"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

terça-feira, junho 19, 2012

They are so damn 'intellectual' and rotten that I can't stand them anymore....I [would] rather sit on the floor in the market of Toluca and sell tortillas, than have anything to do with those 'artistic' bitches of Paris. [on Andre Breton and the European surrealists]

Frida Kahlo

sexta-feira, junho 15, 2012

«Preciso de dinheiro para mim próprio e não me sinto a viver em função do capital. Sei que disse muito disparate, mas tanto pior. São estas as minhas convicções.»

Dostoevskij, "Il Giocatore"

a sultana





Vemos ao longe uma formiga que desce solitária pela montanha, porventura acompanhada pelo vento que se enguiça nas suas pernitas e a faz rodopiar à volta de polens, sementes e gramíneas. Este texto é sobre um tipo de formiga. O mais subestimado mas talvez o mais importante de todos. Um tipo que ao instalar-se e conquistar o resto do reino animal, moldou a superfície do planeta e ajudou a criar a civilização humana. Esta é a história da sultana.

A floresta estende-se densa pelas planícies da montanha e alguns raios de sol alcançam o chão da floresta. Foi nele onde a sultana encontrou abrigo, nos complexos enredos de raízes que parecem invocar aos deuses a escuridão total. E aqui, na África Oriental, encontra-se uma das mais impressionantes. Uma que viria a enfrentar leões por entre estes feixes de luz preciosa. 
Estas criaturas microscópicas, com alguns centésimos de milímetro de diametro, são maravilhosamente delicadas. Os seus pequenos esqueletos lembram construção alienígena. E elas são cruciais porque constituem a base da cadeia alimentar da montanha. Com mais sultanas vieram enormes bandos de melros e avestruzes que as comiam. Depois, estes atraíram falcões e ursos e predadores ainda maiores. 
Ao microscópio, vejo fragmentos cristalinos em forma de oito. É a sultana. Penso ter encontrado a verdade ali, expressa daquela forma e posso imagina-la a debater-se no chão da floresta, a alimentar-se da pouca luz que atravessa as copas daquelas sequoias gigantes. 

(sem título) sobre o lixo


Os sacos do lixo abandonados aos milhares em frente às casas da sua cidade continuam crentes que o caixote estará menos sujo daquela vez, que terão uma viagem digna por entre o pátio alvoraçado por folhas e crianças que jogam já não sabe mais a quê. Cansa-o deitar lixo no lixo, todos os dias, várias vezes ao dia, num gesto contínuo de desperdício de tempo; o seu e o de todos os outros que durante uma vida deitam fora os seus pertences, as suas sobras, os acessórios temporários a coisa alguma ou a muita coisa porque somos muitos e indecentes quando optamos por produzir exponencialmente mais lixo.
Pega nele mais uma vez. A segunda do dia. Guarda as chaves de casa e atravessa a rua de braço airado, apesar do sacrifício que sente nas costas. Não é comum ver carros a passar àquela hora da noite. A rua está parada e parece que todos dormem menos ele e os funcionários noturnos que não tardam a aparecer para levar o seu lixo. Despede-se dele com mais um abraço e acena-lhe antes de finalmente virar as costas e entrar em casa. Já descalço, corre uma vez mais para a varanda. Os funcionários da câmara aproximam-se.   

The Prodigy of Color: Aelita Andre / a Solo Exhibition


quarta-feira, maio 30, 2012






Sou pessoa incógnita. Não me sinto pretendente a identidade alguma. E se dizê-lo não me parece correto, colocá-lo entre palavras que se dispersam após a leitura, não convindo mais ao leitor, trata-se de um gesto absolutamente ignóbil. Mas a verdade é que as pessoas que encontro refletidas quando me olho ao espelho são me dispersas, impessoais, incaracterizáveis.  

As Garras dos Perus


Estendi-lhes o pé mas por razões que me são interditas eles não mo devolveram de volta. Afincaram-se a ele de tal forma que perdi o meu próprio pé e com ele também a noção de que sem ele sobrevivo minimamente bem. Não me permito às garras deles, de dimensão bem superior às minhas. Elas não me inquietam mais porque me soltei das amarras que teimavam em embrulhar-se no meu escalracho e não me calcei mais, nem sapatos, nem sabrinas, nem mesmo uns humildes chinelos; e se, por acaso, me perguntarem porquê direi que sofro de calosidades e que sem elas não me levantaria tão afincadamente pela manhã.

L.I.B.E.R.A.T.I.N.G

Exercício de Escrita Visual – O Olho Humano


Henri Bergson (Prémio Nobel da Literatura, 1859-1941)

Caligrafia GordoLetters


LETRA L.



Um olho e uma mama. Ou a ilustração sobreposta de um palácio árabe virado do avesso. Refiro-me à fusão das imagens visuais nos meus olhos e à excitação que funde as imagens mais significativas. Sobranceira ao olho, a sobrancelha que fita aquela/e à sua frente. Inevitavelmente a excitação no córtex visual ausenta-se, comprometida pela mama de bico bicudo e pelo oleado, que dita o caminho para lá da folha. As camadas neuronais do corpo são velozes e adiantam-se às dela/e, fazem-na/o tropeçar e intriga-a/o o seu olhar carregado e tenebroso.




 LETRA I.





Mãe-Luz. É a luz invisível que ali se depara ou espectro eletromagnético detetado pelo olho humano. A senhora espiga que observo no quadro ao lado comemora sozinha o advento próximo do sol. Os braços são ondas de luz natural; a cabeleira três raios solares e o torso uma manta grossa de algodão. Esta figura, tão serena e esguia, aparenta uma mulher de meia-idade algarvia. Com o passar do tempo, as suas pernas tornaram-se estaca e, como um espantalho, a mulher espiga, ou a mãe-luz, espanta as sombras que lhe tapam o sol.


LETRA B.



Estrabismo. Sofre de estrabismo horizontal a pobre criatura. É género raro que consiste na falta de fusão adequada ao eixo visual dos olhos em uma ou mais coordenadas visuais. No seu caso, o olho esquerdo torto que viaja pelo deserto com uma mala de viagem e dois binóculos de visão noturna. Não pediu licença para partir. Partiu e pronto.


LETRA E.



Durante a leitura. Quando lemos são os olhos que correm e não as letras. Mas ele não lê, observa. Movimenta os olhos três vezes por segundo extraindo a informação importante do quadro. Ao observar a pintura, num quadro qualquer exposto na parede branca de contraplacado em frente, o beicinho das mãos não se atreve a dar nem mais um passo. Está há horas ali especado. Um ângulo de leitura e assim por diante… Porque movimentamos os olhos três vezes por segundo, cem mil vezes por dia.

LETRA R.

Olho reprimido. Falo quando o olho direito é usado o tempo todo e o esquerdo deixado ao abandono num canto. O olho dominante, conectado diretamente ao sistema nervoso, pratica já sem acuidade visual o voo experimental em busca de alimento. Mas este nem sempre é bem-sucedido. A ave velha, de asas pesadas e pupila preta, não voa mais.

 LETRA A.



O olho e o cérebro. Ou a rede complexa que nos possibilita assimilar o que se passa à nossa volta. Vejo e perceciono a completa integridade de ambos quando vejo e reconheço ao lado o ninho de flamingos bebés que debicam o ar esganados de fome. A impressão sensorial que primeiro ocorre no olho e que depois é reconhecida pelo cérebro.

quarta-feira, maio 02, 2012

Os Que Passam a Correr

Se vamos a passear à noite por uma rua e um homem que ao longe se avista - porque a rua sobe à nossa frente e a lua está cheia - vem a correr de encontro a nós, então não o vamos agarrar, apesar de ele ser fraco e andrajoso, apesar de vir uma pessoa a correr atrás dele e a gritar, vamos antes deixá-lo passar.
Porque é de noite e não temos culpa que a rua seja a subir e esteja iluminada pela lua, e, além do mais, talvez estes dois homens tenham organizado a caça para seu divertimento, talvez os dois persigam um terceiro, talvez o primeiro esteja a ser injustamente perseguido, talvez o segundo queira matar e nós seríamos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada qual apenas corra, por sua própria iniciativa, para a sua cama, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.
E afinal de contas não podemos nós estar cansados, não é verdade que bebemos muito vinho? Estamos contentes por também já não vermos o segundo homem.

                                                                                       Franz Kafka

World Erotic Art Museum



http://travel.spotcoolstuff.com/museums/unusual-museums/weam/

terça-feira, maio 01, 2012



"Las masas humanas más peligrosas son aquellas en cuyas venas ha sido inyectado el veneno del miedo.... del miedo al cambio."


Octavio Paz

LAS PALABRAS



                  Octavio Paz 

Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas sus palabras.

quinta-feira, abril 26, 2012


WASABI

William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram):

“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

Ernest Hemingway sobre William Faulkner

“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”



terça-feira, abril 24, 2012

El sueño

Si el sueño fuera (como dicen) una
tregua, un puro reposo de la mente,
¿por qué, si te despiertan bruscamente,
sientes que te han robado una fortuna?

¿Por qué es tan triste madrugar? La hora
nos despoja de un don inconcebible,
tan íntimo que sólo es traducible
en un sopor que la vigilia dora

de sueños, que bien pueden ser reflejos
truncos de los tesoros de la sombra,
de un orbe intemporal que no se nombra

y que el día deforma en sus espejos.
¿Quién serás esta noche en el oscuro
sueño, del otro lado de su muro?

Jorge Luís Borges

segunda-feira, abril 23, 2012



“Truly fine poetry must be read aloud. A good poem does not allow itself to be read in a low voice or silently. If we can read it silently, it is not a valid poem: a poem demands pronunciation. Poetry always remembers that it was an oral art before it was a written art. It remembers that it was first song.”


Jorge Luis Borges

http://thehumanities.com/2011/01/26/the-unknown-jorge-luis-borges/

quinta-feira, abril 19, 2012

Sobre o "Trópico de Câncer"



"O efeito da censura sobre aquele meu título, interditando, como é óbvio, a sua difusão, transformou-o numa obra clandestina - e se a venda registou dificuldades, a verdade é que também semelhante obstáculo, através da recomendação oral, lhe assegurou a maior publicidade. É susceptível de ser encontrado nas bibliotecas de quase todos os colégios de nomeada, os professores recomendam-no muitas vezes aos estudantes - e, pouco a pouco, colocou-se a par de outras obras literárias célebres, as quais, anteriormente interditas e perseguidas, são hoje tidas como clássicas. O meu livro agrada particularmente aos jovens e de maneira nenhuma (apoiando-me no que apuro directa ou indirectamente) os não deixou por terra, afectando-lhes a vida, mas antes pelo contrário, lhes reforçou a moral. Numa palavra: este livro é prova evidente de que a censura se condena a si própria. Ou ainda: o facto em questão (isto é, o meu livro) mais uma vez demonstra que os únicos que se podem dizer protegidos pela censura são unicamente os próprios censores - e isso simplesmente devido a uma lei natural bem conhecida por todos quantos lhe não podem resistir."

IN "Obscenidade e reflexão", de Henry Miller

quarta-feira, abril 18, 2012

Henry David Thoreau

(excerto de um livro escrito em 1854)

ONDE VIVI E PARA QUE VIVI

"O gosto infantil e selvagem dos homens e mulheres por novos modelos conduz a diversos meneios e estrabismos através de caleidoscópios, para se descobrir a particular figura que esta geração deseja nos dias de hoje. Os fabricantes compreenderam que este gosto é um mero capricho. De dois modelos que diferem em apenas certos fios de uma cor particular, um deles será vendido de imediato e o outro permanecerá na prateleira, apesar de ocorrer com frequência que, depois de lapso de uma estação, o segundo fique mais tarde muito mais na moda. Comparativamente, a tatuagem não é o hábito horrendo que por vezes se considera. Não é bárbaro apenas porque a gravação é feita à superfície da pele e é inalterável.
Não sou capaz de acreditar que o nosso sistema de produção é o melhor modo através do qual os homens têm acesso à roupa. A condição dos operários está a tornar-se, a cada dia que passa, mais semelhante à dos operários ingleses, o que não é de estranhar, já que, por tudo o que tenho ouvido ou visto, o principal objectivo não é que a humanidade possa apresentar-se bem vestida e de forma honesta, mas sim, inquestionavelmente, que as corporações possam enriquecer. Os homens alcançam, a longo prazo, somente aquilo que ambicionam. Assim sendo, apesar de, a curto prazo, poderem falhar, fariam melhor se almejassem algo num patamar mais elevado".

Henry David Thoreau (Concord, Massachusetts, 1817 - 1862)

segunda-feira, abril 09, 2012

Gallery Beyond Calligraphy


水 (みず, mizu, i.e. “water”)
水 (みず, mizu, i.e. “water”), semi cursive style (行書, ぎょうしょ, gyōsho) of the character “water”, emphasising its supple and nourishing nature, but at the same time its unpredictable powers. Ink on paper, calligraphy by Ponte Ryūrui (品天龍涙).

Porque voa sempre uma mosca no quarto ao lado



Investigou-a pelo canto do olho e num gesto de repulsa cuspiu para o chão. O olhar dele era de desdém. Alguém roubara-lhe o pito e com certeza que fora aquela criatura de falinhas mansas que desatina facilmente e que o apunhala pelas costas num ápice se assim for caso disso. Isto dito pelos elegantes elefantes que caminham à minha frente, pela frase adentro, de trombas dadas ao encalce da estrada de pedra que vai dar ao pontão situado na extremidade norte da folha minha. Estilhaçam-me a escrita, fazem-na partir-se e emergir sobre uma sopa de letras que não apazigua a santa que me observa complacentemente do tocador. O véu que me desvenda o rosto e a negritude dos olhos dela é o petróleo que me emociona e não mais me atemoriza. As palavras que escrevo estão lá à frente, sempre um passo mais à frente, cochichando as letras mais à frente até a gata chamar-lhes à razão. Fita-as sem amargura. Conhece-as mas assim muito pouco. Creio na sinceridade das palavras e sigo em marcha em prol de forças maiores, da minha e da vontade dos outros pois sem eles não seria nada ou pouco seria ou a relação do nada que ignora o cúmulo de se precisar de alguém, quanto mais se não for para pensar. Se quer a mosca voar livremente pelo quarto, deixa-a voar.

segunda-feira, abril 02, 2012

quinta-feira, março 29, 2012

O Jardineiro do Convento

In "História Eróticas", de Giovanni Boccaccio




"Masetto da Lamporechio finge que é mudo e torna-se jardineiro num convento de freiras. Todas elas fazem por dormir com ele."



" (...) - Senhora minha - disse -, ao que tenho ouvido um galo basta para satisfazer dez galinhas mas dez homens só dificilmente satisfazem uma mulher. Não posso, portanto, contentar nove sem risco da própria vida. O que tenho feito até agora deixou-me em tal estado que me sinto incapaz de fazer o que quer que seja.         Por isso ou me deixais ir na graça de Deus ou arranjai as coisas pelo melhor.
Ao ouvir falar Masetto, a quem julgava mudo, a dama ficou estupefacta.
- O que é isso? Julgava que eras mudo.
- É verdade, Senhora, mas não de nascença. Uma doença privou-me da fala e esta noite esse bem foi-me restituído, o que agradeço a Deus de todo o coração.
A dama acreditou no que ele dizia, mas quis saber o que significava aquilo das nove mulheres a contentar. Masetto confessou tudo."

quarta-feira, março 28, 2012

Richard Avedon (photographer)

A Distância da Lua

"O nosso trabalho era este: no barco levávamos uma escada de madeira: um segurava-a, outro subia e outro ainda aos remos impedia o barco até a escada ficar mesmo debaixo da Lua; para isso tínhamos que ser muitos (só nomeei os principais). O que estava no alto da escada, quando o barco se aproximava da Lua, gritava assustado: «Alto! Alto, senão dou uma cabeçada!» Era a impressão que dava, ao vê-la mesmo em cima tão enorme, tão acidentada de bicos cortantes e arestas cheias de rebarbas e em serra. Agora deve ser diferente, mas nessa altura a Lua, ou melhor, o fundo, o ventre da Lua, em resumo a parte que passava mais perto da Terra até quase raspar por ela, estava coberta por uma crosta de escamas pontiagudas. Tinha vindo a ficar parecida com o ventre de um peixe, e até o cheiro, pelo que me lembro, senão mesmo de peixe era só uma poucochinho mais ténue, como o salmão fumado".

In "Todas as Cosmicómicas", Italo Calvino

terça-feira, março 27, 2012

Tarde de Verão




Amadas as belas loucas tardes de Domingo
Que passo com ela no cúbico
É linda ela!
E gosto de como a luz não entra 
E de como a escuridão não sai
Improviso algumas piadas que a façam rir
Pois gosto que ela sorria...

Ou não?

Bela é a tarde de Verão.


Gordo

Caetano (exercício)


Uma mulher de pele escura atravessou-se à sua frente, exibindo um colorido turbante no cima da cabeça. Sentiu o seu aroma e desejou possuí-la, ali mesmo, no largo do Chiado. Decerto que os transeuntes não se importariam de ver os seus corpos cantar o fado ao amanhecer. Caetano andava sempre com o cabelo arranjadinho, as unhas castanhas do surro, o fecho das calças aberto e dele uma pila a apanhar ar fresco. Adorava vê-las passear e imaginar-lhes a cona. Camões não o recriminaria, era o seu fiel companheiro, estava ali para apoiá-lo nas horas do vinho. Além disso, a seu ver, todas eram esbeltas, fossem gordas, anafadas, magras, esqueléticas. Em todas era capaz de enfiar o seu besugo e desejava-o tanto, ansiava-o tanto... Mas coitado do Caetano... morreu virgem.





Desenho "Agarra-me", de Tagas

segunda-feira, março 26, 2012

O Estatuto do Vinho

de Pablo Neruda

Quando em regiões, quando em sacrifícios
manchas sanguíneas como chuvas caem,
o vinho abre as portas com assombro,
e no refúgio dos meses vai voando
seu corpo de empapadas asas rubras.

Os pés roçam nas telhas, nas paredes
com humidade de línguas submergidas,
e sobre o fio do dia desnudado
caem em gotas as suas abelhas.

Eu sei que o vinho não deserta aos gritos
quando chega o inverno,
nem se esconde em igrejas tenebrosas,
buscando o fogo em panos despenhados,
mas voa, sim, sobre a estação,
sobre o inverno que chegou agora
com um punhal entre os cílios duros.

Eu vejo vagos sonhos,
eu enxergo longe,
e olho à minha frente, além dos vidros,
reuniões de roupas infelizes.

A elas a bala do vinho não chega,
a papoila eficaz, o raio rubro
morrem afogados em tristes tecidos,
e derrama-se por canais solitários,
por húmidas ruas, em rios sem nome,
o vinho amargamente submergido,
o vinho cego e solitário e só.

Eu estou de pé na sua espuma e nas suas raízes,
choro na sua folhagem, nos seus mortos,
acompanhado de alfaiates caídos
no meio do inverno desonrado,
subo por escadas de humidade e sangue
tacteando as paredes,
e na agonia do tempo que chega
sobre uma pedra eu ajoelho e choro.

E para túneis agrestes me encaminho
de metais transitórios revestido,
para adegas vazias, para sonhos,
para betumes verdes que palpitam,
para ferrarias desinteressadas,
para sabores de lodo e de garganta,
para imperecíveis borboletas.

Então surgem os homens do vinho
vestidos com vermelhos cinturões
e chapéus de abelhas derrotadas,
e trazem taças cheias de olhos mortos,
e terríveis espadas de salmoira,
e com roucas buzinas se respondem
cantando cantos de intenção nupcial.

Eu gosto do canto rouco dos homens do vinho,
e do ruído de molhadas moedas sobre a mesa,
e do cheiro de sapatos e uvas,
e de vómitos verdes:
gosto do canto cego desses homens,
e do som de sal que martela
as paredes da aurora moribunda.

Falo de coisas que existem. Deus me livre
de inventar coisas quando canto!
Falo da saliva derramada nas paredes,
falo de lentas meias de rameira,
falo do coro dos homens do vinho
batendo no caixão com um osso de pássaro.

Estou no meio desse canto, no meio
do inverno que rola pelas ruas,
estou no meio dos bebedores,
com os olhos abertos para esquecidos lugares,
ou recordando um deliberante luto,
ou dormindo em cinzas já por terra.

Recordando noites, navios, sementeiras,
amigos falecidos, circunstâncias,
amargos hospitais e meninas que florescem,
recordando um bater de onda em certa rocha
com um adorno de farinha e espuma,
e a vida que se faz em certos países,
em certas costas solitárias,
um ecoar de estrelas nas palmeiras,
um bater do coração nos vidros,
um comboio negro que passa com rodas malditas
e muitas coisas tristes deste género.

À humidade do vinho, nas manhãs,
nas paredes amiúde mordidas pelos dias de inverno
que tombam em adegas por certo solitárias,
a essa virtude do vinho chegam lutas,
e cansados metais e surdas dentaduras,
e há um tumulto de objecções destroçadas,
há um furioso pranto de garrafas e
e um crime, como um chicote caído,

O vinho crava os seus espinhos negros,
e os ouriços lúgubres passeia
entre navalhas, entre meias-noites,
entre roucas gargantas arrastadas,
entre charutos e torcidos cabelos,
e como onda do mar a sua voz aumenta
uivando pranto e dedos de cadáver.

E então corre o vinho perseguido
e os obstinados odres se desfazem
contra as ferraduras, e vai o vinho em silêncio,
e os tóneis, em feridos barcos onde o vento morde

rostos, tripulações de silêncio,
e o vinho foge pelas estradas,
pelas igrejas, por entre os carvões
deixa cair as plumas do amaranto,
e disfarça-se de enxofre a sua boca,
e o vinho ardendo entre ruas gastas
à procura de poços, de túneis e formigas,
bocas de tristes mortos,
por onde alcançar o azul da terra
onde se confudem a chuva e os ausentes.
A caixa de fósforos ergueu-se firme sobre o estrado de madeira e deu à luz milhões de fósforos nus no monte de palha seca.

domingo, março 25, 2012

 
a lontra e os monges

Queriam comer-me a cartilagem aqueles monges safados que no outro dia se atravessaram no meu caminho. Visitei o mar nessa manhã. Sentei-me na areia e abri os braços à lontra que corria gorda e com um herpes no lábio na minha direcção. Mas quando olhei para trás e vi a minha cidade dentro de um cortiço em forma de estômago assustei-me. Parecia apertada e ofereci-lhe um sopro. Agradeceu-me e virou sapo e fugiu. Quando me virei, a lontra ia longe e o mar soltava vagas tristes.
Não me lembro de acordar nessa manhã, nem de adormecer no dia anterior. Mas tenho a vaga ideia de me ter esquecido do casaco em casa e como estava frio resolvi pedir o pêlo de um gato vadio emprestado. Mas só de pensar naqueles sacanas tenho vontade de caçar o dromedário aprumado que passeia junto a mim com uma boina turca sobre a bossa. Não me falou... é verdade... e por pouco que os seus cascos maçudos não me fazem mossa na cabeça, e apagam os monges que me quiseram trincar a cartilagem.

sumo de uva

No céu cavalos brancos de pernas longas lutam exaustivamente com o vício que lhes aponta o dedo. Ouve-se o sopro de um homem que se ergueu nu no topo de um relógio, segurando na mão uma cruz de madeira. Luísa está no centro do altar presa a uma criatura miúda e frágil com orelhas entrançadas e seios minguados que veste um traje medieval com uma corda atada à cintura. Verte no copo línguas de uvas pisadas e junta as mãos em sinal de oração. No cimo, um caixão dourado, reluzente, com duas cabeças tortas dentro e a palavra «imortalidade» inscrita num dos lados do caixão. Da sombra assoma uma linda mão de mulher que lhe esmaga o crânio até este dar sumo. 

sábado, março 24, 2012

"Sim....Sim...!"

"o poeta é a merda do universo: possui todas as características do dejecto. Concentra em si a digestão do gesto; a genofagia do êxtase; a plasto_contracção do fluído; a cagoécia espan_torreica do astro; a feno_inflação do susto; a culo_táctica alviltrante do entre; a conges_tomatia da fúria; a subru_ptura do esfincter; a tirano contúcia do tesão; a espro_tuberância dos dedos; a ultra_fragância cliotoriana da nuvem; a proto_putática do cio; a venusiana contursão do ingesto; o factócio odor da pituito_gonoraica alga; a fundibular arrogância do ronco; a inco_butência lacunar do humor; a factoécia consistência da cístole; o infrutífero agosto do genefágio; o estro da alti_contur_bância da bacia;a penis implacência da pes_nínsula; a fictofinura insinular da inflo_strutura; o oginato fulgor do anão anal; a para_pirotécnica do sobre; a ficta inflogestão do gestual subje_ctinvo; o adjecto fragor do estrondo; a fúricaarragância do cilindro; a exalo ternura da ubstância mole; o facto falância mulhada; o duro durão do melotão; a igno rrância das bactárias; a ultra pante_rroico fulminância; a coiso coisíssima nenhuma."

Poesia Erótica E. M. De Melo e Castro

sexta-feira, março 23, 2012

Gavetas

Não é fácil escrever os sentimentos que nos fazem ajoelhar e crer na pequeneza humana. Mas ainda acredito na constelação mais bela e harmoniosa do Universo. Porque nada desaparece, é apenas comutado, substituído. Crescem árvores novas sobre as mais antigas, e na memória as que morreram continuam vivas. Ao fim de tantos anos, o espaço íntimo sublevou-se, individualizou-se, arrastando consigo as possíveis errâncias que o destino cruel teima em invocar. Por conseguinte, a separação tornou-se inevitável, à luz de parêntesis obscuros, que nos fazem optar por caminhos diferentes; e nada é durável, tudo muda, tudo é foi, nada acontece, escreveu o escritor; a girafa está em chamas, assustada. «Permitirei o incêndio das chamas refulgentes no meu corpo? Ou estarei queimada antes mesmo do incêndio deflagrar?» Daí questionar-me sobre o que é, e não é, definitivo. Quem nos comanda? O que nos garante? O futuro? Sigo em frente, meio absorta, atribulada, tropeçando aqui e ali, deixando cair o cortinado da vizinha. Contudo, num instante sombrio, penso e revejo-me nas minhas entranhas, revolto-me contra mim e pontapeio o estômago vazio. O passado atordoa-me. Enjoa-me pensar que a compreensão ficou algures lá para trás. Nunca me apontou um dedo. Não havia queixas, reclamações, exigências, nem lamentos. Existia, sim, plena aceitação mútua; se alguém travava conversa comigo, travava conversa também contigo. Chorei durante meses. Hoje não. Aprendi a aceitar e a compreender mas o sentimento de angústia, esse carregarei comigo para o resto da vida. No fundo, sou cobarde, débil, irresoluta, vacilante, e pior do que ser cobarde, é sê-lo conscientemente. Talvez a vida não tenha qualquer sentido palpável. Por isso escrevo, escrevo muito, escrevo sem pensar no que escrevo, escrevo sem segundas intenções, sem necessidades de rodeios asneados. Não obstante, a essência estará lá, sempre, crescemos, diferenciamo-nos. Creio, talvez erroneamente, que nada mudou, que somos felizes.

Donkeys

Donkeys 2 - Black & White Film

Excerto de "A Peste Escarlate"

"- Sois selvagens, verdadeiros selvagens. Se a moda já exige colares de dentes humanos, a próxima geração há-de furar o nariz e as orelhas e adornar-se com ossos de animais e conchas. Não tenho dúvidas quanto a isso. A espécie humana está condenada a mergulhar cada vez mais na noite primitiva, antes de recomeçar um dia a sua ascensão sangrenta para a civilização. O solo, hoje, é muito vasto para os poucos homens que nele sobrevivem. Mas esses homens hão-de crescer e multiplicar-se, e daqui a algumas gerações acharão a terra demasiado estreita e matar-se-ão uns aos outros. Isto é fatal. Usarão à cintura os escalpos dos inimigos, como tu, Edwin, que és o mais amável dos meus netos, ostentas na orelha esse horroroso rabo de porco. Deita-o fora, meu filho, atira-o para longe!"

In "A Peste Escarlate", de Jack London.

quinta-feira, março 22, 2012

O Traço




Ela é o traço que alimenta o galo e o perfil do senhor de bigode mexicano.


http://cargocollective.com/gordoletters/Letters 


A senhora de arco em flecha. Serafina procura amêijoas nas pausas de expediente. O rio aos seus pés é percetível pelo chão transparente do gabinete do procurador. Inquieta-a o movimento esquizofrénico dos moluscos, e as bocas deles que parecem canais de sargaço embriagados, escoltados por uma baleia de armadura veludo verde coberto de pó.






Limpeza. Necessita de dinheiro para alimentar os dois filhos e o vício dos detergentes, e a apanha da amêijoa é uma boa maneira de orientar mais algum dinheiro por fora. Para alguém com a mania das limpezas não é fácil enterrar todos os dias os pés na lama e chegar a casa e ter as mãos esgravatadas das conchas e ainda ter dar de comer aos dois gémeos siameses. Durante as pausas de almoço os sapatos de salto fino sujos de lama são um fardo económico ao final do mês. A areia mascavada não ajuda mas apanha-as às dezenas com uma só apanha. Vale-lhe a audição pois ouve os traços que as amêijoas fazem na areia








O sonho. Tem dias em que pensa partir o vidro que a separa do rio com o salto fino sujo de lama; sair num sítio onde pudesse pisar a areia mole sem se magoar e ver o céu estrelado numa cadeira de escritório insuflável.

                                          




O rabo. Mas o assento é pequeno demais para acomodar aquele rabo em forma de coração, gordalhufo e falador. Remexe-se por isso frequentemente, tentando encontrar a posição mais confortável depois de oito horas passadas em frente ao computador. Descruza as pernas, liga o fax, envia finalmente o relatório já revisto para a sede, desliga a luz e sai.


LETRAS GORDO 

THE SOMBRERO GALAXY


http://www.acclaimimages.com/_gallery/_pages/0124-1009-2114-2759.html 

“There are no facts, only interpretations.”


Friedrich Nietzsche

quarta-feira, março 21, 2012

30 story hotel in China built in just 15 days

New documentary about an 85-year old sushi master

Tree-Climbing Goats of Morocco

Tree Climbing Goats of Morocco 

Meu Universo Mozart

A noite abeirou e com ela uma infinidade de estrelas presas ao céu. O palco, a música e os espectadores fundiam-se numa harmonia existencial sublime capaz de vergar o espírito mais pobre ao entendimento perfeito do ser. Teresa, com os olhos semicerrados, assistiu ao concerto da varanda, nua e com uma touca verde na cabeça. Prestes a mergulhar num estado permanente de demência, a música do maestro absorveu-lhe as últimas gotas de lucidez e Teresa desembocou no mundo das notas que tocavam no ar, e de braços estendidos, como se abraçasse o palco, alcançava a claridade do conhecimento retorcido através da melodia morosa e chorava. Cria que a vida nasce só para alguns; (os outros) ficam esquecidos. Um bando de gaivotas pretas galhofava ruidosamente, antevendo a desgraça que pode irromper a qualquer um, a qualquer hora. Mas Teresa e os espectadores mantiveram-se firmes, absorvidos pelo compasso gradual da música. O sofrimento crescia de tom, os espectadores gemiam e suavam silenciosamente. Teresa não queria acreditar no que sentia. Estava eufórica com a dor que a consumia por dentro e que finalmente conferia sentido à sua existência. Afinal, como todos os outros, sofria, chorava e gemia. 

Meu universo Mozart[1]
I
Meu universo Mozart
De onde eu parto
Meu fundo ter de mim
Com seu invento

Meu fundo me afundar
Com seu palácio
Minha breve loucura
Com seu vento

Minha música-corpo
Meu orgasmo
Minha fuga meu mundo
Meu sustento

Meu universo Mozart
Meu retrato
Meu suicídio lento
Muito lento

[1] Cadernos de Poesia, Maria Teresa Horta, Minha Senhora de mim, Publicações Dom Quixote.

terça-feira, março 20, 2012

Origami Duck








Origami Duck. O pato negro vai lindo pelo passeio acima. A cabeça lisa, o bico chato, o papo comprido mais as duas patas desajeitadas que caminham prudentemente sobre a calçada. A pena que encaracola na cauda diverte-se namorando suavemente as bordas da folha. As asas feitas de papel cobrem-se da geada. E, de costas voltadas para o pato, o luar cai em pranto.


O Fantástico e o Misterioso no Japão

"Tendo apenas uma espessura de cabedal entre o assento do homem e os meus joelhos, quase podia sentir o calor do corpo dele. Quanto aos ombros, largos e musculosos, pesavam sobre o meu peito, e os seus dois braços apoiavam-se sobre os meus. Eu podia imaginá-lo a fumar um charuto, pois o cheiro forte do tabaco me chegava às narinas."

In, "O Fantástico e o Misterioso no Japão", Edogawa Rampo
O que será pior para uma ideia do que a sua própria ideia ser esquecida? E porque será que nos debatemos com outras ideias quando, à partida, elas estão condenadas à nascença e ao esquecimento. É a minha ideia e as outras que surgem depois dela, por vezes caladas ou insensatas, que fazem o meu organismo regular-se, podendo também essa ideia ser susceptível de estimular o meu estômago impaciente de fruta. O inseto vizinho escova os dentes a olhar para mim. E também ele parece impaciente. Quem julga que é para me olhar desta maneira? Os seus olhos redondos e em bico transmitem uma nostalgia demasiado peganhenta ou então a sensação de narinas com pelo que não tiram os olhos de cima de nós quando se mostram constipadas. Eu chamo-me Râ…Rii… Porra! Esqueci-me do meu nome outra vez. Mas voltando ao inseto que continua especado a olhar para mim. Creio que está zangado com a mosca que não pára de zumbir aos nossos ouvidos. É por isso que olha para mim. Talvez queira que eu vá buscar o mata-moscas à gaveta e que num gesto sagaz aniquile o pobre do bicho que bate inadvertidamente a cabeça contra a janela onde come. Mas ele sabe que eu seria incapaz. Pessoa de nome incerto. Incapaz de matar uma formiga. E, no entanto, apago tantas ideias da memória, um agora poço profundo, sem fim à vista, que me lembra constantemente quem sou. Pessoa de nome incerto.

Abstracionismo

LETRA A.
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A Torre. Passaram-se centro e trinta anos e o acampamento de refugiados visto do centésimo andar da torre parece um desenho labiríntico onde os homens do tamanho de formigas operam e trilham caminhos por entre a selvajaria humana. A torre erguida estrategicamente no centro da cidade pertence ao gang do quadrado, a máfia que controla o tráfico de ouro-marinho do pacífico sul. É uma torre construída em vidro flutuante num movimento em espiral que parece nascer do solo, com a força de uma raiz, estimulando o crescimento ascendente da planta que se inclina no topo como plasticina e tomba ligeiramente, deixando descair a lupa que vigia, em exercício informático rotatório, o comportamento da cidade que se move a cada instante.

sábado, março 17, 2012

A CÂNDIDA E O LUÍS

Quando se achou vento e seguiu, Cândida corou as faces lisas. Há cerca de dois dias, cruzou-se com o Luís na rua. Sorriu-lhe, embaraçada, mesmo tendo os lábios dormentes. “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando viu o Luís, Cândida corou com o vento. Sorriu, com os lábios dormentes e “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando a Cândida corou de vergonha, sorriu. E o vento levou-a. Coitada. Mesmo à beira do Luís. O Luís, por outro lado, corou as faces tremidas e baixou a cabeça, embaraçado. “Claro!”, pensou ele. “Não me viu de certeza...”. Cruzaram-se na rua. A Cândida e o Luís. Coraram e sorriram e pensaram “Claro!”, “Não me viu de certeza...”

sexta-feira, março 16, 2012

O Crime (excerto)

Ah! Herodes choraria de pena se tivesse escrito a Bíblia e como se comoveram os negreiros que tenham tido a ventura de ler "A Cabana do Pai Tomás! ou os que modernamente viram a versão de celuloide! Sensibiliza-nos mais a ilusão do que a própria realidade! Choca-nos um filme ou um livro sobre a miséria e a fome, que passam indiferentes ao nosso lado. Que verdade há na descrição da morte de um homem soterrado numa mina se não estamos com ele e a sua dor se encontra tão distante? Começo a deitar abaixo as prateleiras cheias de livros e rasgo-os enchendo o quarto de páginas que esvoaçam...

- Mentiras! Tudo mentiras! Vendilhões! Comerciantes!

Ah! Que sei eu do que escrevo? Falhei! Sonho que agrido o editor e o vendedor de livros com uma pesada encadernação do Gil Blas Santillana que nada vale a não ser a brochura e que os meto à força no meio de uma edição folhetinesca capaz de fazer chorar as pedras. Para conhecerem bem o que editam vão ser comidos pela traça e eu divirto-me a ouvi-los prometer gordas edições ilustradas e o melhor lugar nas prateleiras das livrarias. Depois agarro numa caixa de fósforos decidido a arder em bonzo, quando me surge a ideia. Por que não? Fecho a porta do quarto, desço as escadas a correr e saio para a rua. Pego no meu manuscrito que nunca abandono pondo-o como isca na beira da calçada. Deixo-o aberto e escondo-me no vão da escada. Por Deus! Ah! Que longa espera! Até que ele chega... sim! E como me despreza! Levanta o manuscrito do chão e folheia-o indiferente, atirando-o depois de novo para o solo. Salto do vão da escada e caio-lhe raivoso em cima! Oh!, Céus! Odeio-o! Odeio-o! Sinto a ferida que o aguilhão da indiferença e do desdém me abre na carne e, não podendo mais, deito-lhe a mão ao pescoço e estrangulo-o quando só desejava que ele reparasse em mim!...
Desço lentamente até ao chão de joelhos e pego fogo à roupa. Ao arder, choro amargamente arrependido.

- Oh! Meu Deus! Que estúpido sou! Agora que matei o leitor que gesto inútil não é suicidar-me?

Miguel Barbosa, in "Esta Louca Profissão de Escritor", páginas 36 e 37, Colecção Passo a Palavra, Livraria Ler Editora