"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

sexta-feira, novembro 19, 2010

A cidade de fumo

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Caminho sobre nuvens de fumo à procura de um quarto para passar a noite. Uma vagabunda vestida de branco, interiormente camuflada, pede esmola. Aproveito-me da sua condição e em troca de uns trocos pergunto-lhe onde fica a pensão mais próxima. Levanta-se e diz-me para segui-la. Só agora reparo no olho de vidro escondido por detrás de uma mecha de cabelo sujo. Alcanço os seus passos mais adiante e reviro-me quando me refiro ao seu rabo espetado, tão bem torneado por umas calças de linho. «Chegámos!», diz-me. A pensão ficava naquela rua, umas portas adiante. Calaram-se todos. Os velhos em fila indiana a fumar charutos pele de vaca, com os capachinhos tortos no varadim da casa verde pálido e alguns mosaicos ocre a circundá-la. «Queres entrar?» pergunto e a rapariga que me disse chamar-se Nicole logo se atravessa à minha frente, requisitando de imediato um dos raros quartos vagos ao dono da hospedaria.

Ofereço um cigarro àquela vagabunda que procura carícias nas almofadas da cama. Aceita-o sem retribuir o gesto e começo a engendrar uma forma de convencê-la a passar a noite comigo. Desaperto um botão da camisa. Digo-lhe que é bonita e ainda minto acerca da minha idade. Em desespero coço os tomates. Parece que nada a faz mover, nem mesmo o sismo que abalou Évora inteira. Começo a despir-me, como quem não quer a coisa e encontro no bolso das calças o pacote de pó que roubei ao endomingado que olhava incrédulo para lá da janela do comboio. «Queres cheirar?»

A madrugada denunciava o cansaço e por instantes imagino a expressão aborígene de Avaí quando souber que lhe fodi a filha. Regozijo-me fumando um cigarro à janela, esperando a hora de Nicole acordar para poder finalmente enxotá-la do meu quarto.

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