lien, arranhando-lhe os lábios e provocando-lhe vagas de prazer até que a tensão rebentou em mil gemidos e suspiros, conduzindo ao cume do prazer.
Kabir despertou num impulso, asfixiado. Abriu os olhos e viu-se de braços abertos, com os dedos cravados nos lençóis de cetim e as pontas dos pés curvadas. Os testículos elevaram-se, anunciando a eminência do orgasmo e o corpo, atormentado por uma pressão violenta, libertou-se numa explosão íntima de prazer. Lentamente a serenidade impôs-se e os músculos do corpo baixaram a guarda. O alívio era agora pleno.

terça-feira, novembro 09, 2010

autobiografia

escrevi uns versos
no outro dia
mas talvez por rebeldia
ou débil anatomia
os versos não rimaram.

estaria assim tão vazia,
sem ossos e em agonia,
que nem uma simples palavra
do ventre me saia?

então de frente para o púlpito implorei:
“devolvam-me a anestesia,
o sexo, a ousadia
pois anseio o dia em que direi:
deitei-me com a poesia
ajoelhada de costas
que nem uma vadia.
aqui tens a minha autobiografia”

«Sê verdadeiro»

Era uma tarde de Fevereiro
Sem açucar no açucareiro
Pescavam tantas toneladas de arreiro
Chiça! Que mau cheiro alcoviteiro

Suplicou ao santo padroeiro
Para que a chuva não trouxesse o nateiro
E não lhe afogasse o pobre do carneiro
Que pasta livre as relvas do carreiro

Mas o santo padroeiro
arrieiro arteiro
ignorava-o de modo grosseiro
Pois era filho de terceiro
Pobre inútil, tornado rafeiro

E o homem dizia: «sou filho de um vendedor careiro,
Que trabalhava aos sábados no Barreiro,
Dando milho à boca do touro vareiro
E chuto tão pouco dinheiro
Por isso assassinei meu irmão, o herdeiro
Não me lembro se com uma faca ou um tiro certeiro
E ao querer fazer de mim guerreiro
Tornei-me de mim prisineiro
Só me resta pegar no isqueiro,
Algures no bolso, solteiro
E com um toque gesticular ligeiro
Acender o cigarro de um marinheiro
Que um dia me disse «sê verdadeiro»

Maria

Da esquerda para a direita: a minha mãe, a minha tia, a minha avó, o meu avô e o meu pai. À frente, as minhas primas que viraram costas no momento do flash. Gosto, especialmente, da pose da minha mãe, o cabelo castanho a roçar-lhe os ombros e as mãos dadas apoiadas na barriga metida num vestido muito largo cor de salmão.
No meio, como já disse, estava a minha avó, com as duas mãos assentes na cintura, impávida e inexpressiva, talvez porque quem tirava a foto era o meu tio Mário. Lembro-me claramente da casa onde morava quando morreu. A porta verde, a maçaneta dourada e uma longa escadaria até lá acima, e o espelho comprido e o bengaleiro. Na cozinha, fascinava-me ver todas aquelas panelas amolgadas, arrumadas umas em cima das outras, num móvel antigo, e imediatamente me vêem à cabeça os estendidos, polvilhados com açúcar e canela, que costumava fazer quando íamos ao Rossio.
Gosto de imaginar a minha avó a dar uma tareia ao vizinho com a vassoura. O rapaz pô-la em tribunal, claro, e ela apregoava que se o apanhasse outra vez que lhe dava uma tareia ainda maior. Não vejo os mortos tão claramente como vejo a minha avó e logo me chega ao nariz o cheiro da laca que costumava comprar mais barata na galinha gorda. Todas as manhãs, empestava os cabelos pintados de castanho e o penteado lá se mantinha firme, preparado para o reboliço do seu dia. Já tinha enviuvado quando aprendeu a ler e a escrever, carregando com tanto orgulho o dossier da escola, as canetas azuis e vermelhas, as letras do abecedário que escrevia repetindo.
Houve um dia em que a minha mãe recebeu uma chamada do meu avô. Pela voz parecia bastante assustado. Contou que nessa noite a minha avó tinha saído de casa, em camisa de dormir. Com a idade, a minha avó dera em sonâmbula e isso faz-me crer que o sonambulismo é, de alguma maneira, genético.

- Estou sim? Fala da farmácia? – perguntaram do outro lado da linha.

- Não, não. A senhora deve ter-se enganado no número – respondeu a minha avó, desligando o telefone.

(o telefone tocou outra vez)

- Estou? Fala da farmácia? – perguntaram de novo, ao que a minha avó respondeu: - Não, minha senhora, isto aqui não é nenhuma farmácia, mas o que não falta aqui são remédios – e de
sligou.

Ó diacho!

- Então mas conta-me lá.. deste com aquilo? O marceneiro tinha avisado que era bastante difícil chegar lá.

- Qu’ideia!

- Ideia? Qual ideia? Talvez não tinhas nada em que pensar e o...

- Por mim... Duas cabeças nas nuvens! A olhar para baixo. Presas à força por sombras esquizofrénicas e a menina fascinada a apontar para cima.

- Hum?!

- Hum?

- Nada, esquece.

segunda-feira, novembro 08, 2010

Sexo Nosso que estais na Terra,
santificado seja o vosso santo copulatório,
venha a nós clítoris o vosso êxtase,
seja feita a vossa vontade
assim no espaço como no tempo.

A penetração nossa de cada dia nos daí hoje,
perdoai-nos os órgãos retesados,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem pisado os mamilos,
e deixai-nos cair em tentação

(no inferno na Terra)

Mas livrai-nos do mal.

Ámen.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Halloween - Dia de um dread de 16 anos

Pais falhados, amigos pedrados
Não vejo nenhuma maneira de sair deste buraco
Miséria, crime, lixo, bicho
Niggas a roubarem para alimentarem vícios
Sai da frente, deixa-me passar
Eu sou velho delinquente eu não vacilo em disparar
Não
tenho planos, sou vândalo suburbano
Violência, delinquência são o meu quotidiano
Hey, bacano, não entres no meu bairro
O último pagou caro, foi esfaqueado por causa dum cigarro
A velha, Maria Imaculada, Senhora respeitada
Foi apanhada levada, julgada
Tinha meio quilo de branca em casa debaixo da cama
De cana, fecharam a paróquia do Padre Góis
Cambada de bois, baptizavam meninos com espermatozóides
Uh, António da Rua Aguiar 'tá tão mudado
Vi-o sentado no Parque Eduardo Sétimo, no Sábado passado
Coitado, o rapaz 'tá tão magro
(A dar o rabo p'ra comprar cavalo)
(A dar o rabo p'ra comprar cavalo)
(A dar o rabo p'ra comprar cavalo)
(A dar o rabo p'ra comprar cavalo)
É um bonito ofício
Tão digno como ser Primeiro Ministro
Não tens a gravata, não tens o terno
Mas tens o cu para teu governo
Credo, eu sou um cidadão do Inferno
Á esquerda um preto que me quer assaltar
Á direita um branco que me quer explorar
Sempre enfrentado os outros, meio pedrado, meio ciente
Andando pelas ruas provocando toda a gente
Ao virar da esquina aparece a polícia
PSP, Porcos Seguem Pretos, vieram-me dizer bom dia
(- Faz favor de encostar à parede, tens alguma coisa que te comprometa, nós não te dissemos já que não te queríamos ver aqui? És tu que és o Halloween?)
O meu nome é Ali Bábá, tem calma meu
Só 'tou á espera da tua mãe mas ela não apareceu
(- Oh Jorge, este sacana é engraçado)
Começaram-me a espancar, a dar p'ra matar
Eu puxei dum cigarro, comecei a fumar
Pistola na minha cara, cara bem inchada
Algemaram-me à chapada e levaram-me para a esquadra
Eu já tinha jantado mas na esquadra serviram-me mais um prato
Comi tanto naquela noite que fiquei enjoado
Bófia agarrou na folha do meu cadastro
Mais porca que o porco do meu padrasto
Idade, 16 anos de marginalidade
Acusação, ladrão, deram-me ordem de prisão
(É a décima vez que a gente se vê
Preto do caralho vais dormir no xadrez)
Xadrez para mim é uma suíte
Paredes com cimento na minha casa não existe, é triste
Puseram-me na cela dum travesti magricela
Tuga, agarrado mais conhecido por Cinderela
Pediu-me um cigarro disse que morava em Odivelas
Era
um homem inocente, que foi apanhado numa ruela
(A dar o rabo p'ra comprar cavalo)
(A dar o rabo p'ra comprar cavalo)
(A dar o rabo p'ra comprar cavalo)
(A dar o rabo p'ra comprar cavalo)

Público, público na esquadra era muito
Sempre pensei que era um gajo fodido mas não era o único
Ao lado de tanto marginal, eu era um miúdo
Putas, drogados, ladrões, chulos
Tanta escumalha, tantos gandulos
(- Hey senhor guarda vocês não podem prender putos
- Shh! Respeito pela farda, faz pouco barulho)
Eu conheço este porco, ele chama-se Varela
Maldito porco da PSP de Odivelas
Uma vez viu-me no parque a fumar a minha wella
Apagou-me o charro, fodeu-me uma costela
Ah, Varela, felino desgraçado
Se apanho o teu focinho eu mando-te com o caralho
O porco do teu filho anda na melhor faculdade
Com o dinheiro que rouba os dealers na cidade
O porco tem um bigode que é sua vaidade
Uma moto quatro, e duas casas no Algarve
O porco tem um trauma que é segredo
A sua ex-mulher fugiu com um ganda preto
(- Ahahah
- Pouco barulho caralho! Deves 'tar a querer levar mais?
- Então senhor guarda? Ahn... Deus me livre, eu calo-me já)
Três e meia finalmente saí da esquadra
Prenderam tanta gente que a cela ficou lotada
Tiraram os meus dados e mandaram-me para casa
Cravei uns trocos, telefonei à minha chavala
Mas para variar, a bitch não 'tava
Cabra de merda roda o bairro inteiro
Mas eu não a largo, a puta tem dinheiro
Cheguei a casa a porta 'tava arrombada
Vidros partidos na entrada, tinha sido assaltada
Desgraçado do meu primo, maior carocho da área
Tinha-me roubado um vídeo para comprar dose diária
Abri o frigorífico, nada p'ra beber
Virei a cozinha, nada p'ra comer
Deitei-me na cama comecei a tremer
Quatro da manhã não consigo adormecer
Olha no fundo do quarto a insónia
Porque é que não param de rir-se de mim!? Paranóia!
Não aguento nigga, a agonia é muito grande
Preciso de qualquer merda para mandar para o sangue
Gás ou gasolina dá-me que eu fumo
Alguém me faz um pica ou eu corto os pulsos, eu juro
Ninguém me ouve por mais que faça barulho
De repente, pareceu-me ouvir gente
Vozes a chamarem-me por mim na minha mente
Deve ser da fome, eu devo estar doente
Preciso de ajuda, por sinal, urgentemente
(Halloween)
(Halloween)
(Halloween)
(Ahahahah)
Afinal eram os meus niggas a baterem á porta
(- Então? Como é que é bruxa?
- Nu bai bruxa 'am busca droga?)
Bora, puta da insónia que se foda
Fomos comprar droga na esquina vinte e quatro
Esquina controlada por um dealer cadastrado
Dealer conhecido como Dino Diacho
Cara marcada com a cicatriz duma facada
Óculos escuros, fato, gravata
Charuto cubano, mala à diplomata
O índividuo tinha sido preso mais de vinte vezes
'Tava cá fora não fazia dois meses
Um Cabo-Verdiano escuro só andava de Mercedes
Entramos no bairro, gangsters em todo o lado
Calma mano só viemos comprar um charro
Cabo-Verdiano fez um sinal
Niggas ficaram calmos
Ofereceu-nos bebida, fomos testar o produto
No carro, damas bonitas, vinho do mais caro
'Tá-se bem nigga, hoje temos o dia ganho
Começámos a fumar, beber sem parar
Eu 'tava de jejum comecei a vomitar
Tiraram-me do carro ao pontapé e à chapada
Fingi que desmaiei mas não me serviu de nada
Nós eramos três, eles eram mais de vinte
Pontapés na minha cabeça pareciam dinamites
Consegui fugir mas esquecime do ...
Voltei para trás (Rapaz nhos é nha droga)
Desgraçados, cercaram-me deram-me um enxerto de porrada
Meus niggas fugiram, deixaram-me deitado na estrada
Cara rebentada, roupa rasgada
Ganda pedrada, cinco da madrugada
Deitado no vómito sem guito, sem angala
De repente sinto um flash
(E a luz se apaga, e baza, e baza, e baza...)
Fiquei desmaiado até uma velha me acordar
(Ai não te mexas filho que eu já chamei uma ambulância)
Ambulância? Afanei-lhe o fio, tirei-lhe a aliança
Cacei-lhe a carteira e pus-me à distância
Vizinhos ouviram gritos chamaram a policia
Com a jarda que eu tinha nem que chamassem a CIA
Nas costas, levar uma facada, nem sentia
Qualquer merda, mudara a minha batida cardíaca
O coração parava, o coração explodia
Nem o Obikwelu me apanhava da maneira que eu corria
Cheguei a Santo António já era de dia
Não há ninguém que goste de mim neste bairro
Parece que todo o mundo me quer mandar abaixo
Nigga 'tou no chão daqui já não caio
Os cotas do bairro, todos olham-me de lado
(Então rapaz? Quando é que arranjas um trabalho?)
Pergunta à tua mulher se ela precisa dum caralho
Tinha tantos amigos, fazíamos merda todos os dias
Um foi morto os outros foram para Caxias
Ás vezes fico a pensar, há-de chegar o meu dia
Mas não penso muito, a cabeça 'tá fodida
Vinte e quatro horas por dia com uma faca no bolso
Girando de esquina à esquina à procura do almoço
A ver se um gajo orienta guita pa apanhar moca
Se um gajo ca orienta, ta fica dodo
Já faz um mês e tal que não vou às aulas
Mais uma vez se calhar chumbei por faltas
Nunca fui burro nem um grande baldas
Os stores é que nunca foram com a minha cara
Uns diziam bem alto que eu lhes queria gozar
Meninos do SASE ponham o dedo no ar
Todos riam-se mas riam baixinho
Sabiam que lá fora levavam no focinho
Havia uma miúda chamada Bianca
Bianca era minha paixão de infância
Uma miúda mulata quase branca
Corria atrás dela desde criança
Mas ela não quis namorar comigo nunca
Diz que nunca viu um gajo tão chato, tão chunga
Vai Bianca se não gostas da minha roupa
A minha mãe não coze, o meu padrasto não compra
Saí daqui que tu cheiras mal da boca
Tu nem és bonita tu não és boa
Vou mas é largar a escola, montar a minha banca
Comprar umas roupas, fumar muita ganza
Vou comprar um Mercedes como aquele que o Dino manda
Depois vou voltar à escola, vou comer a Bianca
Dói-me as costas, a moca foi embora
A dor vai e volta, ajuda-me brotha
Foda-se
('Tou farto desta vida, que safoda.
Safoda)
('Tou farto desta vida, que safoda.
Safoda)
('Tou farto desta vida, que safoda.
Safoda)
('Tou farto desta vida, que safoda.
Safoda)
Um dia destes ainda pego numa pistola
Dou a banhada grande e vou-me embora
Vou para um lugar onde ninguém me conheça
Um lugar bem longe da minha cabeça
Eu tenho medo que ninguém se lembre de mim
Mas tenho mais medo, boy, de ficar aqui
Assim é o Karma, da vida de um malandro
Eu vou andando, vou-me arrastando
As minhas pestanas tão pesadas
Pesam uma tonelada
As minhas pernas tão cansadas
Quem me dera chegar a casa
Não sei se cheguei, acho que fiquei por ali
Deitei-me num banco de jardim e adormeci

Mais cadê seu coco

Senhora Coca mora num país tropical. Lá, o calor é tanto que derrete os que se atrevem a deixar crescer demais seus bigodes.
Lá, existem fruteiras na areia das praias.
Porque quando se encontrou pela primeira vez com a Vida, sentiu-se realmente uma fruta exótica que faz salivar a boca do rosto que jaz no pé da fruteira.
Mais que isso. Foi nessa fruteira que nasceu o amor entre a Srª. Coca e o Sr. Coco.
Porque assim que os fios ásperos castanhos um do outro se tocaram pela primeira vez sentiram um arrepio na casca.
Mas com o passar do tempo o amor do Sr. Coco foi-se esmorecendo. Não conseguia resistir à pele enrugada da Srª. Laranja e ao toque aveludado do Sr. Pêssego.
Chegava constantemente a casa com raspas do Sr. Limão nas sobrancelhas peludas ou com gordura da Srª. Banana entranhada nos buracos da casca dura.
Todos os dias, as frutas mais próximas perguntavam à Sr. Coca:
"Mais cadê Seu Coco?
E sempre que lhe faziam esta pergunta,
não tinha resposta.
O Sr. Coco tornara-se ágil nas suas escapatórias pela fruteira na praia.
Num dia acalorado, o Srº. Coco
chegou perto de sua mulher, sambando...
O cheiro a melancia foi a última gota para a Srª Coca
que não aguentou e despediu-se do
Sr. Coco para sempre.
Agora, sempre que as frutas amigas lhe perguntam:
- Mais cadê Seu Coco?, responde:
- Mais qual Coco? - apontando para o Srº Melão, piscando-lhe o olho.

LINK: http://maiscadeseucoco.blogspot.com/

quinta-feira, novembro 04, 2010

A cidade de fumo

4

Os comboios constituem o único acesso à cidade. Não existem ligações rodoviárias, muito menos fluviais. E enquanto me desloco até ao centro da cidade suspeito da credibilidade dos telejornais quando noticiam estatísticas e estudos comparativos, alertando que 99% das pessoas que entram na cidade já não saem.
Nem uma ovelha parece incomodada com as filas de pessoas que andam encarreiradas pelo percurso de terra batida. Enquanto ando, recuo vinte anos. Ao dia em que fumei pela primeira vez, influenciado pelo meu primo Fernando. Passámos a tarde a enfrascar tequilas com um rapaz magro do qual não me lembro o nome. Dessa noite recordo-me apenas da má disposição que se seguiu àquela cópula maldita, que se tornara longa, irremediavelmente longa, com a senhora de bengala que pintava os lábios de vermelho no canto da sala quando entrámos. À sexta tequilla e o seu olhar malandro tornou-se incrivelmente sedutor. Despachámos o assunto na casa de banho. À saída, parecia que o mundo havia parado. Perdera a virgindade com uma velha perneta que mal consegui foder. Fumei um cigarro que pedi ao Fernando sem saber de que daí a duas semanas estaria desolado com a notícia de que tinha chatos. Nesse dia, comprei o meu primeiro maço de tabaco. Fumei-o todo nessa tarde. Nove anos depois e conheci Avaí, a minha brasileirinha. Cruzei-me com ela a vender guarda-chuvas no meio da estrada e nem o facto de serem feitos de papel me causou estranheza. Infantilmente, comprei-lhe um daqueles artefactos desconexos que ainda hoje guardo na prateleira do armário do quarto. Mas antes decidi acender um cigarro porque me fazia sentir confiante, e a descasca que me deu sobre os malefícios do tabaco levou-me a nunca mais tocar em nenhum. E hoje, dez anos depois, estou prestes a acender outro.
Custa-me a respirar e por pouco que a vontade de fumar não se desvaneceu. Pego no isqueiro que a mulher do comboio me ofereceu há instantes e retiro o que disse sobre o ar denso que tapa as colinas mais altas ao passageiro nº 62, assim que sinto o fumo do cigarro baunilhar-me a traqueia seca. Da estação de comboios à cidade são mais cinco minutos a pé. O passeio pelos terrenos agrários que circundam a cidade é bastante estimulante: as plantas de tabaco ainda verdejantes, os homens com grandes sacas às costas e o balido das ovelhas, cujos excrementos servem de adubo às plantações.
Há quem encare esta cidade como a mais doente do mundo. Há quem se recuse sequer a passar perto. Há quem defenda a extinção do projecto que, há dois anos, determinou o isolamento de todos os fumadores em cidades-protótipo, tendo em consideração as suas necessidades básicas elementares.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Não ressuscita Cristo para crianças doentes
Não aquece o amor nos lençóis das prostitutas.
Não desaba os muros dos fusilamentos.
Não despeja dilúvios no campo das lutas.

Não cega olhos humanos para os conflitos raciais
Não rasga às unhadas o reposteiro da morte.
Não destrói o Templo das segregações Sociais
para edificar em sete dias a angústia de outra sorte...

... A minha revolta
cobarde, sozinha, policiada
- tão inútil como pólen lançado ao vento -

dorme uma raiva incomunicável
à espera de julgamento...

"Libertação", Poemas de Amélia Veiga, 1974, Sá da Bandeira, Angola, página 78