"O nome artístico é o nome nato. Shunnoz Fiel dos Santos. E pensólogo. (...) Eu tenho seguido a carreira de sofredor profissional. E também sou um dos adeptos da pobreza clássica. Eu ainda vejo o sangue do parto quando pego naquelas folhas. Que foi um parto difícil. Ele foi recusado pela sociedade. Ele foi recusado pelos pensadores angolanos. Porque ele falava do cu. Porque o título era "O cu na poesia". E o povo olhou para o título, leu o título e ficou triste. «Porquê o cu com tantas coisas para falar?». Um grande crítico literário (que não vou citar o nome) reconhecido no país internacionalmente foi ele que leio o livro e criticou e disse «o senhor não tem ética!». E eu agora pergunto-me: será que o cu não nos pertence? Será que quando nos cagamos, quando nós defecamos, quando o nosso cu entra em comunicação com a vida, quando o nosso cu entra em diálogo com a vida, nós não falamos? Será que a verdade que está no livro não é verdade? Não é uma filha da realidade? Que CÁ, em Angola, não se consegue lançar um livro que fala da vida como ela é? Porque hoje criaram-se os mitos. O mito da dor. O mito do amor. O mito da caridade? As pessoas acreditam que essas todas palavras estão na necrologia? E que elas já não têm força dentro do homem? Mas são elas dão a vida ao homem. E "O cu da poesia", este triste livro que nasceu de um acto alegre, doloroso, ele traz a mensagem do cu porque em Angola não se sobrevive sem se beijar o cu de ninguém. Como é que tu vives sem beijar o cu a ninguém? Explica-me. Eu olho para a câmara e nem a câmara tem resposta! Como é que tu vais viver e sobreviver sem beijar o cu, se não tiveres um tio ministro que beijas no cu, tu não consegues emprego. E logo a seguir optas pelo vandalismo. Ou tornas-te num caçador de telemóvel. Num caçador de fio de ouro nas ruas. Olha a raspadinha da sorte. É isso. "O cu da poesia" fala sobre isso. O povo agora acredita mais na sorte. De tanto beijarem cus, já ninguém quer estudar. Já ninguém quer arranjar emprego. Já ninguém quer fazer algo decente. Inventaram sortes. E hoje todos vivemos a voar atrás da sorte. Os jogos passam na televisão, todo o povo junta dinheiro.. Sei lá até já esqueci o número de pessoas, porque tantas nascem todos os dias e morrem. E tantas estão aqui e não conseguem viver. Eu já esqueci o número de pessoas mas eu sei que toda a Angola tem que juntar dinheiro para uma família ser feliz. E "O cu da poesia" fala sobre isso. E agora irmãos (e eu falo por mim) eu quero viver, eu vou beijar o cu de quem? Eu não tenho tio ministro! Meu Deus.. Eu vou beijar o cu de quem? Eu vou beijar o cu do sobrinho para me ligar ao cu do tio? Para dar o beijo e depois recusar-me? Dizer que os meus lábios não eram doces? Porque a minha árvore geneológica é oposta? Será que eu não sou filho do útero de Angola? Isso é a pensologia na sua essência, amados. Ela não segue padrões éticos ou morais. Porque ela é livre. Livre como a vida é. E a ética e a moral têm matado o homem. E eu sei disso, já tenho visto as armas. Ninguém me vai mentir mais. Ainda há dias o civismo me apontou uma arma. E eu acreditei que o civismo tinha a solução para a minha vida. E então eu vou ser sincero (...). Eu vou activar a minha vida instintiva na totalidade. Eu vou desprezar o racíocinio e serei livre de vez. Eu vou à selva. E na selva hei-de viver feliz. Não consigo estar com o social. O eu social não existe para mim. Porque quanto mais tento tornar-me social, menos humano torno-me. E então prefiro entornar isso ao esquecimento. Outra pergunta, por amor à vida!"
Do documentário musical "É dreda ser angolano"
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