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Os pequenos canais que atravessam os meandros desta cidade lembram uma versão empobrecida de Veneza e foi neles que nasceu a lenda da sereia dos sete canais. Quem mo disse foi o senhor do quarto ao lado que passou a noite a ver o canal das televendas e a fazer encomendas desnecessárias por telefone. Decido fazer-lhe uma visita de circunstância. Sentado no banco junto ao fogão, vejo uma quantidade absurda de comprimidos, separados por cores, em cima da mesa de cabeceira, um monte de livros de medicina para principiantes em cima de uma cadeira e algumas seringas varridas a um canto. «O velho é hipocondríaco!». Enquanto cozinha a sua cachupa conta-me que a ponte, de braços cruzados, consentia impávida o fingimento da mulher sereia quando cirandava pelos canais dédalos que lhe castravam o anseio de chegar ao mundo. Mas que amaldiçoado âmago poento daquela mulher, fantasma de ouro, carnaval de persiana, penso. «Era meretriz de ideias inconstantes, ora convulsas ora vagantes, levada pela força da saudação muda. O vazio tornara-se um fardo demasiado pesado para carregar às costas em dias de chuva: caiu aos pés do mar e enxugou nele as lágrimas, pois era a ele que pertenciam», conta-me. Diz-se que em todos os finais de tarde junto à ponte manchava as calças de fina seda italiana com o suco fresco que escorria das talhadas de melancia que roubava no mercado. E quando se punha noite, a longa cabeleira rubro acre aconchegava-lhe as clavículas ossudas e louvava as ondas do mar que se esquivam umas das outras eternamente. E era com a força da espuma cor de salmão que experimentava lançar redes de pesca ao mar. Mas infelizmente as redes não apanhavam senão torrões de areia, conchas partidas e beatas. Os seus longos suspiros apiedavam todos os homens da cidade, do peixeiro ao ourives, do mercenário ao sapateiro. Desde sempre que a ideia de uma mulher em apuros é bem mais estimulante que a ideia de uma mulher em liberdade.
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