"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

quarta-feira, maio 11, 2011

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Tudo menos pela Humanidade

Revira os olhos quando ouve tal heresia profanada em plena casa de Deus, bem-amada: "ouvi gemidos na casa de banho". Exerce ali funções de padre desde que a cidade foi implantada. Dantes, trabalhava como mecânico numa pequena oficina, herdada do avô paterno, onde pregava aos clientes a belíssima reparação do motor e do tubo de escape. Mas as dívidas acumularam-se de tal forma que a oficina passou a propriedade do Estado, acompanhada pelas prostitutas caras a meio do dia.
A humidade nas profundezas das ruas distancia as pessoas. Parece prever tempestade. Ao entrar na igreja, todas as manhãs, arrepia-lhe o cheiro a mortos. Descobre o pulso e boceja, batendo lentamente com a mão na boca. O burburinho inicial indica que os bancos estão perto de ser preenchidos. A hora da missa aproxima-se. Prega-a duas vezes por dia gesticulando sempre as mãos como um director financeiro chinês. Durante as leituras bíblicas olha para lá do horizonte da igreja e ignora o público moribundo que procura em si a salvação.
À saída, de cigarro na boca, pisca discretamente o olho ao secretário da igreja que sorri e acena a cabeça, confirmando o encontro. Espera-o apoiado no lavatório da casa de banho encerrada para obras, acendendo por fim o cigarro pós-sermão. Trocam poucas palavras antes de o secretário romeno despir as calças e o padre ajoelhar-se à sua frente. A necessidade de discrição é estimulante mas implica falar raramente em público para não chamar a atenção. Gosta que o penetrem com o traje ainda vestido. Fá-lo sentir-se mais próximo d'O Criador. O "estrangeirinho", como o trata, parece realmente apaixonado pelo senhor padre. As suas origens nómadas foram subvertidas pela capacidade de persuasão do padre que, numa tarde de Fevereiro, o encontrou com as roupas completamente ensopadas na única taberna da cidade que vende os cigarros mais fracos do mercado.
Oito meses depois e o "estrangeirinho" passa a viver em casa do padre na condição deste lavar a roupa e tratar do jantar. Aceitou, claro. A vida que levava na Europa de Leste, ainda na década de noventa, em nada se compara a uma vida de lides domésticas em Portugal. Deixou a Roménia sem pensar duas vezes. Começou a fumar aos quatro anos a mando do pai alcoólico, desempregado há mais de dez anos. Aos doze corria as ruas à procura de alimento quando não conseguia assaltar os colegas à saída da escola.
Mas os encontros casuais na casa de banho passaram a jantares com direito a vinho e sadomasoquismo. O padre pedira-lhe que lhe acorrentasse os pulsos na cama. Estava nu e as vertigens que o sexo oral lhe provocavam camuflaram o som da porta a abrir. Alguém desconfiado de que o padre podia estar a ser violentado fez uma denúncia anónima que resultou na detenção do homem romeno. O padre algemado à cama, desnudo, com manchas negras e chupões espalhados pelo corpo eram prova suficiente para condenar o pobre rapaz a doze anos de prisão. O padre confirmou a versão.

Existem muitas versões sobre a criação destas cidades-protótipo, sobre que propósito foram construídas e quais seriam as condições humanas que teríamos que abdicar em prol de uma sociedade que se veste falsamente de branco. E se não lembra a Deus, há sempre teorias macabras e verdadeiras torturas textuais que escrevem por baixo a favor da escravatura do homem. O homem é escravo de si próprio. É filho e escravo de si próprio. Mas a ingratidão maior acontece quando nos cortam o cordão umbilical, quando deixamos de nos puder sentir próximos à mãe criadora. Embalam-nos nos braços e depois de umas palmadinhas nós choramos, cada um com o seu choro.
    A versão mais encantadora sobre a cidade é a minha. Em todas as frechas do passeio namoram beatas de tabaco humedecidas e isso assusta qualquer um. Tornámo-nos pessoas ingratas em prol do individualismo, mau salvador, que nos afasta e nos impede de alcançar o estado de nirvana. Não existe mais controlo sobre o poder que é invisível e que, a olho nu, nos vai fodendo devagarinho o rabo. O simples acto de acender um cigarro resultava na morte do fumador. Não havia mais ópera salvadora...

segunda-feira, janeiro 31, 2011

A cidade do fumo

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    Dois polícias à paisana entram no cemitério no momento em que Balbúcio dá o primeiro travo. "Os seus documentos, por favor", pedem-lhe antes de se apresentarem. Sem a documentação em dia mais o roubo e a multa de cento e cinquenta euros por desobedecer a lei que proíbe fumar nos cemitérios, Balbucio é detido à força pelos dois policiais de barba longa, entrançada, e encaminhado para uma cela provisória nas traseiras da esquadra da polícia. E são tantos os que por lá param, apanhados a roubar tabaco a gente honesta e trabalhadora. São proferidos palavrões que Balbucio, o homem gago, desconhece. Gagueja ao pedir um cigarro ao rapaz com ar de estrangeiro no fundo da cela. Ao invés de um cigarro, leva uma chapada. Retira-se revoltado.

A cidade do fumo

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    Não via o meu tio há doze anos. Tem mais rugas e menos dentes desde a última vez em que o vi deitado na cama do hospital a recuperar de uma pneumonia. Fez sopa de rabo de boi e uns biscoitos de azeite para o jantar. Trocámos poucas palavras à refeição. Mas antes de ir para a cama pedi licença para entrar no escritório. Pergunto-lhe se a máscara de oxigénio está a funcionar normalmente. Pela primeira vez desde que cheguei olha-me nos olhos. Viro costas e desejo-lhe uma boa noite.
    A cama está gelada. Não sinto os pés que entalo ao fundo da cama. Não consigo dormir. Talvez por causa do frio. Oiço a tijoleira ranger e espontaneamente tapo o rosto da mesma forma que tapei o rosto há doze anos atrás. Dormia de camisa, sem cuecas. Ele vinha, tapava-me os olhos com um lenço, amarrava-me as mãos e os pulsos e levava-me para o seu quarto. Os abusos ter-se-ão repetido até aos meus 16 anos.
    Não me revolvo mas consinto que ele entre na cama. Sussurra-me alguma coisa ao ouvido que não percebo. Digo-lhe para se aproximar e peço-lhe que me toque, que me morda os lábios, que me castigue novamente. Mas está velho e a pujança de outrora deu lugar a um amor mais meigo, mais frustrado, mais convalescente. Canso-me rápido daquela moleza e acendo um cigarro. O seu olhar parece não compreender a minha indiferença. Inspiro fundo e cerco-lhe o rosto com o fumo que o torna ainda mais deplorável. Despeço-me pegando numa garrafa de gin.
    Percorro a cidade em busca de alguém que me sacie. Mas só vejo pessoas velhas entorpecidas pelo fumo que vagueia junto ao chão, crianças moles, mulheres que não me olham de frente. Paro para "pedir esmola" ao único homem decente que vejo na rua a esta hora. Mais tarde e estará a oferecer-me um cigarro no seu quarto.
    Enquanto fumo desaperta sem jeito um botão da camisa. Coça os tomates e diz ser mais novo do que realmente.
    Na manhã seguinte, tenho as ancas e as pernas doridas de arcar com todo aquele vigor sexual. Acordo com o barulho de alguma coisa a cair no chão. E repentinamente puxa-me covardemente pelo braço e atira-me para fora do quarto. Cago na revolta. Não merece. E embalada por uma lucidez inesperada impeço-me de deixar a hospedaria de cara tapada e espero pacientemente que ele saia do quarto.

A cidade do fumo

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     Balbúcio estava desesperado por um cigarro. Atravessou-se à frente de um carro numa corrida veloz até à tabacaria "Última" nos arredores da cidade, com o pulmão de um menino de dez anos. Pediu cinco unidades que vieram embrulhadas num saco de plástico. Dez cêntimos o cigarro. A inflação era grande e atacava-lhe directamente a bolsa. Gaguejou uma vez. Gaguejou outra. À terceira, ameaçou cortar os pulsos. O senhor da tabacaria não reagiu. Limitou-se a deitar fumo pelo nariz impávido. Então fugiu. Escapou-se do homem e correu o mais que pôde. Atravessou o canal, o campo, o parque, o átrio da igreja, subiu a escadaria da torre até chegar ao cemitério, saltou a vedação e continuou a correr.
    Perdera de vista o senhor da tabacaria quando virou à esquerda na Rua dos Malefícios. Talvez tenha parado para rezar. Talvez para pedir perdão por fumar o tabaco que vende. Olha para trás. Não vê ninguém. Arrisca parar para descansar numa daquelas campas e acende finalmente o cigarro.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

... dir-te-ei quem és!

Com a força de um espirro, torce os membros em sinal de desconforto e invoca a sabedoria do anûs sub-valorizado ao encontrar o balde de loiça da casa do vizinho. Saiu encabulado com as mãos ainda húmidas de pouco esfregá-las nas calças e despediu-se (não sabe porquê) abocanhando um queque do cesto de congratulações pela nova casa, enviado esta manhã pela prima em segundo grau da parte dos Albuquerques. As suas intenções abrem o sentido de que ele, o próprio, não é senão mais um indivíduo-cúmulo que baixa as calças quando lhe dizem "boa-noite".
Alberto, o seu nome, passa o dia a mascar tabaco em frente à televisão, aparentando desconhecer a brevidade da vida que o obriga a passar o dia a mascar tabaco em frente à televisão. Gostava de ir a África, um dia...

segunda-feira, janeiro 24, 2011

“The characters in my novels are my own unrealized possibilities”,

Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being

terça-feira, novembro 23, 2010

«Poderemos dizer que a cidade é tão aborrecida que tem horários para cada som. Numa cidade divertida um cego nunca saberia as horas exactas. Mas porque a cidade não é divertida: ele sabe.»

Gonçalo M. Tavares, in "O senhor Eliot e as conferências" caminho, 2010

A cidade do fumo

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O cemitério é extenso demais, limpo demais, público demais. Por toda a cidade, licenciados em empreendorismo funerário, padres encarregados de vender a morte, produtores de tabaco norte-americanos exploram este negócio lucrativo à nascença. Sandrinho dorme no cemitério com a mulher, abrigado numa tenda improvisada de lençóis e canas de bambu. Às vezes, quando chove, pernoitam num colchão resignado na fábrica de cartão canelado instalada na Rua Leite de Vasconcelos. A empresa abriu falência no ano passado. Consta que o director fugiu para o estrangeiro sobrecarregado com dois quilos de cocaína e um álbum de fotografias de três gerações mafiosas. Sandrinho trabalhava na fábrica. Produzia cerca de uma tonelada de cartão por dia e, em troca, ora recebia três litros de leite e uma almofada de penas de ganso ora cinco euros e dois croissants belgas com queijo fundido e mel.
     Existem sessenta de seis Sandrinhos espalhados pela cidade. Muitos deles tocam agora trompete na marginal, pregando sustos aos transeuntes que passam de telemóvel na mão, lendo as suas contas bancárias on-line e escarafunchando sites de compra e venda de ouro.
     Neste preciso momento, a mulher de Sandrinho dá à luz em pleno cemitério. O ritual de cerimónia invoca a leitura de umas quantas orações ritmadas por um tambor eléctrico momentos antes da contracção final. E o nascimento dá-se da forma mais incólume, num espaço que relembra constantemente a força da extinção humana. Sandrinho já é pai.

segunda-feira, novembro 22, 2010

Shunnoz e "O cu da poesia"

"O nome artístico é o nome nato. Shunnoz Fiel dos Santos. E pensólogo. (...) Eu tenho seguido a carreira de sofredor profissional. E também sou um dos adeptos da pobreza clássica. Eu ainda vejo o sangue do parto quando pego naquelas folhas. Que foi um parto difícil. Ele foi recusado pela sociedade. Ele foi recusado pelos pensadores angolanos. Porque ele falava do cu. Porque o título era "O cu na poesia". E o povo olhou para o título, leu o título e ficou triste. «Porquê o cu com tantas coisas para falar?». Um grande crítico literário (que não vou citar o nome) reconhecido no país internacionalmente foi ele que leio o livro e criticou e disse «o senhor não tem ética!». E eu agora pergunto-me: será que o cu não nos pertence? Será que quando nos cagamos, quando nós defecamos, quando o nosso cu entra em comunicação com a vida, quando o nosso cu entra em diálogo com a vida, nós não falamos? Será que a verdade que está no livro não é verdade? Não é uma filha da realidade? Que CÁ, em Angola, não se consegue lançar um livro que fala da vida como ela é? Porque hoje criaram-se os mitos. O mito da dor. O mito do amor. O mito da caridade? As pessoas acreditam que essas todas palavras estão na necrologia? E que elas já não têm força dentro do homem? Mas são elas dão a vida ao homem. E "O cu da poesia", este triste livro que nasceu de um acto alegre, doloroso, ele traz a mensagem do cu porque em Angola não se sobrevive sem se beijar o cu de ninguém. Como é que tu vives sem beijar o cu a ninguém? Explica-me. Eu olho para a câmara e nem a câmara tem resposta! Como é que tu vais viver e sobreviver sem beijar o cu, se não tiveres um tio ministro que beijas no cu, tu não consegues emprego. E logo a seguir optas pelo vandalismo. Ou tornas-te num caçador de telemóvel. Num caçador de fio de ouro nas ruas. Olha a raspadinha da sorte. É isso. "O cu da poesia" fala sobre isso. O povo agora acredita mais na sorte. De tanto beijarem cus, já ninguém quer estudar. Já ninguém quer arranjar emprego. Já ninguém quer fazer algo decente. Inventaram sortes. E hoje todos vivemos a voar atrás da sorte. Os jogos passam na televisão, todo o povo junta dinheiro.. Sei lá até já esqueci o número de pessoas, porque tantas nascem todos os dias e morrem. E tantas estão aqui e não conseguem viver. Eu já esqueci o número de pessoas mas eu sei que toda a Angola tem que juntar dinheiro para uma família ser feliz. E "O cu da poesia" fala sobre isso. E agora irmãos (e eu falo por mim) eu quero viver, eu vou beijar o cu de quem? Eu não tenho tio ministro! Meu Deus.. Eu vou beijar o cu de quem? Eu vou beijar o cu do sobrinho para me ligar ao cu do tio? Para dar o beijo e depois recusar-me? Dizer que os meus lábios não eram doces? Porque a minha árvore geneológica é oposta? Será que eu não sou filho do útero de Angola? Isso é a pensologia na sua essência, amados. Ela não segue padrões éticos ou morais. Porque ela é livre. Livre como a vida é. E a ética e a moral têm matado o homem. E eu sei disso, já tenho visto as armas. Ninguém me vai mentir mais. Ainda há dias o civismo me apontou uma arma. E eu acreditei que o civismo tinha a solução para a minha vida. E então eu vou ser sincero (...). Eu vou activar a minha vida instintiva na totalidade. Eu vou desprezar o racíocinio e serei livre de vez. Eu vou à selva. E na selva hei-de viver feliz. Não consigo estar com o social. O eu social não existe para mim. Porque quanto mais tento tornar-me social, menos humano torno-me. E então prefiro entornar isso ao esquecimento. Outra pergunta, por amor à vida!"

Do documentário musical "É dreda ser angolano"

a incerteza (filha da puta)

Quando se achou vento e seguiu, Cândida corou as faces lisas. Há cerca de dois dias, cruzou-se com o Luís na rua. Sorriu-lhe, embaraçada, mesmo tendo os lábios dormentes. “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando viu o Luís, Cândida corou com o vento. Sorriu, com os lábios dormentes e “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando a Cândida corou de vergonha, sorriu. E o vento levou-a. Coitada. Mesmo à beira do Luís.
O Luís, por outro lado, corou as faces tremidas e baixou a cabeça, embaraçado. “Claro!”, pensou ele. “Não me viu de certeza...”. Cruzaram-se na rua. A Cândida e o Luís. Coraram e sorriram e pensaram “Claro!”, “Não me viu de certeza...”

Josué

O antigo homem dos sete ofícios
Muito corado e envergonhado
Carregava aos ombros demasiados suplícios
Fúnebres trajes abandonados.

Ao Josué deram liberdade e poder de escolha,
Com consciência fonológica,
Mas tudo à sua volta pedia a recolha
Da sucumbida experiência analógica.

Um, dois, três degraus
Subidos pelo Josué
Comidos por leões de crateras
Ao longo do torso torto morto.
Da poesia dos astros incólumes.
Do rugido do rei roxo
Que é sagrado purpúreo púlpito.

“Quem sou eu?” – gritou o Josué em cima de tábua instável.

A não-resposta disse que sim
ao homem dos sete ofícios
iludido pelo doutor petório
e pelo sentido notório
da existência dos anjos analfabetos.

“Suplícios, suplícios!” – gritou o Josué criando alarido.

“Deram-me tantos suplícios!” – chorou o Josué numa cena comovente.

dipsomaníaco

vi aquele corpo letárgico
dar voz a um títere sôfrego, ascético
e sulquei-lhe a alma saqueada.

nefando.

ao meditar a excrescência do folículo
estranhei o seu candor crispado
e assente no céu como um safado,
ele - o dipsomaníaco - foi apedrejado
e no cume do montículo dilapidado.

nefando.

andava enfadado com o líquido desfeito.
decomposto pela ociosidade. afeito.
e assim que expeliu o ar, despeito
subiu os degraus do cadafalso. malfeito.

nefando.

e assim foi enforcado, insípido
perdido num pranto dantesco.
que desmedido sacrilégio frígido
fez sucumbir o nosso dipsomaníaco burlesco

Relógios falantes

Nos relógios falantes encontram-se dialogando o relógio das Chagas e o de Belas, ambos a consertar no serralheiro. As suas considerações constituem também uma censura aos costumes do tempo, dos validos, da moda, etc. Por fim, o tom é mais grave, e fala-se na velhice e na morte.
 
Relógio da Aldeia. Senhor Relógio da Cidade, badalemos limpo, que as paredes ouvem, e as de campanários nunca foram de segredo.
Relógio da Cidade. Olhai ora cá: se o estar sempre à dependura me não me há-de valer para tirar o medo de não morrer enforcado, melhor é acabar logo por ua vez!
R.A. Cal-te, que te fundirão!
R.C. Pois que importa? Farão de mim campainhas, e então lhes direi por cem bocas o que não querem ouvir de ua. Par Deus! mas que me fundam, mas que me confundam, eu hei-de tanger sempre a verdade!
R.A. Por isso tu cá vens por mentiroso. Diz que a verdade, na língua dos que a não falam, e como a água do Chafariz de El-Rei, que, por correr por canos de enxôfar, sempre faz mal ao fígado.
R.C. Fígados há aí tão danados, que da água pura e clara fazem peçonha.
R.A. E tu, amigo, que ganhas em desenganar o mundo, que se não quer desenganar? O sumo grau da sandice é perder-se um pelo ganho do outro.
R.C. É nobreza de coração, e ainda proximidade, não deixar perseverar a ninguém no seu engano.
 
In Relógios Falantes, de D. Francisco Manuel de Melo, escritos de 1654 a 1657.

sexta-feira, novembro 19, 2010

A cidade de fumo

6

Os pequenos canais que atravessam os meandros desta cidade lembram uma versão empobrecida de Veneza e foi neles que nasceu a lenda da sereia dos sete canais. Quem mo disse foi o senhor do quarto ao lado que passou a noite a ver o canal das televendas e a fazer encomendas desnecessárias por telefone. Decido fazer-lhe uma visita de circunstância. Sentado no banco junto ao fogão, vejo uma quantidade absurda de comprimidos, separados por cores, em cima da mesa de cabeceira, um monte de livros de medicina para principiantes em cima de uma cadeira e algumas seringas varridas a um canto. «O velho é hipocondríaco!».  Enquanto cozinha a sua cachupa conta-me que a ponte, de braços cruzados, consentia impávida o fingimento da mulher sereia quando cirandava pelos canais dédalos que lhe castravam o anseio de chegar ao mundo. Mas que amaldiçoado âmago poento daquela mulher, fantasma de ouro, carnaval de persiana, penso. «Era meretriz de ideias inconstantes, ora convulsas ora vagantes, levada pela força da saudação muda. O vazio tornara-se um fardo demasiado pesado para carregar às costas em dias de chuva: caiu aos pés do mar e enxugou nele as lágrimas, pois era a ele que pertenciam», conta-me. Diz-se que em todos os finais de tarde junto à ponte manchava as calças de fina seda italiana com o suco fresco que escorria das talhadas de melancia que roubava no mercado. E quando se punha noite, a longa cabeleira rubro acre aconchegava-lhe as clavículas ossudas e louvava as ondas do mar que se esquivam umas das outras eternamente. E era com a força da espuma cor de salmão que experimentava lançar redes de pesca ao mar. Mas infelizmente as redes não apanhavam senão torrões de areia, conchas partidas e beatas. Os seus longos suspiros apiedavam todos os homens da cidade, do peixeiro ao ourives, do mercenário ao sapateiro. Desde sempre que a ideia de uma mulher em apuros é bem mais estimulante que a ideia de uma mulher em liberdade.

A cidade de fumo

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Caminho sobre nuvens de fumo à procura de um quarto para passar a noite. Uma vagabunda vestida de branco, interiormente camuflada, pede esmola. Aproveito-me da sua condição e em troca de uns trocos pergunto-lhe onde fica a pensão mais próxima. Levanta-se e diz-me para segui-la. Só agora reparo no olho de vidro escondido por detrás de uma mecha de cabelo sujo. Alcanço os seus passos mais adiante e reviro-me quando me refiro ao seu rabo espetado, tão bem torneado por umas calças de linho. «Chegámos!», diz-me. A pensão ficava naquela rua, umas portas adiante. Calaram-se todos. Os velhos em fila indiana a fumar charutos pele de vaca, com os capachinhos tortos no varadim da casa verde pálido e alguns mosaicos ocre a circundá-la. «Queres entrar?» pergunto e a rapariga que me disse chamar-se Nicole logo se atravessa à minha frente, requisitando de imediato um dos raros quartos vagos ao dono da hospedaria.

Ofereço um cigarro àquela vagabunda que procura carícias nas almofadas da cama. Aceita-o sem retribuir o gesto e começo a engendrar uma forma de convencê-la a passar a noite comigo. Desaperto um botão da camisa. Digo-lhe que é bonita e ainda minto acerca da minha idade. Em desespero coço os tomates. Parece que nada a faz mover, nem mesmo o sismo que abalou Évora inteira. Começo a despir-me, como quem não quer a coisa e encontro no bolso das calças o pacote de pó que roubei ao endomingado que olhava incrédulo para lá da janela do comboio. «Queres cheirar?»

A madrugada denunciava o cansaço e por instantes imagino a expressão aborígene de Avaí quando souber que lhe fodi a filha. Regozijo-me fumando um cigarro à janela, esperando a hora de Nicole acordar para poder finalmente enxotá-la do meu quarto.

quinta-feira, novembro 18, 2010

I ACTO - Amanhã será..

Personagens (Por ordem de entrada em cena)
ELA
ELE
O HOMEM DOS BOLSOS OCOS

No centro da sala, que descai ligeiramente para a direita, está uma mesa quadrada, simples, castanho-âmbar. Não existem quadros pendurados nas paredes, a televisão está ligada à corrente, mas não tem sinal. O rádio está avariado faz meses. Ou então precisa de pilhas. Que importa isso.
Ouve-se uma conversa em sussurro. Iluminação do palco. Amarela-alaranjada. Ela e ele estão de pé, frente-a-frente, no canto direito do palco, ele de costas para o público. Ela chora, quase compulsivamente, embriagada pela dor, contorcendo-se e movendo-se vagarosamente. Dão as mãos e num acto trôpego e cavalgante de ventos vindos do Sul abraçam-se.



ELA (acabrunhada)
Amas-me?

ELE
Já te disse que sim. Tens de parar de perguntar isso. Começa a ser irritante.

ELA
Sabes, hoje vi o sol nascer por detrás da cómoda que atravanca a porta de dentro do quintal. Quando éramos mais novos, fazíamos sempre isso. Esgueirávamo-nos da atenção dos vizinhos, cobríamo-nos com o lençol velho da Tia Albertina e acompanhávamos o passo lento do Sol, dentro do olhar um do outro. Lembras-te?

ELE (desinteressado)
Sim, lembro. Ainda há leite no frigorífico?

ELA
Acho que sim. Vou ver.

O telefone de casa começa a tocar. Estridente. Ela sai para comprar leite e ele pega no telefone, mas hesita em puxá-lo ao ouvido. Ao quinto toque, atende.

ELE
Estou sim? Sim, muito obrigado. Sim... é o próprio. Não tem problema nenhum, não, não interrompeu o almoço. Sim, já almocei, não se preocupe. Mas diga, diga,...

O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Espero que não me leve mal mas sabe, há tempos pus-me a pensar como será ser-se peludo, mas assim mesmo muito peludo. Essas pessoas, deixadas à sombra de Deus, coitadas, devem suar imenso. Até de noite. Consegue imaginar tanto desconforto? Bem, adiante.

ELE
Sim, adiante.


O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Por vezes tenho tendência a falar pelos cotovelos... A minha mãezinha dizia que... raios lá estou eu outra vez! Ora, muito bem, vou directo ao assunto: o senhor é peludo?

ELE
Mas que raio?! Tenho alguns pêlos, sim. Mas não são muitos. Alguns, mais na zona púbica.

O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Tenho a solução ideal para si. Um tratamento 100% natural, pode confiar no que digo, que resolve em apenas, repito, em apenas, duas semanas o problema dos pêlos.

ELE
De facto, deve ser uma sensação agradável não ter pêlos entranhados na pele. E quanto custa esse tratamento?


O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Para si, 100 euros certinhos. Que me diz? Aliciado?

ELE
Bastante. Pago por multibanco ainda hoje, pode ser? Já tenho o NIB anotado, sim, não se preocupe. E quando recebo o produto?

O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Amanhã por volta da hora do almoço. Combinado?

ELE
Tudo certo então. Amanhã será...

terça-feira, novembro 16, 2010

o chá da vulva

que linguagem sôfrega da mão
nos mamilos brancos
em corpo de leite derramados
e que deleite,
e que convulsão,
ouvir o gemido sagaz
ao ouvido da vulva cálida,
tão voraz
que anseia pálida
mel ejaculado no regaço
e que opulentas cuecas
junto à perna da cama
em sono profundo
cansadas

As garças

O jardim parecia envolto num nevoeiro húmido que se entranhava perversamente na pele e encobria os passos ociosos de um gato persa de pêlo azul-cobalto. Por momentos, a cauda serpenteante do animal parecia tomar a forma de um pénis astuto, sacudindo lentamente o fumo que cinzelava o rosto das duas amantes.
Escondido atrás de um biombo de cor acre, desenhado à mão, Kabir sentia uma inebriante sensação de prazer atravessar-lhe o corpo ao mirar as duas mulheres que consumiam ópio numa exuberante chaise-longue verde abacate. Os seus lábios juntavam-se em beijos sôfregos e prolongados. Dera-lhes o nome de Langa e Lien.
Começava a sentir a libido brotar dentro de si ao ver as pernas de Langa, reveladas por um diáfano quimono de seda pérola, abrirem-se delicadamente como as asas de uma garça, enquanto Lien lhe lambia demoradamente os seios redondos. O jovem mirava atento, acompanhando o movimento da mão que descia pelo ventre liso de Langa, até alcançar o clítoris. E nisto, o samba dos dedos tomou balanço, ora de cima para baixo, ora num movimento circular, apoiando-se sobre a vulva carnuda e humedecida.
Gradualmente, os néctares vaginais levemente aromatizados a citrinos intensificaram-se, foram pronunciadas palavras de volúpia, os dedos molhados de saliva escorregavam à volta dos mamilos, que respondiam enrijecendo. Um desejo carnal exasperante apoderou-se de Kabir quando Langa começou roçar o curto cabelo âmbar entre as coxas de Lien, arranhando-lhe os lábios e provocando-lhe vagas de prazer até que a tensão rebentou em mil gemidos e suspiros, conduzindo ao cume do prazer.
Kabir despertou num impulso, asfixiado. Abriu os olhos e viu-se de braços abertos, com os dedos cravados nos lençóis de cetim e as pontas dos pés curvadas. Os testículos elevaram-se, anunciando a eminência do orgasmo e o corpo, atormentado por uma pressão violenta, libertou-se numa explosão íntima de prazer. Lentamente a serenidade impôs-se e os músculos do corpo baixaram a guarda. O alívio era agora pleno.

terça-feira, novembro 09, 2010

autobiografia

escrevi uns versos
no outro dia
mas talvez por rebeldia
ou débil anatomia
os versos não rimaram.

estaria assim tão vazia,
sem ossos e em agonia,
que nem uma simples palavra
do ventre me saia?

então de frente para o púlpito implorei:
“devolvam-me a anestesia,
o sexo, a ousadia
pois anseio o dia em que direi:
deitei-me com a poesia
ajoelhada de costas
que nem uma vadia.
aqui tens a minha autobiografia”

«Sê verdadeiro»

Era uma tarde de Fevereiro
Sem açucar no açucareiro
Pescavam tantas toneladas de arreiro
Chiça! Que mau cheiro alcoviteiro

Suplicou ao santo padroeiro
Para que a chuva não trouxesse o nateiro
E não lhe afogasse o pobre do carneiro
Que pasta livre as relvas do carreiro

Mas o santo padroeiro
arrieiro arteiro
ignorava-o de modo grosseiro
Pois era filho de terceiro
Pobre inútil, tornado rafeiro

E o homem dizia: «sou filho de um vendedor careiro,
Que trabalhava aos sábados no Barreiro,
Dando milho à boca do touro vareiro
E chuto tão pouco dinheiro
Por isso assassinei meu irmão, o herdeiro
Não me lembro se com uma faca ou um tiro certeiro
E ao querer fazer de mim guerreiro
Tornei-me de mim prisineiro
Só me resta pegar no isqueiro,
Algures no bolso, solteiro
E com um toque gesticular ligeiro
Acender o cigarro de um marinheiro
Que um dia me disse «sê verdadeiro»