"Refugio-me, aliás, quase sempre nos mesmos livros, no fundo, um número pequeno, o dos livros para mim já comprovados. Talvez não faça parte da minha maneira de ser ler muitas coisas e muito diversas: uma sala de leitura põe-me doente.", Nietzsche

quinta-feira, março 29, 2012

O Jardineiro do Convento

In "História Eróticas", de Giovanni Boccaccio




"Masetto da Lamporechio finge que é mudo e torna-se jardineiro num convento de freiras. Todas elas fazem por dormir com ele."



" (...) - Senhora minha - disse -, ao que tenho ouvido um galo basta para satisfazer dez galinhas mas dez homens só dificilmente satisfazem uma mulher. Não posso, portanto, contentar nove sem risco da própria vida. O que tenho feito até agora deixou-me em tal estado que me sinto incapaz de fazer o que quer que seja.         Por isso ou me deixais ir na graça de Deus ou arranjai as coisas pelo melhor.
Ao ouvir falar Masetto, a quem julgava mudo, a dama ficou estupefacta.
- O que é isso? Julgava que eras mudo.
- É verdade, Senhora, mas não de nascença. Uma doença privou-me da fala e esta noite esse bem foi-me restituído, o que agradeço a Deus de todo o coração.
A dama acreditou no que ele dizia, mas quis saber o que significava aquilo das nove mulheres a contentar. Masetto confessou tudo."

quarta-feira, março 28, 2012

Richard Avedon (photographer)

A Distância da Lua

"O nosso trabalho era este: no barco levávamos uma escada de madeira: um segurava-a, outro subia e outro ainda aos remos impedia o barco até a escada ficar mesmo debaixo da Lua; para isso tínhamos que ser muitos (só nomeei os principais). O que estava no alto da escada, quando o barco se aproximava da Lua, gritava assustado: «Alto! Alto, senão dou uma cabeçada!» Era a impressão que dava, ao vê-la mesmo em cima tão enorme, tão acidentada de bicos cortantes e arestas cheias de rebarbas e em serra. Agora deve ser diferente, mas nessa altura a Lua, ou melhor, o fundo, o ventre da Lua, em resumo a parte que passava mais perto da Terra até quase raspar por ela, estava coberta por uma crosta de escamas pontiagudas. Tinha vindo a ficar parecida com o ventre de um peixe, e até o cheiro, pelo que me lembro, senão mesmo de peixe era só uma poucochinho mais ténue, como o salmão fumado".

In "Todas as Cosmicómicas", Italo Calvino

terça-feira, março 27, 2012

Tarde de Verão




Amadas as belas loucas tardes de Domingo
Que passo com ela no cúbico
É linda ela!
E gosto de como a luz não entra 
E de como a escuridão não sai
Improviso algumas piadas que a façam rir
Pois gosto que ela sorria...

Ou não?

Bela é a tarde de Verão.


Gordo

Caetano (exercício)


Uma mulher de pele escura atravessou-se à sua frente, exibindo um colorido turbante no cima da cabeça. Sentiu o seu aroma e desejou possuí-la, ali mesmo, no largo do Chiado. Decerto que os transeuntes não se importariam de ver os seus corpos cantar o fado ao amanhecer. Caetano andava sempre com o cabelo arranjadinho, as unhas castanhas do surro, o fecho das calças aberto e dele uma pila a apanhar ar fresco. Adorava vê-las passear e imaginar-lhes a cona. Camões não o recriminaria, era o seu fiel companheiro, estava ali para apoiá-lo nas horas do vinho. Além disso, a seu ver, todas eram esbeltas, fossem gordas, anafadas, magras, esqueléticas. Em todas era capaz de enfiar o seu besugo e desejava-o tanto, ansiava-o tanto... Mas coitado do Caetano... morreu virgem.





Desenho "Agarra-me", de Tagas

segunda-feira, março 26, 2012

O Estatuto do Vinho

de Pablo Neruda

Quando em regiões, quando em sacrifícios
manchas sanguíneas como chuvas caem,
o vinho abre as portas com assombro,
e no refúgio dos meses vai voando
seu corpo de empapadas asas rubras.

Os pés roçam nas telhas, nas paredes
com humidade de línguas submergidas,
e sobre o fio do dia desnudado
caem em gotas as suas abelhas.

Eu sei que o vinho não deserta aos gritos
quando chega o inverno,
nem se esconde em igrejas tenebrosas,
buscando o fogo em panos despenhados,
mas voa, sim, sobre a estação,
sobre o inverno que chegou agora
com um punhal entre os cílios duros.

Eu vejo vagos sonhos,
eu enxergo longe,
e olho à minha frente, além dos vidros,
reuniões de roupas infelizes.

A elas a bala do vinho não chega,
a papoila eficaz, o raio rubro
morrem afogados em tristes tecidos,
e derrama-se por canais solitários,
por húmidas ruas, em rios sem nome,
o vinho amargamente submergido,
o vinho cego e solitário e só.

Eu estou de pé na sua espuma e nas suas raízes,
choro na sua folhagem, nos seus mortos,
acompanhado de alfaiates caídos
no meio do inverno desonrado,
subo por escadas de humidade e sangue
tacteando as paredes,
e na agonia do tempo que chega
sobre uma pedra eu ajoelho e choro.

E para túneis agrestes me encaminho
de metais transitórios revestido,
para adegas vazias, para sonhos,
para betumes verdes que palpitam,
para ferrarias desinteressadas,
para sabores de lodo e de garganta,
para imperecíveis borboletas.

Então surgem os homens do vinho
vestidos com vermelhos cinturões
e chapéus de abelhas derrotadas,
e trazem taças cheias de olhos mortos,
e terríveis espadas de salmoira,
e com roucas buzinas se respondem
cantando cantos de intenção nupcial.

Eu gosto do canto rouco dos homens do vinho,
e do ruído de molhadas moedas sobre a mesa,
e do cheiro de sapatos e uvas,
e de vómitos verdes:
gosto do canto cego desses homens,
e do som de sal que martela
as paredes da aurora moribunda.

Falo de coisas que existem. Deus me livre
de inventar coisas quando canto!
Falo da saliva derramada nas paredes,
falo de lentas meias de rameira,
falo do coro dos homens do vinho
batendo no caixão com um osso de pássaro.

Estou no meio desse canto, no meio
do inverno que rola pelas ruas,
estou no meio dos bebedores,
com os olhos abertos para esquecidos lugares,
ou recordando um deliberante luto,
ou dormindo em cinzas já por terra.

Recordando noites, navios, sementeiras,
amigos falecidos, circunstâncias,
amargos hospitais e meninas que florescem,
recordando um bater de onda em certa rocha
com um adorno de farinha e espuma,
e a vida que se faz em certos países,
em certas costas solitárias,
um ecoar de estrelas nas palmeiras,
um bater do coração nos vidros,
um comboio negro que passa com rodas malditas
e muitas coisas tristes deste género.

À humidade do vinho, nas manhãs,
nas paredes amiúde mordidas pelos dias de inverno
que tombam em adegas por certo solitárias,
a essa virtude do vinho chegam lutas,
e cansados metais e surdas dentaduras,
e há um tumulto de objecções destroçadas,
há um furioso pranto de garrafas e
e um crime, como um chicote caído,

O vinho crava os seus espinhos negros,
e os ouriços lúgubres passeia
entre navalhas, entre meias-noites,
entre roucas gargantas arrastadas,
entre charutos e torcidos cabelos,
e como onda do mar a sua voz aumenta
uivando pranto e dedos de cadáver.

E então corre o vinho perseguido
e os obstinados odres se desfazem
contra as ferraduras, e vai o vinho em silêncio,
e os tóneis, em feridos barcos onde o vento morde

rostos, tripulações de silêncio,
e o vinho foge pelas estradas,
pelas igrejas, por entre os carvões
deixa cair as plumas do amaranto,
e disfarça-se de enxofre a sua boca,
e o vinho ardendo entre ruas gastas
à procura de poços, de túneis e formigas,
bocas de tristes mortos,
por onde alcançar o azul da terra
onde se confudem a chuva e os ausentes.
A caixa de fósforos ergueu-se firme sobre o estrado de madeira e deu à luz milhões de fósforos nus no monte de palha seca.

domingo, março 25, 2012

 
a lontra e os monges

Queriam comer-me a cartilagem aqueles monges safados que no outro dia se atravessaram no meu caminho. Visitei o mar nessa manhã. Sentei-me na areia e abri os braços à lontra que corria gorda e com um herpes no lábio na minha direcção. Mas quando olhei para trás e vi a minha cidade dentro de um cortiço em forma de estômago assustei-me. Parecia apertada e ofereci-lhe um sopro. Agradeceu-me e virou sapo e fugiu. Quando me virei, a lontra ia longe e o mar soltava vagas tristes.
Não me lembro de acordar nessa manhã, nem de adormecer no dia anterior. Mas tenho a vaga ideia de me ter esquecido do casaco em casa e como estava frio resolvi pedir o pêlo de um gato vadio emprestado. Mas só de pensar naqueles sacanas tenho vontade de caçar o dromedário aprumado que passeia junto a mim com uma boina turca sobre a bossa. Não me falou... é verdade... e por pouco que os seus cascos maçudos não me fazem mossa na cabeça, e apagam os monges que me quiseram trincar a cartilagem.

sumo de uva

No céu cavalos brancos de pernas longas lutam exaustivamente com o vício que lhes aponta o dedo. Ouve-se o sopro de um homem que se ergueu nu no topo de um relógio, segurando na mão uma cruz de madeira. Luísa está no centro do altar presa a uma criatura miúda e frágil com orelhas entrançadas e seios minguados que veste um traje medieval com uma corda atada à cintura. Verte no copo línguas de uvas pisadas e junta as mãos em sinal de oração. No cimo, um caixão dourado, reluzente, com duas cabeças tortas dentro e a palavra «imortalidade» inscrita num dos lados do caixão. Da sombra assoma uma linda mão de mulher que lhe esmaga o crânio até este dar sumo. 

sábado, março 24, 2012

"Sim....Sim...!"

"o poeta é a merda do universo: possui todas as características do dejecto. Concentra em si a digestão do gesto; a genofagia do êxtase; a plasto_contracção do fluído; a cagoécia espan_torreica do astro; a feno_inflação do susto; a culo_táctica alviltrante do entre; a conges_tomatia da fúria; a subru_ptura do esfincter; a tirano contúcia do tesão; a espro_tuberância dos dedos; a ultra_fragância cliotoriana da nuvem; a proto_putática do cio; a venusiana contursão do ingesto; o factócio odor da pituito_gonoraica alga; a fundibular arrogância do ronco; a inco_butência lacunar do humor; a factoécia consistência da cístole; o infrutífero agosto do genefágio; o estro da alti_contur_bância da bacia;a penis implacência da pes_nínsula; a fictofinura insinular da inflo_strutura; o oginato fulgor do anão anal; a para_pirotécnica do sobre; a ficta inflogestão do gestual subje_ctinvo; o adjecto fragor do estrondo; a fúricaarragância do cilindro; a exalo ternura da ubstância mole; o facto falância mulhada; o duro durão do melotão; a igno rrância das bactárias; a ultra pante_rroico fulminância; a coiso coisíssima nenhuma."

Poesia Erótica E. M. De Melo e Castro

sexta-feira, março 23, 2012

Gavetas

Não é fácil escrever os sentimentos que nos fazem ajoelhar e crer na pequeneza humana. Mas ainda acredito na constelação mais bela e harmoniosa do Universo. Porque nada desaparece, é apenas comutado, substituído. Crescem árvores novas sobre as mais antigas, e na memória as que morreram continuam vivas. Ao fim de tantos anos, o espaço íntimo sublevou-se, individualizou-se, arrastando consigo as possíveis errâncias que o destino cruel teima em invocar. Por conseguinte, a separação tornou-se inevitável, à luz de parêntesis obscuros, que nos fazem optar por caminhos diferentes; e nada é durável, tudo muda, tudo é foi, nada acontece, escreveu o escritor; a girafa está em chamas, assustada. «Permitirei o incêndio das chamas refulgentes no meu corpo? Ou estarei queimada antes mesmo do incêndio deflagrar?» Daí questionar-me sobre o que é, e não é, definitivo. Quem nos comanda? O que nos garante? O futuro? Sigo em frente, meio absorta, atribulada, tropeçando aqui e ali, deixando cair o cortinado da vizinha. Contudo, num instante sombrio, penso e revejo-me nas minhas entranhas, revolto-me contra mim e pontapeio o estômago vazio. O passado atordoa-me. Enjoa-me pensar que a compreensão ficou algures lá para trás. Nunca me apontou um dedo. Não havia queixas, reclamações, exigências, nem lamentos. Existia, sim, plena aceitação mútua; se alguém travava conversa comigo, travava conversa também contigo. Chorei durante meses. Hoje não. Aprendi a aceitar e a compreender mas o sentimento de angústia, esse carregarei comigo para o resto da vida. No fundo, sou cobarde, débil, irresoluta, vacilante, e pior do que ser cobarde, é sê-lo conscientemente. Talvez a vida não tenha qualquer sentido palpável. Por isso escrevo, escrevo muito, escrevo sem pensar no que escrevo, escrevo sem segundas intenções, sem necessidades de rodeios asneados. Não obstante, a essência estará lá, sempre, crescemos, diferenciamo-nos. Creio, talvez erroneamente, que nada mudou, que somos felizes.

Donkeys

Donkeys 2 - Black & White Film

Excerto de "A Peste Escarlate"

"- Sois selvagens, verdadeiros selvagens. Se a moda já exige colares de dentes humanos, a próxima geração há-de furar o nariz e as orelhas e adornar-se com ossos de animais e conchas. Não tenho dúvidas quanto a isso. A espécie humana está condenada a mergulhar cada vez mais na noite primitiva, antes de recomeçar um dia a sua ascensão sangrenta para a civilização. O solo, hoje, é muito vasto para os poucos homens que nele sobrevivem. Mas esses homens hão-de crescer e multiplicar-se, e daqui a algumas gerações acharão a terra demasiado estreita e matar-se-ão uns aos outros. Isto é fatal. Usarão à cintura os escalpos dos inimigos, como tu, Edwin, que és o mais amável dos meus netos, ostentas na orelha esse horroroso rabo de porco. Deita-o fora, meu filho, atira-o para longe!"

In "A Peste Escarlate", de Jack London.

quinta-feira, março 22, 2012

O Traço




Ela é o traço que alimenta o galo e o perfil do senhor de bigode mexicano.


http://cargocollective.com/gordoletters/Letters 


A senhora de arco em flecha. Serafina procura amêijoas nas pausas de expediente. O rio aos seus pés é percetível pelo chão transparente do gabinete do procurador. Inquieta-a o movimento esquizofrénico dos moluscos, e as bocas deles que parecem canais de sargaço embriagados, escoltados por uma baleia de armadura veludo verde coberto de pó.






Limpeza. Necessita de dinheiro para alimentar os dois filhos e o vício dos detergentes, e a apanha da amêijoa é uma boa maneira de orientar mais algum dinheiro por fora. Para alguém com a mania das limpezas não é fácil enterrar todos os dias os pés na lama e chegar a casa e ter as mãos esgravatadas das conchas e ainda ter dar de comer aos dois gémeos siameses. Durante as pausas de almoço os sapatos de salto fino sujos de lama são um fardo económico ao final do mês. A areia mascavada não ajuda mas apanha-as às dezenas com uma só apanha. Vale-lhe a audição pois ouve os traços que as amêijoas fazem na areia








O sonho. Tem dias em que pensa partir o vidro que a separa do rio com o salto fino sujo de lama; sair num sítio onde pudesse pisar a areia mole sem se magoar e ver o céu estrelado numa cadeira de escritório insuflável.

                                          




O rabo. Mas o assento é pequeno demais para acomodar aquele rabo em forma de coração, gordalhufo e falador. Remexe-se por isso frequentemente, tentando encontrar a posição mais confortável depois de oito horas passadas em frente ao computador. Descruza as pernas, liga o fax, envia finalmente o relatório já revisto para a sede, desliga a luz e sai.


LETRAS GORDO 

THE SOMBRERO GALAXY


http://www.acclaimimages.com/_gallery/_pages/0124-1009-2114-2759.html 

“There are no facts, only interpretations.”


Friedrich Nietzsche

quarta-feira, março 21, 2012

30 story hotel in China built in just 15 days

New documentary about an 85-year old sushi master

Tree-Climbing Goats of Morocco

Tree Climbing Goats of Morocco 

Meu Universo Mozart

A noite abeirou e com ela uma infinidade de estrelas presas ao céu. O palco, a música e os espectadores fundiam-se numa harmonia existencial sublime capaz de vergar o espírito mais pobre ao entendimento perfeito do ser. Teresa, com os olhos semicerrados, assistiu ao concerto da varanda, nua e com uma touca verde na cabeça. Prestes a mergulhar num estado permanente de demência, a música do maestro absorveu-lhe as últimas gotas de lucidez e Teresa desembocou no mundo das notas que tocavam no ar, e de braços estendidos, como se abraçasse o palco, alcançava a claridade do conhecimento retorcido através da melodia morosa e chorava. Cria que a vida nasce só para alguns; (os outros) ficam esquecidos. Um bando de gaivotas pretas galhofava ruidosamente, antevendo a desgraça que pode irromper a qualquer um, a qualquer hora. Mas Teresa e os espectadores mantiveram-se firmes, absorvidos pelo compasso gradual da música. O sofrimento crescia de tom, os espectadores gemiam e suavam silenciosamente. Teresa não queria acreditar no que sentia. Estava eufórica com a dor que a consumia por dentro e que finalmente conferia sentido à sua existência. Afinal, como todos os outros, sofria, chorava e gemia. 

Meu universo Mozart[1]
I
Meu universo Mozart
De onde eu parto
Meu fundo ter de mim
Com seu invento

Meu fundo me afundar
Com seu palácio
Minha breve loucura
Com seu vento

Minha música-corpo
Meu orgasmo
Minha fuga meu mundo
Meu sustento

Meu universo Mozart
Meu retrato
Meu suicídio lento
Muito lento

[1] Cadernos de Poesia, Maria Teresa Horta, Minha Senhora de mim, Publicações Dom Quixote.

terça-feira, março 20, 2012

Origami Duck








Origami Duck. O pato negro vai lindo pelo passeio acima. A cabeça lisa, o bico chato, o papo comprido mais as duas patas desajeitadas que caminham prudentemente sobre a calçada. A pena que encaracola na cauda diverte-se namorando suavemente as bordas da folha. As asas feitas de papel cobrem-se da geada. E, de costas voltadas para o pato, o luar cai em pranto.


O Fantástico e o Misterioso no Japão

"Tendo apenas uma espessura de cabedal entre o assento do homem e os meus joelhos, quase podia sentir o calor do corpo dele. Quanto aos ombros, largos e musculosos, pesavam sobre o meu peito, e os seus dois braços apoiavam-se sobre os meus. Eu podia imaginá-lo a fumar um charuto, pois o cheiro forte do tabaco me chegava às narinas."

In, "O Fantástico e o Misterioso no Japão", Edogawa Rampo
O que será pior para uma ideia do que a sua própria ideia ser esquecida? E porque será que nos debatemos com outras ideias quando, à partida, elas estão condenadas à nascença e ao esquecimento. É a minha ideia e as outras que surgem depois dela, por vezes caladas ou insensatas, que fazem o meu organismo regular-se, podendo também essa ideia ser susceptível de estimular o meu estômago impaciente de fruta. O inseto vizinho escova os dentes a olhar para mim. E também ele parece impaciente. Quem julga que é para me olhar desta maneira? Os seus olhos redondos e em bico transmitem uma nostalgia demasiado peganhenta ou então a sensação de narinas com pelo que não tiram os olhos de cima de nós quando se mostram constipadas. Eu chamo-me Râ…Rii… Porra! Esqueci-me do meu nome outra vez. Mas voltando ao inseto que continua especado a olhar para mim. Creio que está zangado com a mosca que não pára de zumbir aos nossos ouvidos. É por isso que olha para mim. Talvez queira que eu vá buscar o mata-moscas à gaveta e que num gesto sagaz aniquile o pobre do bicho que bate inadvertidamente a cabeça contra a janela onde come. Mas ele sabe que eu seria incapaz. Pessoa de nome incerto. Incapaz de matar uma formiga. E, no entanto, apago tantas ideias da memória, um agora poço profundo, sem fim à vista, que me lembra constantemente quem sou. Pessoa de nome incerto.

Abstracionismo

LETRA A.
http://cargocollective.com/gordoletters/Letters 

A Torre. Passaram-se centro e trinta anos e o acampamento de refugiados visto do centésimo andar da torre parece um desenho labiríntico onde os homens do tamanho de formigas operam e trilham caminhos por entre a selvajaria humana. A torre erguida estrategicamente no centro da cidade pertence ao gang do quadrado, a máfia que controla o tráfico de ouro-marinho do pacífico sul. É uma torre construída em vidro flutuante num movimento em espiral que parece nascer do solo, com a força de uma raiz, estimulando o crescimento ascendente da planta que se inclina no topo como plasticina e tomba ligeiramente, deixando descair a lupa que vigia, em exercício informático rotatório, o comportamento da cidade que se move a cada instante.

sábado, março 17, 2012

A CÂNDIDA E O LUÍS

Quando se achou vento e seguiu, Cândida corou as faces lisas. Há cerca de dois dias, cruzou-se com o Luís na rua. Sorriu-lhe, embaraçada, mesmo tendo os lábios dormentes. “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando viu o Luís, Cândida corou com o vento. Sorriu, com os lábios dormentes e “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando a Cândida corou de vergonha, sorriu. E o vento levou-a. Coitada. Mesmo à beira do Luís. O Luís, por outro lado, corou as faces tremidas e baixou a cabeça, embaraçado. “Claro!”, pensou ele. “Não me viu de certeza...”. Cruzaram-se na rua. A Cândida e o Luís. Coraram e sorriram e pensaram “Claro!”, “Não me viu de certeza...”

sexta-feira, março 16, 2012

O Crime (excerto)

Ah! Herodes choraria de pena se tivesse escrito a Bíblia e como se comoveram os negreiros que tenham tido a ventura de ler "A Cabana do Pai Tomás! ou os que modernamente viram a versão de celuloide! Sensibiliza-nos mais a ilusão do que a própria realidade! Choca-nos um filme ou um livro sobre a miséria e a fome, que passam indiferentes ao nosso lado. Que verdade há na descrição da morte de um homem soterrado numa mina se não estamos com ele e a sua dor se encontra tão distante? Começo a deitar abaixo as prateleiras cheias de livros e rasgo-os enchendo o quarto de páginas que esvoaçam...

- Mentiras! Tudo mentiras! Vendilhões! Comerciantes!

Ah! Que sei eu do que escrevo? Falhei! Sonho que agrido o editor e o vendedor de livros com uma pesada encadernação do Gil Blas Santillana que nada vale a não ser a brochura e que os meto à força no meio de uma edição folhetinesca capaz de fazer chorar as pedras. Para conhecerem bem o que editam vão ser comidos pela traça e eu divirto-me a ouvi-los prometer gordas edições ilustradas e o melhor lugar nas prateleiras das livrarias. Depois agarro numa caixa de fósforos decidido a arder em bonzo, quando me surge a ideia. Por que não? Fecho a porta do quarto, desço as escadas a correr e saio para a rua. Pego no meu manuscrito que nunca abandono pondo-o como isca na beira da calçada. Deixo-o aberto e escondo-me no vão da escada. Por Deus! Ah! Que longa espera! Até que ele chega... sim! E como me despreza! Levanta o manuscrito do chão e folheia-o indiferente, atirando-o depois de novo para o solo. Salto do vão da escada e caio-lhe raivoso em cima! Oh!, Céus! Odeio-o! Odeio-o! Sinto a ferida que o aguilhão da indiferença e do desdém me abre na carne e, não podendo mais, deito-lhe a mão ao pescoço e estrangulo-o quando só desejava que ele reparasse em mim!...
Desço lentamente até ao chão de joelhos e pego fogo à roupa. Ao arder, choro amargamente arrependido.

- Oh! Meu Deus! Que estúpido sou! Agora que matei o leitor que gesto inútil não é suicidar-me?

Miguel Barbosa, in "Esta Louca Profissão de Escritor", páginas 36 e 37, Colecção Passo a Palavra, Livraria Ler Editora

quinta-feira, março 15, 2012

Quatro Cavaleiros a Pé

"Vão-se outra vez chegando à porta, com o jeito vagaroso de quem só pretende salvar a honra, e num relance desaparecem, corridos de vergonha, de medo, assustados com a sua própria coragem que não durou. (Ainda há pouco o café com leite não amargava, e a sanduíche não tinha gosto de palha). Entraram-me ali na loja quatro cavaleiros a pé, montados no esquecimento da sua ignorância, distraídos ou nunca sabedores de que nada é mais alto do que o homem, qualquer homem e em qualquer lugar, mesmo que neste se reserve o direito de admissão. Quatro cavaleiros que mais pareciam atados à cauda dos cavalos, como réus. Quatro cavaleiros que me deixaram olhar o fundo deste saguão fétido a que muita amorosa gente chama hierarquia, paz social, conformação de tantos com a sorte escolhida por poucos.
Faltam cavalos, amigos, faltam cavalos".

José Saramago, in "A Bagagem do Viajante"

quarta-feira, março 14, 2012

Bonnie and Clyde
Bonnie Parker

AS IDENTIDADES ASSASSINAS (excerto)

Não sonho com um mundo onde a religião deixe de ter um lugar, mas sim com um mundo onde a necessidade de espiritualidade esteja dissociada da necessidade de pertença. Um mundo onde o homem, continuando embora ligado às suas crenças, a valores morais eventualmente inspirados num livro sagrado, não sinta mais necessidade de se juntar ao exército dos seus correligionários. Um mundo onde a religião já não serviria de cimento a etnias em guerras. Não basta separar a Igreja do Estado, tão importante como isso seria separar o religioso do identitário. E justamente, se se quiser evitar que esta amálgama continue a alimentar o fanatismo, o terror e as guerras étnicas, será necessário poder satisfazer de outro modo a necessidade de identidade. 

In "As Identidades Assassinas", de Amin Maalouf.

terça-feira, março 13, 2012

O melro que abandonou as florestas para se tornar num pássaro citadino

No que diz respeito ao planeta, esta invasão do mundo do homem pelo melro é incontestavelmente mais importante do que a invasão da América do Sul pelos Espanhóis ou do que o regresso dos Judeus à Palestina. A modificação das relações entre as diversas espécies da criação (peixes, pássaros, homens, vegetais) é uma modificação de ordem mais elevada do que as mudanças nas relações entre os diferentes grupos de uma espécie. Que a Boémia seja habitada pelos celtas ou pelos Eslavos, a Bessarábia conquistada pelos Romenos ou pelos Russos, à Terra tanto lhe faz. Mas que o melro tenha traído a sua natureza original para seguir o homem no seu universo artificial e contranatura é um facto que já altera alguma coisa quanto à organização do planeta.
No entanto, ninguém ousa interpretar os dois últimos séculos como a história da invasão das cidades do homem pelo melro. Somos todos prisioneiros de uma concepção pré-estabelecida do que é importante e do que não o é, fixamos sobre o que é importante olhares ansiosos, enquanto, furtivamente, nas nossas costas, o insignificante conduz a sua guerrilha, que acabará por alterar subrepticiamente o mundo e atacar-nos de surpresa.

In O Livro do Riso e do Esquecimento, Milan Kundera

segunda-feira, março 12, 2012

Excerto de "As Cidades Invisíveis"

Kublai – Tudo é inútil, se o último local de desembarque tiver de ser a cidade infernal, e é lá no fundo que, numa espiral cada vez mais apertada, nos chupar a corrente.

E Pólo - O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir, se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos aos estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.

Calvino, in “As Cidades Invisíveis”, 5ª edição, página 166, Editorial Teorema

domingo, março 11, 2012

I ACTO - Amanhã será...

Personagens (Por ordem de entrada em cena)

ELA
ELE
O HOMEM DOS BOLSOS OCOS


No centro da sala, que descai ligeiramente para a direita, está uma mesa quadrada, simples, castanho-âmbar. Não existem quadros pendurados nas paredes, a televisão está ligada à corrente, mas não tem sinal. O rádio está avariado faz meses ou então precisa de pilhas.
Ouve-se uma conversa em sussurro. Iluminação do palco. Amarela-alaranjada. Ela e ele estão de pé, frente-a-frente, no canto direito do palco, ele de costas para o público. Ela chora, quase compulsivamente, embriagada pela dor, contorcendo-se e movendo-se vagarosamente. Dão as mãos e num acto trôpego e cavalgante de ventos vindos do Sul abraçam-se.


ELA (acabrunhada)
Amas-me?

ELE
Já te disse que sim. Tens de parar de perguntar isso. É irritante!

ELA
Sabes, hoje vi o sol nascer em cima da cómoda que atravanca a porta de dentro do quintal. Quando éramos mais novos, fazíamos isso. Esgueirávamo-nos da atenção dos vizinhos, cobríamo-nos com o lençol velho da Tia Albertina e acompanhávamos o passo lento do Sol, lembras-te?

ELE (desinteressado)
Sim, lembro. Ainda há leite no frigorífico?

ELA
Acho que sim. Vou ver.

O telefone de casa começa a tocar. Estridente. Ela sai para comprar leite e ele pega no telefone, mas hesita em puxá-lo ao ouvido. Ao quinto toque, atende.

ELE
Estou sim? Sim, muito obrigado. Sim... é o próprio. Não tem problema nenhum. Não, não interrompeu o almoço. Sim, já almocei, não se preocupe. Mas diga, diga,...

O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Não me leve mal mas há tempos pus-me a pensar como será ser-se peludo, mas mesmo muito peludo. Essas pessoas, coitadas, devem suar imenso. Até de noite. Consegue imaginar tamanho desconforto? Bem, adiante.

ELE
Sim, adiante.


O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Por vezes falo pelos cotovelos... A minha mãezinha dizia que... Ora, muito bem, vou directo ao assunto: o senhor é peludo?

ELE
Mas que raio de pergunta vem a ser essa?! Tenho alguns pêlos mas não são muitos. Alguns, mais na zona púbica.

O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Tenho a solução ideal si. Um tratamento 100% natural que resolve em apenas, repito, em apenas, duas semanas o seu problema.

ELE
De facto, deve ser bom não ter pêlos encravados na pele. E quanto custa esse tratamento?


O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Para si... 100 euros certinhos! Que me diz?

ELE
Pago por multibanco ainda hoje, pode ser? Já tenho o NIB anotado, sim, não se preocupe. E quando recebo o produto?

O HOMEM DOS BOLSOS OCOS
Amanhã por volta da hora do almoço. Combinado?

ELE
Tudo certo então. Amanhã será...

by Herb Ritts

sexta-feira, março 09, 2012

Complexo Canibal

Aquando o tempo o permitiu,
Regaram com mel o vício sexual
O clítoris em círculos ainda frio
E os cheiros côncavos, propensão carnal

Desce a língua indiscreta abaixo da cintura
Perdendo-se na púbis, pantanal escritura
No final já era só dormência
húmida volúpia labial
Devolveu-me o punho anal
trémula consciência

Wai Wai Instant Noodle

Wai 
small victories 101 photos by 101 photographers hong kong above second gallery

desequilíbrio

Descia as escadas do prédio e veio-me à memória o quadro do Mário torto na sala, o par de sapatos desencontrado no chão do quarto, a porta esquerda do armário entreaberta, os cacos de vidro debaixo da porta, o perfume caído na estante, os óculos sem uma haste, as camisolas do avesso, o porta jóias desarrumado, as velas queimadas, as flores artificiais murchas, a cama desfeita, o gravador estragado e o cadáver que escondo debaixo da cama há vinte anos e do qual ainda não me consegui desfazer porque ele insiste e diz que me ama sempre que me deito ou que me levanto. Todos os dias. Há vinte anos. Hoje não me respeita mais. Vou-me embora. Desço as escadas.

quinta-feira, março 08, 2012

"Goldfish Salvation" Riusuke Fukahori

Crazy Art documentary trailer

A TRIBO SUBTERRÂNEA DE FUKUOKA

    IV PARTE

    Concentrar-se parecia praticamente impossível. Se ao menos tivesse uma última dose de shabu… Com alguma prudência vai estendendo pouco a pouco a pata e, atenta aos movimentos da meretriz esqueleto, tenta alcançar a katana. Depois de um algum esforço consegue segurá-la com firmeza e sossega uns segundos antes de erguê-la e trespassá-la finalmente pelo pescoço do Imperador. E nisto começa uma corrida desenfreada pelas condutas da prisão, sobe lances sucessivos de escadas, os pés doridos parece que se desmontam, as pernas estão descontroladas, precisa descansar um pouco mas não pode porque corre pela vida e pelo sol que espera por ela dois andares acima. 
   Todos correm atrás de si: anões aos tropeços, generais fardados, mais a meretriz esqueleto que, ao assistir impávida à decapitação do Imperador, se metamorfoseara numa medusa mãe gigante. Só o saco globular gelatinoso mede quatro metros de diâmetro. O tempo começa a esgotar-se. A gema no interior da medusa – o centro de comandos – coordena o exército de alforrecas subterrâneas. Milhares de criaturas saem do interior da terra. Expulsam um líquido azul claro que corroí tudo: materiais, canalizações, tecidos corporais. O grupo começa a assemelhar-se a uma procissão iluminada que voa. 
    Corre até que esbarra contra um tronco de árvore que a faz recuar dois metros. Ele pertence ao segundo piso. Ao das aberrações genéticas. Não sabe muito sobre ele, a não ser que é o prisioneiro mais lucrativo da prisão. Não entende o que diz e pede-lhe desculpa. E quando se prepara para continuar a correr tudo à sua volta desaparece. A não ser a saída de esgoto que olha para ela lá de cima. Parece estar numa espécie de poço desativado onde ainda consegue ouvir os gritos da meretriz que esbraceja e arranca os cabelos azuis contra a lentidão do exército que, em poucos minutos, já corroeu grande parte da estrutura e transformou-a numa massa de terra disforme sem memória. Está perto da corrosão. Já não deve faltar muito para que a meretriz a encontre no poço e a decapite, exatamente da mesma forma como ela decapitara o Imperador. Procura uma alternativa. E quando menos espera, enterra a cara na terra e descobre a solução. 


O céu de Fukuoka permanece o mesmo. Cinzento. Arrojado. Imperativo. Mas as ruas da cidade perderam a luz de outrora. Nem os habitantes parecem mais os mesmos. Os três acessos da cidade estão vedados ao trânsito. Está proibida a circulação de pessoas e animais fora da cidade. Uma metrópole dissimulada, onde mais de mil pessoas, incluindo crianças, correm penduradas em cabos de aço, com as suas pernas implantadas e um sorriso esquivo no rosto, numa passadeira perversamente gigante. 
    A verdade é que fora do esgoto ela não se sente menos suja, menos usada, menos conspurcada. Encontra-se, mais uma vez, num beco sem saída, desta vez a céu aberto. E os efeitos do shabu que consumira antes atingem agora o seu pico. Dois guardas imperiais, de cabelo solto, pelos pés, cercam-na de e imediato lançam uma rede de pesca sobre si. Não aquela que exaltava a precisão dos calceteiros ou a pujança dos operários. Os guardas falam um dialeto esquisito, meio enrolado, e apontam para ela, meio confusos. Na reunião convocada de emergência acorda-se o seu futuro e, ainda de madrugada, é colocada na ala da frente da passadeira, com vigilância permanente, vinte e quatro horas por dia. 
    Está cansada, profundamente magoada com os carris que se atravessam no seu caminho e não a pisam, os desgraçados. Sente-se incapaz. A descartabilidade humana afeta-a. É levar-se pela mornidão do Outono, pelas folhas carpidas cujo queixume ninguém quer ouvir. Ouvidos moucos. 
    Repito: sente-se descartável, usada, suja, conspurcada.
Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país. Nessas regiões encontro gente que não sabe ler livros. Mas que sabe ler o seu mundo. Nesse universo de outros saberes, sou eu o analfabeto. Não ser ler sinais da terra, das árvores e dos bichos. Não ser ler nuvens, nem o prenúncio das chuvas. Não sei falar com os mortos, perdi contacto com os antepassados que nos concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que faço à savana, vou aprendendo sensibilidades que me ajudam a sair de mim e a afastar-me das minhas certezas. Nesse território, eu não tenho sonhos. Eu sou sonhável.

In "E se Obama fosse africano? e outras intervenções", de Mia Couto

quarta-feira, março 07, 2012

A TRIBO SUBTERRÂNEA DE FUKUOKA

    III PARTE

   O sapo segurança aguarda ansiosamente novas instruções. Sempre que a meretriz-esqueleto passa por si altivamente entrelaça a língua e cospe de êxtase centímetros de langonha entremeada. Mas, infelizmente para o anfíbio, ele é-lhe indiferente. Trata-o com desdém, como o ser medíocre que é. Durante os banhos, a meretriz de mangas arregaçadas fita os prisioneiros com a visão turva do vapor, mas estes mostram-se desentendidos pois sabem que, por ali, só sobrevive quem não chama a atenção. Os seus olhos castanhos cavados encontram naqueles vermes decrépitos a ablução da alma, um revirar de olhos tão poderoso capaz de a colocar no centro do universo, junto de Dalí. Pois enquanto era viva quase morreu de desgosto à hora do chá. A camomila que não pediu licença para entrar e lhe tomou de assalto o coração que não cessava mais de jorrar solidão sobre si. Mas o imperador poupara-a da adjudicação eterna a Deus. Ela é o papagaio que o imperador mantém ao ombro para encanto dos que por si passam. Mas a meretriz não se importa. Ele é uma ratazana ambiciosa e astuta. Um sujeito sem escrúpulos a quem deve a vida. Uma segunda oportunidade que lhe valeu uma posição bastante confortável na prisão. 
    Mas, à semelhança do imperador, ela não admite abusos, muito menos raptos de poder hostis vindos de prisioneiras que insistem em insinuar-se ao soldado mor, cruzando e entrecruzando as patas, de forma interesseira e sedutora. Intriga-a a razão de todo o esforço que seria em vão. Dali ninguém sai vivo e só essa ideia provocava-lhe arrepios de prazer na espinha curva. 

- Sinto-me tão carente… - suspira a prisioneira, já debruçada sobre a beiça gorda do sapo. 

- Sim, sim… Não te aproximes tanto… -, responde-lhe, atento à meretriz que agora se levanta na sua direção. 

    A mulher caranguejo estava ciente do que lhe esperava. Quem enfurece a meretriz ou morre ali ou é enterrado vivo na ala direita e morre depois. Por outro lado, não tinha nada a perder. Passava horas a fio, de braços cruzados, consentindo impavidamente o seu fingimento enquanto cirandava pelos canais dédalos que lhe castravam o anseio de tocar o mundo, de chegar lá acima e sentir o sol chapear-lhe calorosamente a cara. Mas este parecia ser o seu amaldiçoado âmago poento. Saudação muda. O vazio tornara-se um fardo demasiado pesado para carregar às costas; já desistira de limpar afincadamente as calças de fina seda, manchadas de iodo. Permanecia isolada. Não conversava com os outros prisioneiros. E era com a força da espuma cor de salmão que a veneziana experimentava lançar redes de pesca ao mar. Com isto, digo imaginar um universo menos profundo ou menos macabro onde exalta a precisão dos calceteiros da cidade de Fukuoka ou a pujança dos operários lá de cima que, de olhos vendados, correm o mais rápido que conseguem. 
    A imperatriz parece implacável e, impulsivamente, agarra na mulher caranguejo pelo pescoço e atira-a contra um portão de ferro maciço. Pensava como seria bom afastar-se do grupo e morrer sozinha como um elefante. Ao invés, está caída aos pés de um mar de lodo onde enxuga as lágrimas, pois é a ele que agora pertencem, e tenta ignorar as palavras de ódio e o cuspo da meretriz que retorque ignobilmente o seu silêncio. Até que as gargalhadas da mulher esqueleto são afogadas por um “Basta!” pronunciado alto e severamente pelo Imperador. Desde sempre que a ideia de uma mulher em apuros é bem mais estimulante que a ideia de uma mulher em liberdade. Está indignado com o comportamento leviano da meretriz. Expulsa-a da sala. A meretriz acena com a cabeça e sai cautelosamente, de pés mansos. 
    Agora é a vez do Imperador fitar a mulher caranguejo. A sua expressão corporal dócil e ignorante lembra-lhe um puzzle fácil de desmontar. Começa a sentir-se excitado. Segue pata atrás de pata. E por pouco que a túnica de palha não lhe desvenda a ascensão do músculo nobilíssimo. 

- Encaminha os vermes de forma ordeira para as suas celas e traz-me imediatamente a prisioneira ao salão nobre -, impõe o Imperador ao sapo mor à medida que desaparece pelo túnel escuro, já sem as vestes e o chapéu amarelo-torrado. 

    No salão, a imperatriz roí os ossos das mãos de ansiedade. Sabe que será punida, só não sabe até que ponto a punição não significa a sua própria morte. E, pela primeira vez desde que desceu ao subsolo, pensa em como seria bom que alguém lá em cima soubesse do contrabando de estupefacientes e do genocídio desumano por quem ela assina por baixo. Mas nada parece prever o contrário. Os habitantes de cidade não pensam já por si. Apenas correm. Correm muito. Com a memória enterrada debaixo da terra. Mas a preocupação dá lugar à surpresa assim que vê entrar a mulher veneziana, com os pulsos acorrentados a duas argolas de ouro, e o Imperador de katana ágil na mão, sem a veste imperial. O salão nobre feito depósito de jornais e tecidos amarfanhados exala um odor semelhante a amoníaco e baixa as guardas da mulher caranguejo. Depois de despejada num monte de plásticos e outros materiais duros, a mulher crustáceo é surpreendida pela força dos dentes vorazes do Imperador atravessar as suas pinças. Do nada, suga-lhe a água do corpo. A impavidez do imperador é demasiado controlada e, por momentos, sente-se impotente. Não tem mais forças para remar contra a maré de merda. 
    Mas a katana deixada ao acaso em cima de um pedaço de cartão molhado parece-lhe por instantes acessível dali. Basta um movimento brusco na pata direita, já meio devorada, para desviar a atenção da da esquerda que consegue agarrá-la e zás! Além disso, não há guardas por perto. Nem seguranças anões. A meretriz já não significa ameaça agora que o Imperador a descartara do baralho. E esse, bem esse, parece plenamente concentrado em chupar-lhe a pata.

prazer feminino

«Rir? Pensamos alguma vez em rir? Quero dizer rir verdadeiramente, além da brincadeira, da troça, do ridículo. Rir, gozo imenso e delicioso, gozo completo...

Dizia à minha irmã, ou dizia-me ela a mim, anda, vamos brincar a rir? Deitávamos-nos lado a lado sobre uma cama e começávamos. A fingir, claro. Risos forçados. Risos ridículos. Risos tão ridículos que nos faziam rir. Então chegava o verdadeiro riso, o riso inteiro, que nos transportava no seu imenso rebentar. Risos sem gargalhadas, redobrados, desordenados, desenfreados, risos magníficos, sumptuosos e loucos... E ríamos até ao infinito do riso dos nossos risos... Oh rir! rir de prazer, o prazer de rir, é tão profundamente viver.»

"O texto que acabo de citar é extraído de um livro intitulado Parole de femme. Foi escrito em 1974, por uma das feministas apaixonadas que marcaram, com um traço distintivo, o clima do nosso tempo. É um manifesto místico de alegria. Ao desejo sexual masculino, votado aos instantes fugazes da erecção, portanto fatalmente ligado à violência, à aniquilação, ao desaparecimento, a autora opõe, exaltando-o como seu contrário, o prazer feminino, doce, omnipresente e contínuo. Para a mulher, desde que não esteja alienada à sua própria essência, comer, beber, urinar, defecar, tocar, ouvir ou até estar ali, tudo é gozo. Esta enumeração de volúpias estende-se ao longo do livro como se fosse uma bela litania. Viver é uma felicidade: ver, ouvir, beber, comer, urinar, defecar, mergulhar na água e olhar o céu, rir e chorar. E se o coito é belo, é porque é a totalidade do prazeres possíveis da vida: o tocar, o ver, o ouvir, o falar, o cheirar, mas também o beber, o comer, o defecar, o conhecer, o dançar. O aleitamento também é uma alegria, até o parto é prazer, a menstruação é uma delícia, essa saliva morna, este leite obscuro, esse corrimento morno e quase açucarado do sangue, essa dor que tem o sabor ardente da felicidade.
Só um imbecil sorriria deste manifesto da alegria. Toda a mística é exagero."

Milan Kundera, in "O livro do riso e do esquecimento"

terça-feira, março 06, 2012

A TRIBO SUBTERRÂNEA DE FUKUOKA

    II PARTE



    Aquela agitação toda tinha a ver com o facto de não poder viver nem mais um dia com os pés atolados em toneladas de lodo venéreo, a escavar a terra com uma foice demasiado curta, por túneis demasiado compridos. Procurava à força a sua carta de alforria, o seu pequeno-almoço ao relento em dias de chuva. Pois o peixe necessitava da humidade para engrossar as barbatanas e desenvolver as escamas embebidas na pele.
    Nisto, a katana apontada na direção da testa suada do prisioneiro e o lábio superior do Imperador que se esquiva presunçosamente para cima calam a sala. Traz respeitosamente um chapéu amarelo-torrado na cabeça, com o cabelo apanhado atrás num carrapito curto e uma túnica de palha que pouco contrasta com a pele lavanda claro. Ajoelha-se perante o prisioneiro. Pega no seu membro frio com uma certa delicadeza e desliza levemente o dedo indicador ao longo de toda a extensão da sua cauda. Lambe-lhe as barbatanas dorsais definhadas e cheira-o, como a ratazana que é, antes de o aniquilar perante os outros dezanove que cerram os olhos por impulso quando a katana, num só golpe, cerra ao meio o corpo cilíndrico da enguia que por breves instantes mantém-se equilibrada em cima de uma das partes empoladas. 
    A meretriz-esqueleto pavoneia-se pela sala e intriga os prisioneiros que se esforçam por evitar o contato direto. Uma dama de corte com farta cabeleira rosa, de algodão, vestida com doze kimonos de fina seda sobreposta não emana uma energia tão forte como a sua. E ela sabe-o. Num mundo onde não existem regras a linha que separa o caçador da presa é ténue e as sete alforrecas que orbitam translucidamente à sua volta estão lá para lembrá-la disso. Não servem apenas de candeeiros. São o seu escudo protetor ou, noutra perspetiva, o seu bilhete de volta. 
    O produto recolhido está pronto a ser reencaminhado para o mercado negro. O intermediário é uma criatura estranha que desconhece o conteúdo das encomendas. A cabeça e o tronco têm a forma de uma chaleira: o cabelo a pega, o nariz a saída do vapor, os olhos uma caligrafia mas os braços são rijos e musculados e a sunga mostra uma saliência protuberante. 
    Os maiores consumidores de shabu fazem parte da nova classe de trabalhadores-máquinas. A alta densidade populacional obrigara o governo a implementar uma lei que autorizava, às entidades patronais públicas, a implantação de pernas artificiais nos seus funcionários, mesmo sem o consentimento dos próprios ou dos seus progenitores. A invenção de uma passadeira gigante capaz de gerar energia barata a partir da exploração da força humana foi a cereja no topo do bolo. Além do mais, esta forma de escravidão foi mantida em segredo. Talvez porque a ideia de trabalhadores estendidos em quilómetros de corda de aço, correndo numa passadeira em direção à rua que ali continua, parada, lhes pareceu demasiado atroz para cair no falatório público. 
    A meretriz-esqueleto faz sinal ao sapo para dar início aos banhos. Cabe-lhe a ela a vigilância do espaço. Por norma, aos prisioneiros é garantida uma imersão em shabu por semana. No meio de toda aquela sujidade sabe bem lavar os pés de vez em quando. Os poços retangulares aguentam até cinco prisioneiros e testemunham o encontro sublime do corpo com a água pingada, pois também eles eram viciados. As membranas, os cornos e os membros genitais inchados são esfregados até à exaustão por cães da pradaria de braços longos com escovas de cerdas naturais ao invés de patas. O realismo daquela pintura era merecedor de prémio e animaria qualquer um, até os trabalhadores de Fukuoka que correm pendurados em estendais de aço.

Comunidade 1964 / Luís Pacheco

A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, me penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. 

segunda-feira, março 05, 2012

A TRIBO SUBTERRÂNEA DE FUKUOKA


     I PARTE


    Os prisioneiros colocaram-se em fila para dar início à recolha. Dois guardas anões, aparentemente suficientes para controlar aquela secção, apalpavam-lhes os bolsos convalescidos à procura do produto. Um a um, é-lhe retirada a bolsa vermelha que deve conter dez ou mais gramas de shabu.
    A recolha era relativamente simples. Grupos de vinte prisioneiros. Cinco grupos no total. Dois soldados-anões por cada grupo. O soldado-mor ou o sapo permanentemente inchado de diâmetro superior ao de uma mula que controlava os homens anões e, finalmente, o Imperador e a meretriz-esqueleto no cimo da pirâmide: a elite de criaturas sobre-humanas destacada pelo governo para dominar aquela rede de esgotos barra prisão. 
    A Ratazana era o rei do espaço, o responsável pela exterminação dos prisioneiros que, chegado o final do mês, não conseguiam recolher gramas suficientes de shabu. Nos primeiros anos após a II Guerra Mundial, grandes quantidades desta metanfetamina foram escondidas debaixo da cidade de Fukuoka e mantidas em segredo no seio da monarquia imperial e do governo japonês. Aquela substância, que em tempos fora distribuída por soldados, pilotos e operários ligados ao fabrico de armas, entrava novamente no mercado. Desta vez para melhorar notavelmente o desempenho dos trabalhadores feitos máquinas da cidade. Mais uma vez a história repetia-se. Durante décadas, milhares de escravos contemporâneos trabalharam na construção de um sistema de esgotos perfeito. Para não atrair a atenção dos habitantes, as obras foram efetuadas durante a noite. Fundava-se uma rede de canais labirínticos, composta por quatro secções administradas por um grupo de trinta soldados anões destacados a custo pelo exército. 
    Mas naquele dia os dois guardas anões, de peito inchado e enrugado, viram-se obrigados a chamar reforços. Os seus braços ásperos e pequeninos, semelhantes a duas ameixas mirras, não foram capazes de demover a defesa contorcionista de um prisioneiro que ao não acatar a ordem final do imperador arremessava-se bruscamente, feito enguia, contra a conduta de esgoto subterrânea que não cedeu apesar das rachas.




Aldin Rashid Calligraphy in Nisaburi Kufic style

Aldin Rashid Calligraphy in Nisaburi Kufic style 1996 Ink and gold leaf on paper Lent by the artist




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