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Os comboios constituem o único acesso à cidade. Não existem ligações rodoviárias, muito menos fluviais. E enquanto me desloco até ao centro da cidade suspeito da credibilidade dos telejornais quando noticiam estatísticas e estudos comparativos, alertando que 99% das pessoas que entram na cidade já não saem.
Nem uma ovelha parece incomodada com as filas de pessoas que andam encarreiradas pelo percurso de terra batida. Enquanto ando, recuo vinte anos. Ao dia em que fumei pela primeira vez, influenciado pelo meu primo Fernando. Passámos a tarde a enfrascar tequilas com um rapaz magro do qual não me lembro o nome. Dessa noite recordo-me apenas da má disposição que se seguiu àquela cópula maldita, que se tornara longa, irremediavelmente longa, com a senhora de bengala que pintava os lábios de vermelho no canto da sala quando entrámos. À sexta tequilla e o seu olhar malandro tornou-se incrivelmente sedutor. Despachámos o assunto na casa de banho. À saída, parecia que o mundo havia parado. Perdera a virgindade com uma velha perneta que mal consegui foder. Fumei um cigarro que pedi ao Fernando sem saber de que daí a duas semanas estaria desolado com a notícia de que tinha chatos. Nesse dia, comprei o meu primeiro maço de tabaco. Fumei-o todo nessa tarde. Nove anos depois e conheci Avaí, a minha brasileirinha. Cruzei-me com ela a vender guarda-chuvas no meio da estrada e nem o facto de serem feitos de papel me causou estranheza. Infantilmente, comprei-lhe um daqueles artefactos desconexos que ainda hoje guardo na prateleira do armário do quarto. Mas antes decidi acender um cigarro porque me fazia sentir confiante, e a descasca que me deu sobre os malefícios do tabaco levou-me a nunca mais tocar em nenhum. E hoje, dez anos depois, estou prestes a acender outro.
Custa-me a respirar e por pouco que a vontade de fumar não se desvaneceu. Pego no isqueiro que a mulher do comboio me ofereceu há instantes e retiro o que disse sobre o ar denso que tapa as colinas mais altas ao passageiro nº 62, assim que sinto o fumo do cigarro baunilhar-me a traqueia seca. Da estação de comboios à cidade são mais cinco minutos a pé. O passeio pelos terrenos agrários que circundam a cidade é bastante estimulante: as plantas de tabaco ainda verdejantes, os homens com grandes sacas às costas e o balido das ovelhas, cujos excrementos servem de adubo às plantações.
Há quem encare esta cidade como a mais doente do mundo. Há quem se recuse sequer a passar perto. Há quem defenda a extinção do projecto que, há dois anos, determinou o isolamento de todos os fumadores em cidades-protótipo, tendo em consideração as suas necessidades básicas elementares.
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