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O cemitério é extenso demais, limpo demais, público demais. Por toda a cidade, licenciados em empreendorismo funerário, padres encarregados de vender a morte, produtores de tabaco norte-americanos exploram este negócio lucrativo à nascença. Sandrinho dorme no cemitério com a mulher, abrigado numa tenda improvisada de lençóis e canas de bambu. Às vezes, quando chove, pernoitam num colchão resignado na fábrica de cartão canelado instalada na Rua Leite de Vasconcelos. A empresa abriu falência no ano passado. Consta que o director fugiu para o estrangeiro sobrecarregado com dois quilos de cocaína e um álbum de fotografias de três gerações mafiosas. Sandrinho trabalhava na fábrica. Produzia cerca de uma tonelada de cartão por dia e, em troca, ora recebia três litros de leite e uma almofada de penas de ganso ora cinco euros e dois croissants belgas com queijo fundido e mel.
Existem sessenta de seis Sandrinhos espalhados pela cidade. Muitos deles tocam agora trompete na marginal, pregando sustos aos transeuntes que passam de telemóvel na mão, lendo as suas contas bancárias on-line e escarafunchando sites de compra e venda de ouro.
Neste preciso momento, a mulher de Sandrinho dá à luz em pleno cemitério. O ritual de cerimónia invoca a leitura de umas quantas orações ritmadas por um tambor eléctrico momentos antes da contracção final. E o nascimento dá-se da forma mais incólume, num espaço que relembra constantemente a força da extinção humana. Sandrinho já é pai.
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